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Copa do Mundo

Caso Balogun coloca Fifa sob pressão e levanta suspeitas de interferência política na Copa do Mundo

Uma das regras mais conhecidas do futebol parecia simples. Um jogador recebe cartão vermelho, deixa o campo e fica suspenso da partida seguinte. A atual edição da Copa do Mundo produziu uma exceção que coloca essa certeza em dúvida.

A Fifa decidiu suspender a punição de Folarin Balogun e liberou o artilheiro dos Estados Unidos para enfrentar a Bélgica. A falta de explicações e os contatos do governo americano com Gianni Infantino transformaram um caso disciplinar em uma das maiores polêmicas do torneio.

Uma exceção quase sem precedentes na história da Copa

Balogun Estados Unidos
Reuters

Folarin Balogun foi expulso durante a vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia e Herzegovina nos 16 avos de final. O atacante disputou uma bola com Tarik Muharemovic e acabou pisando acidentalmente no tornozelo do jogador bósnio.

O cartão vermelho foi considerado rigoroso por muitas pessoas. Isso não significa necessariamente que a decisão tenha sido errada.

As regras do futebol deixaram de considerar a intenção como elemento principal em lances desse tipo. Um jogador pode não querer atingir o adversário e, mesmo assim, ser expulso caso sua ação coloque em risco a integridade física de quem sofreu a entrada.

A consequência parecia definida. Balogun perderia o confronto contra a Bélgica pelas oitavas de final.

A Fifa decidiu suspender a punição.

O tamanho da exceção pode ser entendido pelos números. Em toda a história das Copas do Mundo, foram registrados 189 cartões vermelhos. Apenas dois jogadores expulsos não cumpriram suspensão.

Balogun é um deles.

O outro foi Garrincha, em 1962.

O brasileiro foi expulso contra o Chile na semifinal, mas disputou a final contra a Tchecoslováquia. A comparação possui uma diferença fundamental. Naquela época, não existia uma suspensão automática após o cartão vermelho. O caso era analisado por um comitê com base nas informações apresentadas pelos árbitros.

Além disso, a própria decisão envolvendo Garrincha foi cercada por acusações de interferência política.

Mais de seis décadas depois, uma Copa do Mundo volta a apresentar um caso extremamente raro de um jogador expulso que poderá atuar na partida seguinte.

Fifa utiliza artigo inédito e não explica sua decisão

Gianni Infantino discursa na simpósio da IFAB. Foto: Reprodução/SpazioNapoli
Gianni Infantino discursa na simpósio da IFAB. Foto: Reprodução/SpazioNapoli

O Código Disciplinar da Fifa estabelece que uma expulsão por jogo brusco grave deve resultar em uma suspensão de pelo menos duas partidas.

As regras da Copa também determinam que as seleções não podem recorrer de um cartão vermelho.

Mesmo assim, Balogun está liberado.

No comunicado sobre o caso, a Fifa não explicou os motivos que levaram à decisão. A entidade citou apenas o artigo 27 de seu Código Disciplinar.

O artigo permite que a Fifa suspenda total ou parcialmente a execução de uma medida disciplinar. Trata se de uma regra ampla, que oferece grande liberdade para a entidade tomar decisões sem precisar atender a critérios mais específicos.

O detalhe mais importante é que esse artigo nunca havia sido utilizado em uma Copa do Mundo.

Outro ponto permanece sem resposta.

Se o Código Disciplinar prevê pelo menos duas partidas de suspensão por jogo brusco grave, por que a punição de Balogun suspensa pela Fifa era de apenas um jogo?

Isso também não foi esclarecido.

Quando questionada, a entidade citou como comparação o caso de Cristiano Ronaldo. O português deveria ter recebido três partidas de suspensão por atingir Dara O’Shea com uma cotovelada durante a derrota de Portugal para a Irlanda nas Eliminatórias.

Ronaldo cumpriu uma partida contra a Armênia, enquanto os outros dois jogos da punição ficaram suspensos.

Os casos são diferentes.

A expulsão do português aconteceu nas Eliminatórias, não durante uma Copa do Mundo. Naquela ocasião, a Fifa também apresentou uma justificativa. A entidade levou em consideração o fato de Ronaldo não ter sido expulso em suas outras 225 partidas internacionais.

No caso de Balogun, nenhuma razão foi divulgada.

A ausência de informações criou um cenário inevitável de desconfiança.

Por que este caso recebeu tratamento especial? Quais fatores foram levados em consideração? Quem tomou a decisão?

Até agora, essas perguntas continuam sem resposta.

Bélgica se revolta e outros expulsos ganham motivos para questionar a Fifa

rudi garcia belgica
Foto: photonews

A seleção mais diretamente prejudicada é a Bélgica.

Balogun é o artilheiro dos Estados Unidos nesta Copa, com três gols. Sua presença muda a preparação para o confronto das oitavas de final.

A Federação Belga afirmou estar surpresa com a liberação e citou regulamentos, apresentações realizadas em workshops e reuniões organizadas antes da competição. Segundo os belgas, todas as orientações eram claras ao afirmar que um jogador expulso seria automaticamente suspenso da partida seguinte.

Na visão da federação, a Fifa utilizou seu Código Disciplinar para se sobrepor ao próprio regulamento do torneio.

O técnico Rudi Garcia foi ainda mais duro. Disse que não sabia que o dia 5 de julho havia se transformado em 1º de abril, o Dia da Mentira, e afirmou que a Bélgica não estava apenas defendendo sua seleção, mas o futebol.

A revolta também levanta uma comparação com os outros expulsos.

Antes de Balogun, 11 jogadores haviam recebido cartões vermelhos nesta Copa. Todos cumpriram suspensão.

O caso de Assim Madibo, do Catar, aumenta a discussão.

Ele se envolveu em um lance que terminou com a fratura da perna do canadense Ismael Koné. Existe o argumento de que Madibo sequer realizou uma entrada deliberada e que a lesão aconteceu de maneira acidental.

A Fifa aplicou cinco partidas de suspensão.

Foram três jogos a mais do que a punição padrão por jogo brusco grave.

A comparação é inevitável. Um jogador recebeu uma das maiores punições da competição por um lance que também pode ser considerado acidental. Outro foi liberado para disputar a partida seguinte.

A diferença de tratamento exige uma explicação.

A decisão pode criar um problema para todo o futebol

EUA Copa
Jamie Squire via Getty Images

A consequência do caso não termina nesta Copa.

Durante anos, clubes e jogadores aceitaram punições mesmo quando as expulsões aconteceram sem intenção. O princípio utilizado era simples. O resultado da ação importa mais do que a vontade do jogador.

Xavi Simons, por exemplo, foi expulso contra o Liverpool depois de pisar na parte de trás da perna de Virgil van Dijk. O jogador do Tottenham não teve intenção de atingir o adversário, mas o lance foi considerado perigoso.

A punição automática foi de três partidas.

O Tottenham decidiu nem sequer recorrer porque entendia que não havia possibilidade de sucesso.

Depois do caso Balogun, a pergunta passa a ser inevitável. Por que outros jogadores não podem receber a mesma clemência?

Treinadores e clubes poderão utilizar a decisão da Fifa como argumento. Se uma suspensão pode ser retirada porque um lance foi acidental e o cartão pareceu rigoroso, outros casos semelhantes também deveriam ser analisados.

O maior problema é que a Fifa não afirmou que essa foi a razão.

Sem uma justificativa oficial, ninguém sabe exatamente qual precedente foi criado.

A decisão também pode aumentar as dificuldades das federações nacionais. Torcedores, clubes e treinadores poderão questionar por que punições automáticas são mantidas em suas competições quando a própria Fifa abriu uma exceção durante uma Copa do Mundo.

A partir de agora, toda expulsão considerada rigorosa pode gerar a mesma pergunta: se Balogun foi liberado, por que este jogador não pode ser?

Contatos de Trump com Infantino aumentam a controvérsia

Gianni Infantino, presidente da Fifa (à esq) e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (à dir). Foto: Divulgação / Associated Press (AP)
Gianni Infantino, presidente da Fifa (à esq) e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (à dir). Foto: Divulgação / Associated Press (AP)

O caso se tornou ainda mais delicado por causa da participação do governo dos Estados Unidos.

A expulsão provocou enorme revolta no país. Parte da imprensa americana argumentou que Balogun havia recebido uma punição dupla porque perdeu os 27 minutos finais contra a Bósnia e também ficaria fora da partida contra a Bélgica.

A pressão chegou ao governo.

O secretário de Estado Marco Rubio afirmou que os Estados Unidos haviam sido prejudicados pelo cartão vermelho e defendeu a criação de um processo de recurso.

Depois, a situação avançou.

Segundo fontes da CBS News, Donald Trump conversou diretamente com Gianni Infantino em uma breve ligação. O presidente da Fifa teria dito que o Comitê Disciplinar analisaria o caso.

Andrew Giuliani, diretor executivo da força tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, também conversou com Infantino. O secretário de Comércio Howard Lutnick manteve contato com a Fifa.

Depois da liberação, Trump agradeceu à entidade por “reverter uma grande injustiça”.

Isso não prova que a decisão tenha sido tomada por pressão política. A sequência dos acontecimentos torna indispensável uma explicação transparente.

Primeiro, o cartão vermelho provocou revolta nos Estados Unidos. Depois, integrantes importantes do governo americano criticaram publicamente a punição. Trump conversou diretamente com Infantino sobre o caso. Outros representantes da administração também mantiveram contato com o presidente da Fifa. Por fim, uma regra nunca utilizada antes em uma Copa do Mundo foi acionada para liberar o jogador.

A situação ganha ainda mais peso porque os estatutos da Fifa proíbem interferência política no futebol e a relação entre Infantino e Trump já vinha sendo questionada.

No centro de tudo, permanece uma pergunta que a entidade ainda não respondeu.

Por que Balogun?

Uma Copa com 12 jogadores expulsos viu 11 deles cumprirem suspensão. O único liberado é o artilheiro de um dos países anfitriões, depois de membros importantes do governo americano pressionarem publicamente e manterem contatos com o presidente da Fifa.

A discussão já não é mais apenas sobre saber se o cartão vermelho foi rigoroso.

O verdadeiro problema é descobrir por que, entre tantos casos, apenas um recebeu uma exceção. Enquanto a Fifa não apresentar uma explicação completa, o caso Balogun continuará deixando a sensação de que uma das regras mais claras do futebol pode não valer da mesma maneira para todos.

(Foto de capa: REUTERS)

 

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Kaique