Na última sexta-feira (03), o mundo esteve diante de um dos melhores jogos da história das Copas. Argentina e Cabo Verde protagonizaram um duelo de cinco gols, com direito a golaço e drama na prorrogação. Mas, mais do que isso: demonstrou um selecionado cabo-verdiano valente e que levou a atual campeã a um passo da disputa de pênaltis.
A vitória da alviceleste pareceu se ofuscar perante uma história épica de Cabo Verde nesta Copa do Mundo. Desde a atuação monumental de Vozinha diante da Espanha, na primeira rodada da fase de grupos, a pintura de Sidny Lopes Cabral em Miami, tudo corroborou para que os Tubarões Azuis fossem os ‘queridinhos’ do povo. E toda essa apoteose de emoções só foi possível graças ao novo modelo de Mundial, proposto pela Fifa.
Críticas no início, satisfação no fim

A expansão do torneio de 32 para 48 seleções foi recebida de forma controversa pelo povo. Ceticismo e desconfiança são duas palavras que poderiam resumir todas as críticas, principalmente direcionadas ao discurso infundado de “benefício da competição” feito pela entidade — quando, na realidade, sabemos que é apenas uma estratégia para aumentar a audiência, o número de jogos e a receita da FIFA.
Havia dúvidas sobre a qualidade técnica da competição, preocupação com o excesso de partidas e acusações de que a entidade buscava apenas aumentar receitas com direitos de transmissão, patrocínios e venda de ingressos. E, para isso, não faltaram vozes contrárias.
O ex-jogador e Bola de Ouro, Karl-Heinz Rummenigge, classificou a proposta como “um completo absurdo”. Já o técnico, Pep Guardiola, afirmou que o calendário ficaria ainda mais desgastante e que a mudança colocaria os jogadores em risco. À época, os argumentos pareciam fazer sentido, mas a Copa do Mundo, nesta altura de sua disputa, mostrou outro lado da história.
Se o novo formato realmente trouxe benefícios financeiros para a FIFA, ele também abriu espaço para que seleções tradicionalmente fora do protagonismo ganhassem visibilidade e competitividade. Cabo Verde é o maior exemplo.
A equipe africana chegou ao mata-mata, encarou a Argentina de igual para igual e esteve muito perto de eliminar a atual campeã do mundo. Só que Cabo Verde não foi a única surpresa do torneio.
- O Paraguai eliminou a Alemanha nos pênaltis e depois segurou a
- França sem sofrer gols durante todo o primeiro tempo das oitavas de final.
- A República Democrática do Congo empatou com Portugal na fase de grupos, avançou ao mata-mata e ainda dificultou a vida da Inglaterra.
- Curaçao arrancou um empate sem gols contra o Equador.
- O Haiti fez frente ao favorito Marrocos e vendeu caro a derrota.
Histórias como essas dificilmente existiriam em uma Copa disputada por apenas 32 seleções.
Durante décadas, o Mundial foi praticamente um território exclusivo de europeus e sul-americanos. A ampliação do torneio não mudou esse cenário de forma definitiva, mas diminuiu a distância entre as grandes potências e as seleções emergentes.
África, Ásia, América Central e Caribe ganharam mais espaço, mais jogos e, principalmente, mais oportunidades para competir em alto nível. O resultado foi uma primeira fase muito mais diversa, com zebras, campanhas surpreendentes e novos personagens surgindo diante do mundo.
O próximo passo parece inevitável

É claro que a expansão da Copa também atende aos interesses comerciais da FIFA. Isso nunca esteve em discussão. O aumento do número de participantes significa mais jogos, mais audiência e mais dinheiro circulando.
Mas, pela primeira vez desde que a ideia foi anunciada, ficou ainda mais desafiador argumentar que o novo formato prejudicou o espetáculo. Pelo contrário.
Se a imagem da Copa de 2026 ficará marcada por Messi, Mbappé ou Cristiano Ronaldo, ela também será lembrada por Vozinha, Sidny Lopes Cabral e por uma pequena seleção africana que fez o mundo acreditar que gigantes também podem balançar. E, conhecendo a FIFA, é difícil imaginar que a expansão pare por aqui.
Se um país que entrou na competição entre os menos cotados foi capaz de colocar a Argentina contra as cordas, a pergunta lançada pelo renomado jornalista Jay Busbee é perfeita: quantas outras histórias como essa ainda estão esperando apenas uma oportunidade para acontecer?
Créditos da foto de capa: Reprodução/Fifa.com