Ancelotti e Courtois, poucos antes da partida em La Cerámica, se posicionaram duramente contra os poucos dias de descanso. Seleção
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Carlo Ancelotti pode ser a solução do Brasil para 2026, mas não adiante

Após meses de especulação e uma longa negociação nos bastidores, Carlo Ancelotti está muito próximo de assumir oficialmente o comando da Seleção Brasileira. Com a iminente saída do Real Madrid ao fim da temporada europeia, o técnico italiano deve ser o escolhido da CBF para liderar o Brasil na caminhada até a Copa do Mundo de 2026.

A chegada de Ancelotti representa mais do que um simples nome estrangeiro no comando da seleção pentacampeã do mundo, ela simboliza uma tentativa da CBF de importar uma mentalidade vencedora e experiente para um time que, há anos, oscila entre promessas e frustrações. O veterano treinador carrega em seu currículo uma coleção de títulos e uma reputação de bom relacionamento com os jogadores, algo que pode ser vital para um grupo recheado de estrelas e carente de liderança consolidada.

Ancelotti não é um revolucionário tático, e nunca quis ser. Seu estilo pragmático e equilibrado prioriza a adaptação ao elenco e a valorização das virtudes individuais de seus jogadores. Foi assim no Milan dos anos 2000, no Chelsea campeão inglês, no Real Madrid dos galácticos da nova era e, mais recentemente, no time de Vinicius Júnior e companhia. Ele conhece como poucos o ambiente de vestiário, sabe lidar com pressão e, principalmente, com egos. O italiano é visto como um verdadeiro “paizão”, respeitado e querido por onde passa.

Essa característica pode ser essencial para a Seleção Brasileira neste momento. O elenco atual da seleção está em constante transição, com jovens estrelas como Endrick e Vini Jr dividindo espaço com nomes mais experientes. Ancelotti chega com a missão de unir esse grupo em torno de um projeto claro, disciplinado e competitivo.

Tática madura, mas sem invenções

Taticamente, Ancelotti oferece estabilidade. Seus times são bem posicionados, compactos e com forte capacidade de adaptação ao adversário. Ele não impõe um sistema único e inflexível, mas costuma apostar em variações que dependem das peças disponíveis. O 4-3-3 que virou marca registrada em sua segunda passagem pelo Real Madrid pode se repetir na Seleção, com liberdade para os atacantes e meio-campo de controle e força física.

No entanto, é preciso reconhecer os limites dessa escolha. Ancelotti não deve trazer nenhuma grande novidade conceitual ao futebol brasileiro. Diferentemente do que propôs Fernando Diniz, que por alguns meses acumulou a função de técnico interino da Seleção e buscava resgatar uma identidade criativa e ousada, o italiano tende a priorizar a eficiência, mesmo que para isso sacrifique alguma originalidade.

A esperança da CBF é que, com o comando de Ancelotti, o Brasil possa reencontrar o caminho da competitividade em grandes torneios, especialmente após as campanhas frustradas nas Copas de 2018 e 2022. A aposta é que o peso do nome e a experiência do treinador sejam suficientes para conduzir o time até, pelo menos, as semifinais da Copa de 2026, o que já seria considerado um avanço.

Ancelotti é o nome do momento, mas não do futuro

Mesmo antes de assumir oficialmente, a sensação é de que o ciclo de Ancelotti tem prazo de validade. A expectativa geral é que ele conduza a seleção até o Mundial de 2026 e, independentemente do resultado, deixe o cargo após a competição. A própria postura do treinador reforça essa ideia: aos 65 anos, ele não esconde o desejo de desacelerar sua carreira após tantos anos na elite do futebol europeu.

Esse cenário impõe um desafio à CBF: como usar o ciclo de Ancelotti não apenas para buscar um título, mas também como uma ponte para um projeto mais duradouro e, finalmente, mais brasileiro?

Desde a breve passagem de Diniz, muito se falou sobre a reconstrução da “identidade” do futebol brasileiro, algo que vai além de tática, e passa pela valorização da técnica, da criatividade, da cultura ofensiva e da espontaneidade. Com Ancelotti, o Brasil tende a se tornar mais competitivo, mas corre o risco de interromper esse processo de autoconhecimento e desenvolvimento de um estilo próprio.

No final, Ancelotti chega como um respiro em meio à instabilidade, mas não como um salvador. Seu histórico e sua personalidade são ativos importantes para o Brasil voltar a ser protagonista, mas a CBF não pode se acomodar com uma solução provisória. O técnico italiano vai entregar profissionalismo, maturidade e resultados, mas não construirá uma filosofia de longo prazo.

Por isso, o legado de Ancelotti não pode ser apenas um título ou uma boa campanha. Deve ser também a preparação do terreno para que, em um futuro próximo, a Seleção Brasileira seja comandada por alguém que conheça, respeite e desenvolva o DNA do futebol brasileiro. Até lá, o que se espera é um time mais estável, organizado e que, finalmente, pare de oscilar.

Foto: Aitor Alcalde/Getty Images – Reprodução.