UEFA tomou uma posição clara contra Gianni Infantino, presidente da Fifa. Em comunicado, a organização afirmou que não confia mais no gestor, em uma crise que veio crescendo nas últimas semanas. O projeto para vender parte das ações da Copa do Mundo a investidores privados foi o que fez a chave virar de vez.
“É correto que, nos próximos dias e semanas, a UEFA trabalhe com suas associações e em estreita cooperação com outras confederações para refletir sobre como isso aconteceu e elaborar um plano para garantir que não volte a ocorrer. Essa análise deve ser minuciosa e fundamental. Nenhuma opção deve ser descartada. A atual liderança da Fifa perdeu não apenas a confiança da UEFA, mas também a de muitos outros membros da família do futebol”, diz declaração da UEFA.
Horas antes, Infantino havia anunciado a desistência da proposta, principalmente por conta da posição contrária da UEFA, da Concacaf e da AFC. Mesmo assim, não foi o suficiente para evitar o rompimento oficial com a organização europeia. As federações da Inglaterra, da Noruega e do País de Gales também publicaram apoio à decisão e pediram revisão da liderança na Fifa.
No entanto, toda essa crise evidencia o problema da logenvidade na presidência da maior entidade de futebol do mundo.

Logenvidade na Fifa é um problema
Gianni Infantino é presidente da Fifa desde 2016, quando assumiu o cargo após as polêmicas com Joseph Blatter. É somente o nono presidente da entidade, que foi criada em 1904, mas não é o primeiro que lida com problemas ao ficar tanto tempo no poder. O gestor foi reeleito duas vezes, em 2019 e 2023, ambas com mandatos de quatro anos.
Além disso, nas duas oportunidades, não houve uma oposição, sendo o único candidato. São 10 anos como presidente da Fifa e a longevidade tem mostrado que o desgaste é grande quando vem. Não é de agora que Gianni tem sido questionado pela UEFA e a relação vem piorando de forma consistente.
Entretanto, Infantino se mostrou cada vez mais confortável no poder, passando a tomar atitudes criticadas pelo mundo todo. Só que a ideia de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE) foi a gota d’água e gerou reações até mesmo de pessoas de dentro da entidade.
Em um mandato que, apesar de alguns questionamentos, vinha muito bem nos últimos anos, Gianni pode deixar seu cargo deixando uma marca extremamente negativa. Algo que também já aconteceu no passado, com dois grandes exemplos sendo os dois últimos presidentes, João Havelange e Joseph Blatter.
Havelange ficou marcado por corrupção
João Havelange é considerado um dos maiores cartolas do mundo, mesmo com as inúmeras polêmicas que teve em sua carreira. Presidente da Fifa entre 1974 e 1998, ficou 24 anos no cargo, o segundo mais longevo, atrás apenas de Jules Rimet, que atuou por 33 anos, entre 1921 e 1954.
Para chegar ao cargo, Havelange já fez uma forte campanha, gerando certa controvérsia antes mesmo de ser eleito. Com alguns favores, como ajudar seleções e livrar seus jogadores de punições, conseguiu os votos necessários. Foi o primeiro presidente não europeu do órgão e, até hoje, o único efetivo.
Em 2006, o jornalista Andrew Jennings descreveu Havelange como um dirigente corrupto no livro “Foul! The Secret World of Fifa: Brides, Vote-Rigging and Ticket Scandals”. Segundo Jennings, Horst Dassler, filho do fundador e ex-diretor da Adidas, teria comprado votos de indecisos na primeira eleição. Mais tarde, o brasileiro devolveu o ‘favor’.
O acordo previa a comercialização exclusiva dos direitos de marketing e mídias dos grandes eventos da Fifa. Para isso, Dassler criou a International Sport & Leisure (ISL). Em 2010, um programa da BBC, produzido por Jennings, acusou o brasileiro e Ricardo Teixeira, presidente da CBF na época, de aceitar milhões de propina.
Quando o escândalo explodiu, Havelange já era apenas presidente de honra, só que a acusação envolvia todos os anos em que João esteve no cargo. Em 2013, renunciou à presidência de honra para escapar de qualquer punição.

Blatter saiu do cargo em meio à polêmicas
Braço direito de Havelange como Secretário-Geral da Fifa, Joseph ‘Sepp’ Blatter assumiu como presidente em 1998, ocupando o lugar do brasileiro. O suíço ficou no cargo até 2015, quando saiu por conta do Fifagate, o maior escândalo de corrupção na história do futebol mundial. Seu nome não estava na lista de indiciados, mas renunciou mesmo assim.
No entanto, no mesmo ano, a Justiça suíça anunciou que estava investigando Blatter e o presidente da UEFA na época, Michel Platini. Em 2011, Sepp pagou 2 milhões de francos suíços a Platini, como “consultoria”. O Ministério Público da Suíça argumentou que não havia base legal para essa transferência, mas o tribunal descartou a acusação e inocentou ambos anos mais tarde.
Entretanto, juntando ao Fifagate, a entidade vivia um período de muitas polêmicas. Além disso, no programa de 2012, a BBC afirmou que Blatter tinha total conhecimento sobre a corrupção de Havelange. Mais tarde, em 2016, uma investigação interna da Fifa e divulgada pela entidade, conduzida pelo escritório de advocacia Quinn Emanuel, trouxe outras acusações à tona.
De acordo com a investigação feita, Blatter e dois funcionários teriam enriquecido com mais de 79 milhões de francos suíços. Isso teria ocorrido por meio de aumento salarial, bônus da Copa do Mundo e outros incentivos. O ex-Secretário-Geral Jérôme Valcke e o ex-Secretário-Geral adjunto Markus Kattner eram os outros envolvidos.
Limite menor pode ajudar a Fifa
Com as atuais polêmicas, não é esperado que Gianni Infantino consiga mais uma reeleição na Fifa, que seria a última permitida seguindo as regras atuais. Se fosse reeleito, seriam 15 anos no cargo, um período extremamente longo para se manter no poder de uma entidade deste tamanho. Não há necessidade disso.
É claro, um período menor também não impede que corrupções e polêmicas aconteçam. Entretanto, as chances também são menores, já que forçaria uma maior rotatividade na presidência. Com tantas controvérsias nos últimos anos, algo ao menos deve ser tentado para diminuir a quantidade.
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