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Copa do Mundo

Caso Balogun aumenta guerra entre Fifa e Uefa, mas poder de Infantino parece impossível de ameaçar

A decisão de retirar a suspensão de Folarin Balogun antes das oitavas de final da Copa do Mundo entre Estados Unidos e Bélgica abriu uma das maiores crises políticas do futebol recente. O caso colocou em discussão a independência das decisões da Fifa, aumentou o confronto com a Uefa e fortaleceu as críticas à relação entre Gianni Infantino e Donald Trump.

Ainda assim, dificilmente a polêmica colocará em risco a permanência de Infantino na presidência da entidade.

Essa aparente contradição ajuda a explicar como o poder funciona dentro da Fifa. Na Europa, as críticas ao dirigente suíço aumentam. Em outras partes do mundo, o presidente continua recebendo apoio das federações que decidirão seu futuro.

O caso Balogun é grave porque envolve justamente um tema que a própria Fifa afirma combater: a interferência política no futebol.

O atacante dos Estados Unidos havia sido expulso contra a Bósnia e Herzegovina e, pelas regras da Copa do Mundo, deveria cumprir suspensão. A situação ganhou uma dimensão ainda maior porque o regulamento do torneio não permite recursos contra cartões vermelhos.

Mesmo assim, Balogun foi liberado para enfrentar a Bélgica.

Mais de 24 horas depois da decisão, a Fifa publicou um comunicado de 871 palavras que não conseguiu explicar claramente por que havia tomado uma medida tão incomum. O cenário ficou ainda mais delicado quando Trump afirmou ter participado do processo.

“Fui eu quem conseguiu fazer com que eles fizessem isso”, declarou o presidente americano.

Trump afirmou que apenas pediu uma revisão e que não ordenou a Infantino o cancelamento da suspensão. O problema está no simples fato de uma intervenção política ter acontecido em um processo disciplinar do futebol.

Caso Balogun colocou em dúvida a independência da Fifa

Balogun Estados Unidos
Reuters

A percepção criada pelo episódio é especialmente prejudicial porque os Estados Unidos são um dos países que recebem a Copa do Mundo.

Balogun também não é um jogador qualquer dentro da equipe. Com três gols, havia sido o principal nome da seleção americana no torneio.

A decisão, portanto, beneficiou diretamente um país sede e uma das estrelas de sua equipe.

Ao mesmo tempo, o presidente desse país mantém uma relação próxima com o comandante da Fifa.

Trump e Infantino apareceram juntos em diversas ocasiões. O presidente americano chama o dirigente de amigo. Durante o sorteio da Copa, Trump também recebeu o primeiro Prêmio Fifa da Paz.

A proximidade fez com que o cancelamento da punição de Balogun fosse comparado a uma espécie de perdão presidencial.

Jurgen Klopp foi um dos críticos mais duros. O ex treinador do Liverpool afirmou que, se Trump e Infantino realmente resolveram o caso entre eles, toda a credibilidade do futebol deveria ser questionada.

O problema se torna ainda maior quando as próprias regras da Fifa são analisadas.

A entidade proíbe interferências governamentais nas federações nacionais. Países já foram suspensos do futebol internacional por causa da participação de governos em decisões esportivas. O Paquistão, por exemplo, recebeu três suspensões em um período de apenas oito anos.

A pergunta que surge é simples: as mesmas regras são aplicadas quando a relação envolve o presidente da Fifa e o presidente dos Estados Unidos?

Infantino rejeitou qualquer interferência e afirmou que o comitê disciplinar atuou de maneira independente. A falta de transparência, no entanto, tornou essa defesa menos convincente.

Relação com Trump aumenta histórico de polêmicas

Gianni Infantino, presidente da Fifa (à esq) e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (à dir). Foto: Divulgação / Associated Press (AP)
Gianni Infantino, presidente da Fifa (à esq) e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (à dir). Foto: Divulgação / Associated Press (AP)

O caso Balogun não surgiu de forma isolada. Durante aproximadamente dois anos, Infantino construiu uma relação cada vez mais próxima com Trump, que chegou a receber o primeiro Prêmio Fifa da Paz.

A organização de direitos humanos FairSquare apresentou uma denúncia ao comitê de ética da Fifa, alegando que Infantino havia violado as regras de neutralidade política. Sem resposta, 50 membros do Parlamento Europeu também enviaram uma carta exigindo providências.

Outras situações aumentaram a sensação de falta de transparência. O árbitro somali Omar Artan teve sua entrada nos Estados Unidos negada pelas autoridades de imigração. Quando questionado, Infantino respondeu que as pessoas deveriam apenas relaxar.

Também houve cinco horas de indefinição sobre uma possível mudança no horário da partida entre Inglaterra e México. A Fifa decidiu alterar o início do jogo e depois voltou atrás sem explicar claramente o que havia acontecido.

As críticas também alcançam decisões maiores da gestão. A escolha das sedes das Copas de 2030 e 2034 foi questionada porque a distribuição da primeira edição por três continentes praticamente abriu o caminho para a Arábia Saudita receber o torneio seguinte.

O Mundial de Clubes também gerou resistência. Sergio Marchi, presidente da Fifpro, afirmou que a competição havia sido criada sem diálogo, sensibilidade ou respeito.

O caso Balogun, portanto, tornou se mais um capítulo de uma gestão frequentemente criticada por tomar decisões importantes sem oferecer explicações consideradas suficientes.

Uefa aumenta o confronto, mas controla poucos votos

UEFA Presidente Copa do Mundo

A reação mais forte ao caso Balogun veio da Uefa. A entidade europeia afirmou que a Fifa havia ultrapassado uma linha vermelha e classificou a decisão como sem precedentes, incompreensível e injustificável.

O conflito entre as duas organizações já existia.

Em maio de 2025, Aleksander Ceferin liderou representantes europeus que deixaram o Congresso da Fifa depois que Infantino chegou duas horas e 17 minutos atrasado. O dirigente estava em uma viagem diplomática pelo Oriente Médio ao lado de Trump.

Durante a Copa, a Uefa também marcou suas diferenças. Depois que Omar Artan voltou à Somália, a entidade o convidou para apitar a Supercopa da Uefa. Também fez questão de comparar os preços mais baixos dos ingressos da Euro 2028 com os valores elevados da Copa do Mundo.

Existe claramente um confronto político entre as entidades.

A Uefa representa a região mais rica e poderosa do futebol. As principais ligas, os clubes mais valiosos e a maior competição de clubes do mundo estão na Europa. Dentro da eleição presidencial da Fifa, no entanto, esse poder financeiro não se transforma automaticamente em controle.

A Fifa possui 211 associações. Cada país tem direito a um voto.

Uma potência como Alemanha, França ou Inglaterra possui o mesmo peso eleitoral de qualquer pequena federação.

É justamente nesse sistema que está a força de Infantino.

Com 111 votos garantidos, Infantino já venceu a principal batalha

Gianni Infantino, FIFA Copa do Mundo
Foto: Reprodução

Para vencer uma eleição presidencial da Fifa, são necessários 106 votos.

Infantino já possui mais do que isso.

A Conmebol anunciou o apoio de seus dez países. Depois, a Confederação Africana confirmou o apoio unânime de suas 54 federações. As 47 associações da Confederação Asiática fizeram o mesmo.

A soma chega a 111 votos.

Mesmo que toda a Europa se unisse contra Infantino, o atual presidente já teria apoio suficiente para vencer.

Essa força não foi construída apenas por relações políticas. O programa Fifa Forward financiou projetos em diferentes partes do mundo, enquanto a expansão da Copa para 48 seleções aumentou as oportunidades para países que dificilmente chegariam ao torneio no formato anterior.

Foram criadas 16 vagas adicionais. A Europa recebeu apenas três.

Seleções como Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão passaram a ter uma oportunidade muito maior de disputar o principal torneio do futebol mundial. Para essas federações, a gestão de Infantino representa investimento e acesso.

Existe também o fator financeiro. A expectativa é de que a Fifa arrecade 9 bilhões de dólares neste ano. Parte desse dinheiro financia projetos em países que dependem dos recursos da entidade para desenvolver o futebol.

A Europa consegue financiar grande parte de sua própria estrutura. Muitas outras regiões não.

Por isso, o caso Balogun pode aumentar a guerra entre Fifa e Uefa, fortalecer as críticas sobre a relação de Infantino com Trump e aprofundar as dúvidas sobre a independência da entidade.

Nada disso, por enquanto, ameaça realmente seu cargo.

Infantino foi reeleito sem adversários em 2019 e 2023. Para 2027, a matemática já está praticamente definida. Com 111 votos declarados, ele ultrapassou os 106 necessários para vencer.

A Uefa pode aumentar a pressão e transformar o conflito em uma guerra aberta. Infantino, no entanto, possui aquilo que realmente decide uma eleição dentro da Fifa.

Os votos.

(Foto de capa: EFE/EPA/SAM WASSON)

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Kaique