A Turquia voltou a chamar atenção no mercado de transferências. Depois de atravessar um período de crise e perder espaço no cenário internacional, o futebol do país recupera força apostando em uma estratégia conhecida: contratar jogadores de grande nome, muitos deles já distantes do auge da carreira, mas ainda capazes de gerar impacto esportivo, midiático e comercial.
O movimento colocou a Turquia entre os mercados que mais investiram no futebol mundial. Com o mercado praticamente encerrado nas principais ligas, os clubes turcos movimentaram 387,8 milhões de euros em contratações internacionais, valor que coloca a competição na sétima posição do ranking global, atrás apenas das cinco grandes ligas europeias e da segunda divisão inglesa. A Arábia Saudita, que nos últimos anos assumiu o protagonismo nesse tipo de investimento, aparece logo atrás, com 385,8 milhões de euros.
A diferença é pequena. E o simbolismo, enorme. A Premier League continua em outro patamar. Somando as operações internacionais e as transferências entre clubes ingleses, os times da primeira divisão inglesa investiram cerca de 4,1 bilhões de euros. Itália, Alemanha, Espanha e França aparecem na sequência, mas nenhuma delas se aproxima do poder financeiro inglês.
A segunda divisão inglesa, inclusive, gastou mais do que a própria Turquia: 449,9 milhões de euros. O número ajuda a dimensionar o tamanho do fenômeno econômico criado no futebol britânico e mostra que a força da Inglaterra já não está restrita à Premier League.
Inglaterra em outro nível, Turquia em ascensão
A diferença fica ainda mais evidente quando são consideradas as transferências entre clubes das próprias ligas. Os cinco principais campeonatos europeus movimentaram aproximadamente 10,4 bilhões de euros, acima dos 9,8 bilhões registrados em meados de 2025.
Dentro desse cenário, a Inglaterra aparece novamente muito à frente. Somadas, as despesas de transferência de Espanha, Alemanha, Itália e França chegam a cerca de 3,3 bilhões de euros — ainda abaixo dos 4,1 bilhões investidos pelos clubes ingleses.
Para Moisés Assayag, sócio-gerente do Canal e especialista em financiamento do futebol, a diferença está diretamente relacionada à capacidade de geração de receita e às perspectivas econômicas de cada mercado.
O domínio inglês, porém, não se limita ao dinheiro disponível para contratar. Ele também influencia a maneira como o restante do mercado se movimenta.
Rui Costa, diretor executivo de futebol com experiência em São Paulo, Grêmio, Atlético-MG, Chapecoense e Athletico-PR, destaca que a presença da segunda divisão inglesa entre os maiores investidores demonstra a profundidade desse mercado. Para quem trabalha na montagem de elencos, o impacto chega à observação, à formação, à valorização e até à retenção de jogadores.
“Os números mostram que a Inglaterra hoje exerce uma influência que vai muito além da Premier League. Quando a segunda divisão inglesa aparece entre as ligas que mais investem no mundo, isso mostra a profundidade econômica desse mercado. Para quem trabalha na construção de elencos, esse cenário impacta toda a cadeia: no treino, observação, valorização dos jogadores e capacidade de retenção dos clubes.
A Inglaterra consegue vender números muito mais altos e também acaba influenciando as decisões de outros mercados, que precisam buscar alternativas, antecipar movimentos e identificar jogadores antes que atinjam um certo nível de avaliação” — explicou Rui
É um efeito cascata: os clubes ingleses conseguem pagar mais, valorizam ativos em níveis superiores e, consequentemente, obrigam outros mercados a antecipar seus movimentos.
A questão agora é saber até onde esse modelo pode chegar. A capacidade de investimento da Inglaterra é inegável, mas também existem dúvidas sobre sua sustentabilidade, principalmente diante das multas e sanções aplicadas repetidamente a clubes que descumprem regras econômicas.
O mercado da Turquia encontrou sua própria fórmula
É nesse espaço que a Turquia começa a construir uma identidade própria. Os clubes do país nunca haviam investido tanto em contratações. E, mais do que simplesmente aumentar os valores, Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas passaram a apostar diretamente no poder de atração de grandes nomes internacionais.
O principal exemplo foi Victor Osimhen. O atacante nigeriano foi contratado pelo Galatasaray junto ao Napoli por 75 milhões de euros, tornando-se a maior contratação da história do futebol turco. Logo atrás aparece Mason Greenwood, adquirido pelo Fenerbahçe por 39 milhões de euros.
A lista de grandes investimentos continua com Rafael Leão, em uma operação de 38 milhões de euros; Jhon Durán, por 35 milhões; e Wilfried Singo, contratado pelo Galatasaray por 30,77 milhões.
Também aparecem nomes como Uğurcan Çakır, por 27,5 milhões de euros; Kerem Aktürkoğlu, por 24 milhões; o brasileiro Ederson, por 20 milhões; Tammy Abraham, por 15 milhões; e Romelu Lukaku, contratado pelo Fenerbahçe por 6 milhões de euros.
Mais do que uma coleção de nomes conhecidos, existe uma estratégia por trás do movimento.
Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, explica que os clubes turcos passaram a tratar jogadores de renome como verdadeiros ativos comerciais. A lógica é semelhante à de governos que oferecem incentivos para atrair determinadas indústrias: o objetivo não é apenas receber o investimento, mas gerar novos negócios e aumentar a atenção sobre o próprio mercado.
No futebol, uma estrela pode significar mais torcedores, audiência, patrocínio, venda de camisas e exposição internacional.
A legislação tributária favorável também contribui para tornar o país mais competitivo. Em determinadas condições, os clubes conseguem oferecer salários líquidos bastante atrativos aos jogadores, aumentando a capacidade de convencer atletas em momentos importantes de suas carreiras.
É uma fórmula que aproxima, ainda que em escala diferente, o futebol turco do projeto que transformou a Arábia Saudita em um dos principais destinos de estrelas do futebol mundial.
A Rússia perdeu espaço, mas não deixou de gastar
Enquanto a Turquia cresce, outro mercado tradicional desapareceu das primeiras posições do ranking global: a Rússia.
O isolamento político e econômico provocado pelas sanções internacionais após o início da guerra na Ucrânia atingiu diretamente o futebol do país. Os clubes russos foram afastados das competições da UEFA, perderam exposição internacional e tiveram o fluxo financeiro prejudicado pela desvalorização do rublo e pelas restrições bancárias.
O resultado foi uma redução significativa no poder de investimento dos clubes. Mas a Rússia não deixou de contratar jogadores estrangeiros. Apenas mudou o alvo.
Com dificuldades para competir pelos mesmos nomes dos grandes mercados europeus, os clubes russos passaram a olhar com mais atenção para regiões como a América do Sul. Dos 16 clubes da Premier League Russa, há 161 jogadores estrangeiros: 66 sul-americanos, 52 europeus, 27 africanos, nove asiáticos e sete representantes da América do Norte e Central. Os brasileiros são maioria, com 35 jogadores.
A lógica é simples. A Rússia ainda consegue oferecer condições financeiras superiores às encontradas na maioria dos clubes sul-americanos, enquanto encontra nesses mercados jogadores de qualidade por valores mais acessíveis do que aqueles praticados na Europa Ocidental.
Para Rui Costa, essa relação cria uma espécie de equilíbrio entre os dois lados: os clubes russos encontram talento com boa relação custo-benefício e potencial de valorização, enquanto os jogadores enxergam uma oportunidade de crescimento financeiro em um mercado que continua movimentando recursos mesmo sob restrições internacionais.
Pedro Weber, especialista em esportes e CEO da NextPlay, segue uma linha semelhante e aponta que as limitações provocadas pela guerra obrigaram os russos a procurar alternativas. A América do Sul acabou se tornando uma delas.
Quem realmente manda no mercado?
Os números ajudam a explicar por que a discussão sobre a nova ordem do mercado de transferências precisa começar pela Inglaterra.
Entre as dez ligas que mais gastaram, a Premier League aparece disparada na liderança, com 4,1 bilhões de euros. Depois vêm Serie A italiana (1,16 bilhão), Bundesliga (781,8 milhões), La Liga (755,3 milhões), Ligue 1 (605,1 milhões), Championship (449,9 milhões), Turquia (387,8 milhões), Arábia Saudita (385,8 milhões), Portugal (281,8 milhões) e Bélgica (174,1 milhões).
E a concentração também aparece entre os clubes. Dos dez times que mais investiram, oito são ingleses. Manchester City, Chelsea e Tottenham lideram o ranking, com 526,2 milhões, 406,7 milhões e 366,4 milhões de euros, respectivamente. Newcastle, Liverpool, Aston Villa, Arsenal e Ipswich Town também aparecem na lista.
Os únicos intrusos são Real Madrid, que gastou 225 milhões de euros, e Barcelona, com 184 milhões.
O domínio inglês também aparece nas transferências mais caras do mercado, com seis das principais operações envolvendo clubes da Premier League: Enzo Fernández, Morgan Rogers, Elliot Anderson, Bradley Barcola, Yan Diomande e Sandro Tonali.
A fotografia do mercado, portanto, é bastante clara: a Inglaterra continua muito à frente, enquanto os demais países tentam encontrar caminhos alternativos para competir.
A Turquia parece ter encontrado o seu

Em vez de tentar reproduzir exatamente o modelo inglês, os clubes turcos apostam em outro tipo de força: estrelas, impacto comercial, benefícios fiscais e uma competição que quer voltar a ser relevante no cenário europeu.
O dinheiro turco ainda está muito distante do inglês. Mas, quando uma liga começa a quebrar seus próprios recordes de investimento e passa a atrair jogadores que também estão no radar dos grandes mercados, o movimento deixa de ser pontual.
A Turquia não é a nova Premier League. Tampouco é, ainda, a nova Arábia Saudita. Mas já deixou de ser apenas um coadjuvante no mercado de transferências.
Créditos da foto de capa: IMAGO/Depo Photos



