Marcelo Bielsa, Uruguai. Foto: Paul Childs/Reuters
Futebol Copa do Mundo

A crise de identidade do Uruguai que pode encerrar a participação da seleção na Copa do Mundo precocemente

O Uruguai chegou à Copa do Mundo de 2026 cercado por expectativas. Afinal, Marcelo Bielsa havia revitalizado a seleção durante parte do ciclo, recuperando o entusiasmo da torcida e apresentando uma proposta de jogo ambiciosa. Duas rodadas depois, porém, o cenário é outro.

Os empates diante de Arábia Saudita e Cabo Verde colocaram a Celeste em situação delicada no Grupo H e escancararam um problema que parece ir além das quatro linhas: a crescente desconexão entre as ideias do treinador argentino e a forma como seus jogadores as executam.

Em todos os jogos do Uruguai no torneio, a sensação tem sido semelhante. Existe um plano de jogo claramente desenhado por Bielsa, mas a equipe demonstra dificuldade para colocá-lo em prática. O resultado é um time que alterna momentos de domínio territorial com longos períodos de desorganização, pouca criatividade e fragilidade defensiva.

O caminho percorrido por Bielsa nunca foi simples. Mas o que se vê atualmente é um Uruguai que parece não ter assimilado completamente a identidade que seu treinador tenta implementar desde a chegada ao cargo.

Uma relação desgastada antes mesmo da Copa

Os problemas não começaram nos Estados Unidos. Nos meses que antecederam o Mundial, o ambiente já era marcado por rumores de desgaste entre Bielsa e parte do elenco. Em determinado momento, a permanência do treinador chegou a ser colocada em dúvida, mas a Associação Uruguaia de Futebol (AUF) optou por manter o projeto.

A decisão foi tomada mesmo diante de relatos sobre divergências internas e insatisfações envolvendo métodos de trabalho, gestão do grupo e questões relacionadas à preparação física.

O problema é que os resultados da Copa acabaram trazendo essas discussões de volta ao centro do debate.

Até aqui, o Uruguai não conseguiu vencer os dois adversários considerados mais acessíveis da chave. Contra a Arábia Saudita, faltou criatividade. Contra Cabo Verde, mesmo criando mais oportunidades, a equipe voltou a apresentar falhas defensivas e problemas na tomada de decisão.

A impressão é de que o time ainda procura uma identidade clara em pleno Mundial.

A ausência de líderes pesa para a Celeste

Em meio às dificuldades coletivas, cresce também a discussão sobre liderança dentro de campo.

Federico Valverde é o principal nome da nova geração uruguaia e, naturalmente, tornou-se o jogador mais cobrado neste momento. No entanto, o meio-campista do Real Madrid não conseguiu assumir o protagonismo esperado nas duas primeiras rodadas.

A situação se agrava pela ausência de outros nomes importantes. Ronald Araújo segue afastado por problemas físicos e Luis Suárez acompanha a campanha da seleção longe do gramado.

A presença do histórico camisa 9 ainda é lembrada pelos torcedores. Não apenas pelo peso de sua trajetória, mas também pelo que representava em termos de personalidade e competitividade dentro das partidas.

Os números ajudam a ilustrar essa dependência histórica. Sem Suárez, as vitórias uruguaias em Copas do Mundo tornaram-se raras nas últimas décadas, reflexo da importância que o atacante teve para uma das gerações mais vitoriosas da história recente da Celeste.

Agora, cabe a nomes como Maximiliano Araújo, Agustín Canobbio, Matías Viña e o próprio Valverde assumirem responsabilidades maiores em um dos momentos mais delicados da seleção nos últimos anos.

Bielsa ainda busca transformar ideia em resultado

Quando assumiu o comando do Uruguai, Bielsa prometeu uma equipe agressiva, dominante e capaz de controlar os jogos por meio da intensidade.

Em alguns momentos do ciclo, a proposta funcionou. A seleção venceu adversários importantes e voltou a competir em alto nível. Porém, a Copa do Mundo tem mostrado outra realidade.

A intensidade existe. A organização, nem sempre.

O Uruguai chega à última rodada pressionado e sem margem para novos tropeços. Mais do que conquistar a classificação, a equipe precisa recuperar a confiança e demonstrar que ainda acredita no projeto liderado por Bielsa.

Caso contrário, uma eliminação precoce pode transformar uma relação já desgastada em uma ruptura definitiva.

Próximo jogo do Uruguai

Uruguai x Espanha — 26/06, às 21h (horário de Brasília), no Estádio Akron, em Guadalajara (México)

A Celeste chega à última rodada do Grupo H pressionada pelos dois empates nas primeiras partidas. Diante da líder Espanha, a equipe de Marcelo Bielsa precisa vencer para depender apenas de si na luta por uma vaga na fase eliminatória da Copa do Mundo.

Créditos da foto de capa: Paul Childs/Reuters