Antes mesmo da chegada de Arne Slot na última temporada, quando os torcedores do Liverpool recorrem às memórias de Bill Shankly, geralmente o fazem com a lembrança afetuosa das conquistas inspiradas pelo “pai de Anfield”, o lendário escocês responsável por erguer o clube e moldá-lo no que ele representa hoje. No entanto, o atual treinador dos Reds foi comparado a Shankly após a derrota para o Nottingham Forest, sábado, em Anfield — e não de forma elogiosa. Agora, os campeões nacionais da última temporada da Premier League atingem seu ponto mais baixo sob a liderança do holandês.
A derrota por 3 a 0 marcou apenas a segunda vez desde abril de 1965, ainda na era Shankly, que o Liverpool perdeu dois jogos consecutivos da liga por três ou mais gols de diferença — sequência que incluiu também a queda diante do Manchester City, com Arne Slot à beira do campo. O resultado escancarou a gravidade do declínio vivido pelos atuais campeões da Premier League. Foi também a sexta derrota em sete partidas, deixando o time em 12º lugar, 11 pontos atrás do líder Arsenal.
O fiasco em Anfield foi testemunhado pelo presidente Tom Werner, que viajou dos Estados Unidos apenas para presenciar um espetáculo deprimente que aumenta a pressão sobre Arne Slot — o mesmo técnico que levou o clube ao título da Premier League em sua estreia no cargo. Resta a dúvida: que problemas o holandês precisa resolver para aliviar essa pressão e contrariar as acusações de que o Liverpool desperdiçou quase 450 milhões de libras no verão para transformar um elenco vencedor em uma equipe em ruínas?

Como Slot pode motivar Isak e Wirtz, que atravessam péssima fase?
Werner saiu de Anfield após assistir a uma atuação de Alexander Isak que deixou muitos se perguntando o que, exatamente, a FSG havia comprado por 125 milhões de libras. O sueco foi a contratação mais cara da janela de verão, vindo do Newcastle após uma longa novela que incluiu até sua saída do clube para forçar a transferência.
O investimento sem precedentes só foi superado pelos 116 milhões de libras pagos por Florian Wirtz, que ainda não marcou nem deu assistência na Premier League. O alemão, que vem sofrendo com o ritmo físico da liga e não se adaptou bem nem como meia atrás do atacante nem aberto pela esquerda, ficou fora do jogo contra o Forest devido a lesão.
Ambos têm talento indiscutível, mas Slot precisa que isso se traduza em rendimento imediato. Afinal, 241 milhões de libras deveriam, no mínimo, garantir impacto. E foi justamente Isak quem expôs boa parte das fragilidades atuais do Liverpool com uma atuação individual extremamente fraca. Chegou ao clube sem o ritmo ideal após parar no Newcastle e ainda lidou com uma lesão na virilha, o que atrasou sua adaptação. Mesmo assim, sua apresentação foi alarmantemente ruim, a ponto de Slot substituí-lo cedo no segundo tempo.
Isak, que já demonstrou enorme potencial em Tyneside, esteve praticamente invisível. Sua postura corporal transmitia derrota: leve, lento, desligado. Os números confirmam isso — apenas 14 toques na bola, 11 no primeiro tempo e apenas dois nos 25 minutos iniciais. O desempenho despertou críticas de que até o contestado Darwin Núñez, atualmente sem clube, ao menos teria corrido.
Nesse meio-tempo, Hugo Ekitike, uma das contratações de destaque da mesma janela, acabou relegado ao banco por decisão de Slot, entrando só aos 55 minutos e ainda improvisado pela esquerda. Vale lembrar: o camisa 22 é o artilheiro do Liverpool na temporada, com seis gols, e ainda marcou também pela seleção francesa. A opção por Isak em detrimento dele soou incoerente — como se o treinador estivesse tentando justificar o alto investimento a qualquer custo.
Por enquanto, há poucas evidências de que Isak e Wirtz possam atuar juntos de forma eficaz sob Slot. Considerando o custo combinado de quase 200 milhões, tudo indica que um deles deverá conviver com o banco. Ekitike mostra evolução; Isak, até aqui, parece apenas um problema caro.

Slot deveria abrir mão de Salah?
O ex-atacante do Manchester United, Wayne Rooney afirmou em seu podcast na BBC que a titularidade de Mohamed Salah deveria estar em risco. Segundo ele: “Se eu fosse o Slot, tomaria uma decisão grande que pudesse abalar o restante do time. Salah não ajuda defensivamente. Se você é uma das novas contratações e está no banco, e vê um jogador — mesmo sendo uma lenda — deixando de correr, que mensagem isso passa?”.
O egípcio realmente vem sendo criticado pela falta de recomposição, especialmente nas derrotas para Chelsea, Brentford e Manchester City. Mas foi justamente Salah quem mais ameaçou o Forest, mesmo sem estar em sua melhor fase. Slot já o deixou no banco nesta temporada, contra Galatasaray e Eintracht Frankfurt na Champions, resultando em uma derrota e uma vitória.
Por fim, Salah pode não viver o auge, mas ainda é um dos poucos que podem decidir jogos, sob o comando de Arne Slot. O momento para se preparar para sua ausência será em dezembro, quando disputará a Copa Africana de Nações com o Egito — e não agora.

Slot deveria voltar ao básico no Liverpool?
Na temporada em que conquistou o título, Slot montou um Liverpool de posse precisa e ajustes táticos eficientes. A improvisação de Ryan Gravenberch como camisa 6 — após a falha na contratação de Zubimendi — funcionou bem, assim como uma estrutura rígida herdada de Klopp. Suas substituições eram cirúrgicas.
Mas isso não tem se repetido. As melhores exibições desta temporada, contra Aston Villa e Real Madrid, aconteceram com Gravenberch e Alexis Mac Allister como base no meio, juntamente com Dominik Szoboszlai. Esse parece ser o caminho mais seguro. O avanço de Wirtz no sistema deixou o time desequilibrado e vulnerável, agravando sua má adaptação e afetando também o julgamento de Slot.
Szoboszlai, um dos poucos destaques em meio ao caos, foi improvisado na lateral direita contra o Forest. Slot sentiu falta de sua energia no meio-campo, já que tenta apagar o incêndio deixado pela saída de Alexander-Arnold e pelas lesões de Bradley e Frimpong.
A reformulação de 70 milhões de libras nas laterais não deu resultado. Frimpong parece mais um ala que um lateral, e Kerkez tem sofrido pela esquerda. Joe Gomez, experiente e capaz de atuar pela direita, parecia solução lógica para permitir Szoboszlai atuar onde rende melhor.
Curtis Jones, que atuou contra o Forest, já desempenhou essa função com a seleção inglesa sob Thomas Tuchel, inclusive na vitória sobre Andorra. No entanto, as trocas feitas por Slot soaram como tentativas desesperadas, sem o brilho estratégico de antes — como a entrada de Ekitike por Konate no início do segundo tempo. Mais uma vez, o holandês pareceu perdido em busca de respostas.
(Foto: Getty Images)