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Chelsea e o caos da disciplina: até quando jogará contra ele mesmo?

Se existe uma palavra que não parece combinar com o Chelsea, com certeza se trata de “disciplina”. O time que sonha em brigar pelo título tem passado mais tempo lidando com cartões vermelhos do que comemorando vitórias tranquilas e, convenhamos, ninguém chega ao topo da Premier League passando metade da temporada com um jogador a menos.

A cada rodada, os Blues prometem um futebol dominante, rápido, jovial, envolvente… e entregam também uma expulsão de brinde, na maioria dos casos, talvez uma vontade maior do que a sede pelo triunfo. Já virou rotina. A equipe de Enzo Maresca está acumulando cartões vermelhos numa velocidade que até parece desafio secreto no vestiário: “quem consegue deixar o time com 10 primeiro?”. É engraçado, até o momento em que custa pontos, e agora já custou oito, com direito a alguns no confronto direto com o líder Arsenal.

O cenário ficou tão bizarro que o Chelsea tem hoje a maior média de expulsões por jogo da história da Premier League: 0,31 por partida. Isso significa, basicamente, que a cada três jogos alguém vai mais cedo pro chuveiro. E não é exagero dizer que essa indisciplina está literalmente impedindo o time de ter mais força na briga pelo título.

O jogo contra o Arsenal: a cena se repete

O empate por 1 a 1 contra o Arsenal deveria ter sido comemorado. Afinal, enfrentar o líder do campeonato, se tratando de uma das principais equipes do momento, em boa fase, e sair com um ponto não é ruim. O problema? Ficou aquele gostinho amargo, porque o Chelsea começou melhor, pressionou, criou chances e parecia pronto para encostar de vez na disputa pelo topo.

Só que, claro, veio o momento “Chelsea sendo Chelsea”: Moisés Caicedo voou em Mikel Merino com uma entrada que qualquer árbitro do planeta marcaria como vermelho, chegou a ter uma certa polêmica sobre o ocorrido, mas não em prol do feito pelo equatoriano, sim pelo fato de não ter critério. A questão é que, esse assunto é pra outro texto. O VAR só confirmou o inevitável. E lá foram os Blues, mais uma vez, obrigados a remar com menos um, bem no tipo de jogo que exige cabeça fria.

Mesmo assim, resistiram, marcaram com Trevoh Chalobah, levaram o empate e ainda ameaçaram o gol rival. Mas o prejuízo estava feito: mais dois pontos deixados pelo caminho por causa de uma expulsão totalmente evitável. Dá para colocar uma bela palavra neste contexto: imprudência, um time que simplesmente não costuma medir suas movimentações, ou pelo menos pensar nelas.

Uma velha história que não quer acabar

O mais curioso é que isso não começou com Maresca no comando do time londrino. O Chelsea já vinha dando sinais de que não sabia muito bem como controlar seu ímpeto. Na era Pochettino, por exemplo, o time bateu o recorde histórico de amarelos em uma única temporada, 105 e vários dos “especialistas” em cartões continuam no elenco.

Caicedo, Cucurella, Cole Palmer, Enzo Fernández, Malo Gusto… todos eles já tiveram temporadas generosas em advertências. A diferença é que antes eram só amarelos. Agora virou uma coleção de vermelhos, como se tivessem dado o próximo passo, mesmo ele não sendo o melhor possível.

Mas calma: não dá pra culpar só os jogadores. A influência do técnico também entra na equação. Maresca, sozinho, já levou oito cartões desde o início da temporada passada, o que o coloca no topo do ranking entre treinadores punidos. Difícil cobrar calma de um elenco quando o próprio comandante vive esbravejando na área técnica, é o exemplo que está sendo dado, ao mesmo tempo que passa uma ideia de briga por todas as bolas, tem seus grandes problemas.

Problemas do Chelsea com um a menos não são segredo

Se existe uma prova matemática de que a disciplina está custando caro ao Chelsea, ela está diretamente proporcional a conquista de pontos/vitórias. Quando os Blues conseguem terminar as partidas com todos os seus 11 jogadores, a média é de 2,2 pontos por jogo, ritmo digno de um candidato sério ao título. Mas basta alguém ser expulso para tudo desandar: com um a menos, o rendimento cai para 1,3 ponto por jogo, nível de um time que apenas tenta se manter confortável na parte de cima da tabela, e não de um que mira a liderança.

Essa diferença escancara por que o Arsenal, que atravessa toda a temporada sem um único cartão vermelho, consegue manter uma campanha constante e tranquila no topo. Enquanto isso, a equipe de Stamford Bridge, atolada em suspensões e frustrações, precisa olhar para cima e fazer contas. Hoje, são seis pontos de distância, mas essa diferença poderia ser reduzida para apenas um se os Blues tivessem mantido todos seus jogadores no campo. Em resumo: quando o Chelsea joga completo, atua como um candidato ao título; quando joga desfalcado por indisciplina, vira refém do próprio comportamento.

O caminho até o título não tem atalhos e nem espaço para cartões

É claro que é simplista dizer “ah, era só não ser expulso”. Futebol é cheio de nuances, questões e caminhos. Mas uma coisa não dá pra negar: o Chelsea está dificultando a própria vida. Eles não precisam ser perfeitos, precisam, no mínimo, terminar os jogos com os onze atletas, é claro, caso tenham interesse em conquistar alto nesta temporada.

E esse time tem potencial. Tem talento. Se trata de um elenco jovem, intenso, criativo. O que falta é parar de transformar jogos controlados em missões impossíveis. Se os Blues realmente querem entrar de vez na disputa pelo título ou, pelo menos, manter a esperança viva, não há segredo: a primeira contratação que precisam fazer não está no mercado, está no comportamento.

Menos entradas imprudentes. Menos cartões bobos. Menos cabeça quente. Porque, no fim, a única coisa que está impedindo o Chelsea de sonhar alto… é o próprio Chelsea.

Foto: FRANCK FIFE / AFP