A eliminação da seleção da Coreia do Sul gerou uma verdadeira crise no futebol do país asiático. Após estrear vencendo a Tchéquia, os sul-coreanos perderam para México e África do Sul, ficando de fora da fase de 16 avos de final da Copa do Mundo e sem conseguir uma vaga entre as melhores terceiras colocadas.
A crise provocada pela eliminação no Mundial já resultou na demissão do técnico Hong Myung-bo e gerou fortes críticas de lendas dos “Tigres Asiáticos”, como o ex-meia Park Ji-sung, que declarou: “É lamentável que tenhamos chegado a este momento em que precisamos olhar para trás e perguntar por que acabamos aqui.” afirmou o lendário ex-jogador da seleção sul-coreana e do Manchester United.
A indignação também levou a relatos de ameaças de morte contra o treinador sul-coreano. Além disso, a chegada dos jogadores e da comissão técnica de volta à Coreia do Sul foi mantida em sigilo por questões de segurança. Porém, o que ocorreu no México não foi resultado apenas de quinze dias ruins, mas de um processo que já vinha acontecendo há algum tempo.
A crise do futebol na Coreia do Sul
A Coreia do Sul teve uma estreia promissora ao vencer a Tchéquia por 2 a 1. Na sequência, porém, fez uma atuação muito abaixo e perdeu para o México. Mesmo precisando apenas de um empate diante da África do Sul para seguir viva na competição, os Guerreiros Taeguk voltaram a jogar mal e acabaram derrotados pela seleção africana.
A decisão de Hong Myung-bo de deixar Son Heung-min no banco de reservas contra os sul-africanos foi alvo de muitas críticas. O ex-lateral Lee Young-pyo classificou a atuação como “o pior jogo de um time de futebol coreano no século XXI”.
Hong foi bastante questionado pela péssima atuação contra a África do Sul e, para piorar a situação, os sul-coreanos ainda tiveram de esperar três dias para saber se avançariam à fase de 16 avos de final como uma das melhores terceiras colocadas. A eliminação acabou sendo confirmada.
O clima na concentração da Coreia do Sul também não era dos melhores. No início de junho, jornalistas foram flagrados diante das câmeras zombando do histórico militar de Son. O ex-astro do Tottenham, atualmente no LAFC, conquistou isenção do serviço militar obrigatório de 21 meses por fazer parte da equipe que venceu os Jogos Asiáticos de 2018. Em protesto, os jogadores decidiram boicotar suas obrigações com a imprensa nacional por alguns dias.
Aos 34 anos, a expectativa é de que Son encerre sua trajetória na seleção sul-coreana. Após a decepcionante campanha na Copa do Mundo da América do Norte, a Coreia do Sul vive um momento delicado, podendo perder seus principais líderes justamente quando vê o rival Japão se consolidar como a principal potência do continente.
Chung Mong-gyu, presidente da Associação Coreana de Futebol (KFA) desde 2013, também foi bastante criticado pela contratação de Hong Myung-bo, em julho de 2024. Logo na estreia do treinador, diante da Palestina, em setembro daquele ano, Hong já foi recebido sob fortes vaias.
Entretanto, os problemas envolvendo Chung vão muito além do desempenho da seleção.
Ligado à família proprietária da Hyundai, uma das mais influentes da Coreia do Sul, Chung Mong-gyu foi investigado pelo Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, que conduziu uma apuração sobre a Federação Coreana de Futebol. Em novembro de 2024, o órgão recomendou a suspensão do dirigente e de outros membros da entidade. A KFA, entretanto, conseguiu uma liminar na Justiça que permitiu a Chung disputar e vencer um quarto mandato, em fevereiro de 2025.
Após a eliminação na Copa do Mundo, Chung anunciou que deixará a presidência da entidade.
“Estou ciente das diversas controvérsias e críticas que ocorreram durante meu período à frente da Federação de Futebol”, afirmou o dirigente, que completou:
“Acredito que tudo isso se deve às minhas próprias falhas.”
A distância cada vez maior para o Japão
Para piorar a situação da Coreia do Sul, os sul-coreanos veem o rival Japão cada vez mais dominante e consolidado como a principal força do futebol asiático.
Na Copa do Mundo, o Japão foi a única seleção da Ásia a avançar ao mata-mata, sendo eliminado apenas na fase de 16 avos de final, após perder de virada para o Brasil.
As diferenças entre as duas seleções já eram perceptíveis desde 2025. Enquanto a Coreia do Sul foi goleada por 5 a 0 pelo Brasil, em amistoso disputado em Seul, o Japão derrotou os brasileiros por 3 a 2, uma semana depois, em Tóquio.
Além disso, em março, enquanto os sul-coreanos eram goleados por 4 a 0 pela Costa do Marfim, o Japão se tornava a primeira seleção asiática a derrotar a Inglaterra, vencendo por 1 a 0 em Wembley.
No cenário dos clubes, a J.League exporta cada vez mais jogadores para a Europa, tanto que toda a seleção japonesa que disputou esta Copa do Mundo atua no futebol europeu. Já a K League, primeira grande liga profissional da Ásia, fundada em 1983, perdeu espaço ao longo dos anos, enquanto os clubes japoneses passaram a dominar o cenário continental.
Sem treinador, prestes a ficar sem presidente na federação e diante da necessidade de uma profunda reformulação, talvez seja o momento de a Coreia do Sul olhar para o modelo do rival japonês. A campanha frustrante na Copa do Mundo de 2026 pode representar um ponto de virada para o futebol sul-coreano.
A seleção ainda conta com talentos importantes, como Lee Kang-in, do PSG, e Kim Min-jae, do Bayern de Munique, pensando no ciclo rumo à Copa do Mundo de 2030. No entanto, as mudanças precisam ir além da seleção principal e alcançar também os clubes, por meio de um projeto nacional de desenvolvimento do futebol, para evitar o agravamento do atual declínio de uma das maiores potências do futebol asiático.
(Foto: AFP)



