A despedida de Lionel Messi da seleção argentina encerra uma trajetória que passou por extremos. Hoje tratado como um dos maiores símbolos da história do país, o camisa 10 viveu durante muitos anos uma relação complicada com os próprios torcedores, sendo constantemente criticado por não conseguir repetir com a Argentina o sucesso conquistado no Barcelona.
O contraste fica ainda mais evidente quando sua despedida atual é comparada com o que aconteceu em 2016. Naquele ano, depois de perder a final da Copa América para o Chile nos pênaltis, no MetLife Stadium, Messi anunciou que não defenderia mais a seleção. Dez anos depois, o mesmo estádio recebeu sua última partida competitiva pela Argentina, na derrota para a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026. Desta vez, porém, a reação do país foi completamente diferente.
Em 2016, Messi estava cansado das derrotas e da pressão. Agora, deixa a seleção cercado por reconhecimento e carinho. A transformação não aconteceu rapidamente e ajuda a explicar uma das relações mais complexas entre um grande jogador e sua própria seleção.
Durante boa parte da carreira, Messi foi acusado de não demonstrar a mesma identificação com a Argentina que outros ídolos históricos. O principal problema era que qualquer avaliação sobre seu desempenho inevitavelmente terminava em uma comparação com Diego Maradona.
Messi sofreu com comparações a Maradona
Diego Maradona representava uma imagem muito específica do ídolo argentino. Sua personalidade, origem e maneira de demonstrar emoções se encaixavam perfeitamente naquilo que muitos torcedores esperavam de um líder da seleção.
Messi sempre foi diferente. Tímido desde criança, evitava entrevistas e raramente demonstrava grandes emoções publicamente. Essa personalidade mais reservada acabou sendo interpretada durante anos como falta de identificação com a camisa argentina.
A situação ficou ainda pior depois da Copa do Mundo de 2010. Messi passou a competição sem marcar gols e a Argentina foi eliminada pela Alemanha nas quartas de final. No ano seguinte, durante a Copa América disputada no próprio país, voltou a terminar o torneio sem balançar as redes e chegou a ser vaiado por torcedores.
As críticas também envolviam sua formação no Barcelona. Como deixou Rosario aos 13 anos e desenvolveu praticamente toda a carreira na Espanha, Messi chegou a ser chamado de “catalão” por parte dos argentinos. Houve até questionamentos sobre seu sentimento pelo país e sobre sua relação com o hino nacional.
Sucesso no Barcelona aumentava cobrança
Outro fator alimentava ainda mais essa discussão: Messi parecia imparável pelo Barcelona. Entre 2009 e 2012, conquistou quatro Bolas de Ouro consecutivas e liderou uma das melhores equipes da história do futebol.
Na seleção, entretanto, os títulos não apareciam. A Argentina chegou a três finais consecutivas — Copa do Mundo de 2014 e Copas América de 2015 e 2016 — e perdeu todas. Para muitos, era difícil entender como o melhor jogador do mundo poderia dominar o futebol europeu e não conquistar um grande torneio pela seleção.
O contexto coletivo, porém, era diferente. No Barcelona, Messi contava com uma estrutura construída ao redor de jogadores como Xavi e Andrés Iniesta. Na Argentina, frequentemente precisava assumir responsabilidades maiores em equipes menos equilibradas.
A derrota de 2016 representou o limite. Depois de desperdiçar sua cobrança na disputa por pênaltis contra o Chile, Messi anunciou sua aposentadoria da seleção. Foi naquele momento, curiosamente, que parte da relação com os argentinos começou a mudar.
A aposentadoria de 2016 mudou a relação
A reação popular surpreendeu. Campanhas pedindo sua permanência tomaram conta das redes sociais, enquanto torcedores se reuniram em Buenos Aires para pedir que ele reconsiderasse a decisão.
As imagens de Messi chorando depois da derrota também tiveram impacto. Durante anos acusado de ser distante e até de não sofrer suficientemente pelas derrotas da seleção, o jogador finalmente mostrou publicamente o quanto aquele fracasso o afetava.
Uma geração mais jovem de torcedores também começou a enxergá-lo de maneira diferente. Muitos cresceram acompanhando Messi como principal referência do futebol mundial e já não carregavam a mesma necessidade de compará-lo constantemente a Maradona.
Um dos exemplos mais simbólicos veio de Enzo Fernández. Aos 15 anos, ainda nas categorias de base do River Plate, ele publicou uma carta pedindo para que Messi permanecesse na seleção. Anos depois, os dois seriam campeões mundiais juntos.
Copa América e Mundial mudaram tudo
A virada definitiva aconteceu em 2021. Depois de anos acumulando frustrações, Messi finalmente conquistou seu primeiro grande título pela seleção principal ao vencer a Copa América.
A conquista retirou um peso enorme de sua trajetória e mudou completamente a maneira como seu futebol era analisado no país. Já não existia mais a mesma cobrança pela ausência de troféus.
Um ano depois veio o momento definitivo. Liderada por Messi e cercada por uma geração formada por nomes como Enzo Fernández, Alexis Mac Allister e Julián Álvarez, a Argentina conquistou a Copa do Mundo de 2022.
O título transformou de vez sua relação com os argentinos. Depois do Mundial, o próprio Messi reconheceu que sentia ter conquistado algo além do troféu: finalmente havia conseguido mudar a opinião de uma parte significativa do país que passou anos criticando sua trajetória na seleção.
A Argentina ainda viveu novos momentos importantes até a Copa do Mundo de 2026, quando chegou novamente à final, mas perdeu para a Espanha. A derrota encerrou sua trajetória competitiva pela seleção de maneira semelhante a 2016, novamente no MetLife Stadium.
A grande diferença está no significado. Dez anos atrás, Messi deixou aquele estádio sentindo que havia fracassado com a Argentina. Agora, sai como campeão mundial, maior artilheiro da seleção e um dos maiores ídolos da história do país. O jogador não mudou apenas seus números ou sua coleção de títulos. Mudou completamente a maneira como uma nação passou a enxergá-lo.
Foto: Shaun Botterill – FIFA/FIFA via Getty



