Harry Kane tornou-se tão importante para a seleção da Inglaterra que imaginar o time sem ele parece quase um exercício de ficção. Aos 33 anos, o atacante do Bayern continua quebrando recordes, acumulando gols e apresentando um nível de desempenho que dificulta ainda mais a discussão sobre sua sucessão. Ao alcançar 91 gols em 125 partidas pela Inglaterra e igualar o recorde de aparições pela seleção, Kane transformou uma questão que parecia distante em um problema que, inevitavelmente, precisará ser enfrentado.
A dificuldade, no entanto, não está apenas em encontrar um substituto para o maior artilheiro da história da seleção. Está em compreender que talvez não exista substituto possível.
Kane construiu uma carreira pela seleção que combina características pouco comuns em um único jogador. Ele é capaz de atuar como centroavante, recuar para participar da construção, encontrar passes entre linhas e, ao mesmo tempo, aparecer dentro da área para finalizar. Na temporada 2025-26, marcou 61 gols em 51 jogos pelo Bayern e conquistou uma dobradinha doméstica, mantendo-se entre os candidatos ao prêmio de melhor jogador do mundo.
O problema para a Inglaterra é que, quando a próxima Eurocopa for disputada, Kane terá 35 anos. Mesmo que sua longevidade permita imaginar uma permanência em alto nível por mais alguns anos, a seleção precisa começar a pensar em alternativas. E talvez a solução não seja encontrar outro camisa 9.
Jude Bellingham pode ser o substituto, mas não necessariamente como um centroavante tradicional
Entre todas as possibilidades disponíveis atualmente, Jude Bellingham é provavelmente o nome que mais chama atenção. Não porque seja um centroavante, mas justamente porque sua capacidade de ocupar diferentes zonas do campo pode permitir que a Inglaterra substitua as funções de Kane sem tentar reproduzir exatamente o jogador.
Thomas Tuchel já demonstrou enxergar essa possibilidade. O treinador gosta da ideia de utilizar Bellingham como camisa 9 e entende que o jogador possui uma característica fundamental para a posição: fome por gols e desejo de participar das ações decisivas.
Os números ajudam a explicar por que essa ideia ganhou força. Desde a Copa do Mundo de 2026, Bellingham marcou dez gols em 12 partidas pela Inglaterra, depois de ter balançado as redes apenas seis vezes nas 48 partidas anteriores. A mudança não representa apenas uma melhora estatística. Ela indica que o meio-campista está se tornando cada vez mais agressivo no terço final.
Existe, portanto, uma lógica na ideia de Tuchel. Bellingham pode recuar para participar da construção, chegar de trás, ocupar a área e trocar de posição com jogadores abertos pelos lados. Em determinados momentos, pode atuar como um camisa 10. Em outros, pode aparecer como referência mais avançada. Essa fluidez se aproxima de algumas das características que fizeram Kane ser tão importante para a Inglaterra.
A diferença é que Bellingham não seria um novo Kane. Seria uma maneira diferente de construir o ataque.
O maior erro seria tentar colocar Bellingham em uma função que não combina com ele
Bellingham tem capacidade para atuar como centroavante, mas isso não significa que deva necessariamente ser transformado em um camisa 9 fixo. Seu melhor futebol costuma aparecer quando possui liberdade para se movimentar, atacar espaços e participar das jogadas em diferentes alturas.
O ex-goleiro inglês Paul Robinson levantou exatamente essa questão ao argumentar que Bellingham não é um centroavante tradicional. Ele funciona melhor quando pode jogar ao redor de outro atacante, e essa característica não deve ser ignorada simplesmente porque o jogador possui capacidade para marcar muitos gols.
Transformá-lo em um camisa 9 clássico poderia retirar justamente aquilo que o torna especial. Kane, por outro lado, consegue atuar entre as linhas sem deixar de ser uma referência dentro da área. Essa combinação é rara. Quando recua, existe a possibilidade de outro jogador atacar o espaço deixado por ele. Quando permanece na área, possui qualidade para finalizar. Quando recebe de costas, consegue proteger a bola e distribuir o jogo.
Bellingham pode cumprir algumas dessas funções, mas não todas da mesma maneira. Por isso, a Inglaterra talvez precise aceitar que a era pós-Kane exigirá uma mudança de conceito. Em vez de procurar alguém que faça tudo o que Kane fazia, Tuchel pode montar uma equipe em que diferentes jogadores dividam essas responsabilidades.
A Inglaterra possui talento ofensivo, mas não possui um novo centroavante pronto
Quando a discussão é direcionada especificamente aos centroavantes, o cenário inglês fica bem menos confortável. Dominic Calvert-Lewin aparece como uma das opções mais próximas de um substituto convencional. O atacante teve um início positivo pelo Leeds e já mostrou ao longo da carreira que pode ser uma referência física e técnica no ataque. O problema é que ele tem 29 anos e não parece representar uma solução de longo prazo para uma seleção que precisará pensar além da próxima competição.
Além disso, existe uma questão de consistência. Calvert-Lewin ainda precisa transformar boas fases em uma sequência mais confiável de atuações e gols para convencer que pode assumir a responsabilidade de substituir o maior artilheiro da história da Inglaterra.
As outras alternativas também apresentam problemas. Liam Delap ainda está reconstruindo a carreira depois de uma passagem complicada pelo Chelsea. Chuba Akpom não aparece como uma solução consolidada em nível internacional. Ollie Watkins e Ivan Toney, que já foram considerados por Tuchel, estão na casa dos 30 anos e atuam atualmente na Arábia Saudita.
Até mesmo Danny Welbeck, que voltou a apresentar bons números recentemente, está longe de ser uma resposta para o futuro aos 35 anos. Isso explica por que a discussão sobre Kane não pode ser adiada.
A Inglaterra não possui atualmente um centroavante jovem e estabelecido no mais alto nível que permita ao treinador simplesmente esperar a aposentadoria do camisa 9 e colocar outro jogador em seu lugar.
Talvez a Inglaterra não precise de um camisa 9
A falta de um substituto óbvio pode, no entanto, ser uma vantagem.nSe não existe outro Kane, talvez a pior decisão seja tentar criar artificialmente um.
O futebol já mostrou que é possível vencer grandes competições sem utilizar um centroavante tradicional. A Espanha, por exemplo, encontrou soluções com jogadores originalmente construídos para atuar pelos lados, como Mikel Oyarzabal e Ferran Torres, utilizados em posições mais avançadas.
A Inglaterra possui características que permitem explorar algo semelhante. Anthony Gordon é um exemplo interessante. O atacante pode atuar aberto, mas também já demonstrou capacidade para jogar como referência mais central. No Newcastle, teve sucesso nessa função e acumulou dez gols em 12 partidas de competições europeias durante determinado período.
A presença de jogadores como Phil Foden, Cole Palmer, Morgan Gibbs-White e Eberechi Eze também amplia as possibilidades. Em vez de depender de um único atacante para criar, organizar e finalizar, Tuchel pode construir uma estrutura em que vários jogadores troquem de posição e ocupem a área em momentos diferentes.
Nesse cenário, Bellingham poderia ser parte fundamental da solução, mas não necessariamente sozinho. A Inglaterra poderia ter Bellingham atacando a área, Gordon oferecendo profundidade, Palmer entrando por dentro e Foden buscando espaços entre as linhas. O objetivo não seria encontrar um novo Kane, mas tornar desnecessário que qualquer jogador cumpra todas as funções que Kane exerce atualmente.
A nova geração de centroavantes ainda pode mudar essa história
Também seria precipitado concluir que a Inglaterra não produzirá um novo camisa 9. A base do país continua revelando atacantes, e alguns nomes começam a chamar atenção. Brian Madjo, do Aston Villa, é um dos exemplos mais interessantes. Aos 17 anos, o atacante impressionou na pré-temporada e chegou a marcar contra o Paris Saint-Germain na Supercopa da Europa antes de sofrer uma lesão que interrompeu temporariamente seu desenvolvimento.
No Championship, Will Lankshear, formado na base do Tottenham, começou muito bem sua passagem pelo Middlesbrough, com oito gols em 11 partidas. Divin Mubama, emprestado pelo Manchester City ao Southampton, também apresenta números relevantes nas categorias internacionais de base, enquanto jogadores como Dom Ballard e Josh Coburn continuam sendo observados como possíveis nomes para o futuro.
Nenhum deles, no entanto, pode carregar neste momento a responsabilidade de ser o sucessor de Kane. A Inglaterra não precisa decidir agora quem será seu centroavante na Eurocopa de 2028. Precisa criar condições para que um jogador possa surgir naturalmente nos próximos dois anos.
Kane ainda está disponível. Ainda marca gols. Ainda decide jogos. E, principalmente, ainda parece longe de aceitar que sua carreira pela seleção está chegando ao fim.
A Inglaterra precisa preparar um ataque sem Kane, não encontrar outro Kane
A discussão sobre o futuro da seleção inglesa revela, no fundo, um problema que vai muito além de uma posição. Durante mais de uma década, Kane permitiu que a Inglaterra construísse seu ataque ao redor de um jogador capaz de resolver diferentes problemas. Quando a equipe precisava de profundidade, ele estava na área. Quando precisava de construção, ele recuava. Quando precisava de um gol, finalizava. Quando precisava de um passe, encontrava a jogada.
Esse tipo de jogador não aparece simplesmente porque uma seleção precisa dele. Por isso, a Inglaterra precisa abandonar a ideia de encontrar uma cópia.
Bellingham pode ser a peça mais importante da transição, mas provavelmente não deverá assumir sozinho todas as responsabilidades de Kane. Calvert-Lewin pode ser uma alternativa imediata, mas sua idade limita a perspectiva de longo prazo. Gordon pode oferecer uma solução mais móvel, enquanto Palmer, Foden e outros jogadores ofensivos podem dividir a criação.
Ao mesmo tempo, a próxima geração de centroavantes terá tempo para se desenvolver sem carregar imediatamente o peso de substituir um dos maiores jogadores da história da seleção.
Essa talvez seja a melhor notícia para a Inglaterra. Kane ainda está jogando em um nível extraordinário. Aos 33 anos, continua sendo um dos principais atacantes do futebol mundial e tem motivos para acreditar que pode estender sua carreira por muitos anos. Se conseguir fazer isso, oferecerá a Tuchel e aos próximos treinadores algo que vale mais do que gols: tempo para preparar o futuro.
A Inglaterra não precisa encontrar agora a resposta para o que fará sem Harry Kane. Precisa apenas garantir que, quando esse dia chegar, não esteja procurando desesperadamente por outro jogador capaz de ser Harry Kane.
Porque esse jogador provavelmente nunca vai existir. E talvez a melhor maneira de substituí-lo seja justamente construir uma seleção que não precise mais de alguém como ele.



