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Futebol

FIFA: como Infantino perdeu apoio dentro da própria entidade

A decisão da FIFA de retirar o plano de comercializar 20% da Copa do Mundo e das demais competições da entidade encerrou, ao menos por enquanto, uma proposta que enfrentava forte resistência. A pressão de diferentes confederações, principalmente da UEFA, foi suficiente para impedir o avanço do projeto. Porém, o recuo não eliminou a crise criada ao redor de Gianni Infantino.

As manifestações de Arsene Wenger e Mattias Grafstrom deram uma nova dimensão ao caso. Dois dos nomes mais importantes da FIFA afirmaram que não participaram do planejamento e sequer tinham conhecimento prévio da proposta. Desta forma, além da discussão sobre o conteúdo do projeto, o episódio passou a levantar dúvidas sobre a comunicação entre a presidência e os principais setores da entidade.

Wenger e Grafstrom expõem distância dentro da FIFA

O posicionamento de Wenger chama atenção porque o ex-treinador do Arsenal decidiu se manifestar publicamente. Atual chefe de desenvolvimento do futebol da FIFA, o francês explicou quais são as suas responsabilidades e deixou claro que nenhuma delas esteve ligada ao plano liderado por Infantino.

Na função, Wenger supervisiona, ao lado de sua equipe, áreas como a análise de dados do jogo, o centro de treinamento on-line da FIFA e as competições de base realizadas ao redor do mundo. O dirigente também participa do desenvolvimento da formação de jovens por meio de 60 academias distribuídas por 60 países e atua como consultor técnico da IFAB.

Ao detalhar seu trabalho, Wenger estabeleceu uma separação clara entre sua atuação dentro da entidade e o projeto que acabou derrubado. Segundo o francês, ele tomou conhecimento da proposta somente pela imprensa. O antigo treinador também classificou a retirada do plano como uma decisão “absolutamente necessária e inquestionável”. Neste cenário, a escolha de Wenger por um comunicado público aumenta o peso de sua manifestação. 

O dirigente não se limitou a afirmar que desconhecia o projeto. Ao defender uma FIFA independente, conduzida com compromisso, transparência e integridade, ele também deixou claro qual modelo de organização considera necessário para o trabalho desenvolvido na entidade.

O caso de Mattias Grafstrom é ainda mais delicado por causa do cargo ocupado pelo dirigente. Como secretário-geral, ele está entre os principais responsáveis pelo funcionamento administrativo da FIFA. Ainda assim, de acordo com um e-mail revelado por Sky e The Athletic, Grafstrom também não conhecia os planos de Infantino e demonstrou reprovação ao projeto.

Na mensagem enviada a dirigentes da organização, o secretário-geral descreveu a última semana como um período extraordinário e desafiador para os funcionários da FIFA. Grafstrom reconheceu que todos foram colocados no meio de uma situação caótica, difícil de compreender e aceitar. Em seguida, afirmou que os integrantes da administração seriam defendidos e protegidos do contexto político vivido pela entidade.

Esse trecho ajuda a explicar o tamanho do desgaste interno. Grafstrom procurou tranquilizar os funcionários e separar o trabalho da administração do episódio que provocou a crise. Quando afirmou que indivíduos, momentos de instabilidade e acontecimentos lamentáveis passam, enquanto a instituição permanece, o secretário-geral adotou um tom de defesa da FIFA e de sua missão, sem demonstrar o mesmo comprometimento com o projeto de Infantino.

Infantino perde apoio entre dirigentes importantes da FIFA

As manifestações de Wenger e Grafstrom não surgiram de maneira isolada. Nos últimos dias, Carlos Cordeiro, até então um nome de confiança de Infantino, deixou o cargo de assessor financeiro. Além disso, Kevin Lamour, chefe de operações da FIFA, também criticou a condução do projeto e afirmou publicamente que sua equipe “foi enganada”.

A sequência de reações cria um problema considerável para o presidente. A pressão das confederações já havia impedido a continuidade do plano, mas as declarações dos próprios dirigentes colocam em dúvida a forma como a proposta foi conduzida dentro da entidade.  Enquanto Wenger está ligado ao desenvolvimento do futebol, Grafstrom comanda a administração e Lamour responde pelas operações. Por isso, o fato de os três demonstrarem desconhecimento ou insatisfação sugere que o problema interno não ficou restrito a um único departamento.

O material divulgado não esclarece quem participou da elaboração da proposta, por quanto tempo ela foi discutida ou quais dirigentes tinham conhecimento de todos os detalhes. Portanto, não é possível determinar exatamente como o plano avançou até enfrentar a reação das confederações. Ainda assim, as manifestações conhecidas indicam uma distância importante entre Infantino e setores que deveriam ter participação relevante no funcionamento da organização.

Para Wenger e Grafstrom, a resposta à crise passa pela defesa da instituição. Ambos destacaram a necessidade de preservar o trabalho realizado pela FIFA, enquanto procuraram afastar suas respectivas áreas da criação do projeto. A postura dos dois também aumenta a pressão por explicações, já que não se trata de críticas feitas por pessoas de fora, mas de dirigentes que ocupam algumas das funções mais importantes da entidade.

A proposta foi retirada após a reação das confederações. Porém, Infantino agora precisa lidar com as consequências deixadas dentro da própria FIFA. A saída de Cordeiro e as manifestações de Wenger, Grafstrom e Lamour indicam que o recuo não foi suficiente para encerrar o desgaste.

O futuro da entidade mais importante do futebol passou a ser questionado porque seus principais dirigentes demonstram dúvidas sobre a maneira como decisões importantes estão sendo tomadas. Enquanto Wenger cobra independência e transparência, Grafstrom tenta proteger a administração do contexto político. Neste cenário, o plano comercial deixou de ser o único ponto de preocupação. A falta de participação de nomes importantes se tornou uma parte central da crise enfrentada por Infantino.

Créditos da foto de capa: Getty Images Sport.