O pódio do GP da Espanha, realizado em 14 de junho, teve um forte sotaque britânico. Lewis Hamilton, George Russell e Lando Norris se tornaram os primeiros três pilotos do Reino Unido a ocuparem as três posições do pódio de uma corrida de Fórmula 1 desde que Jackie Stewart, Graham Hill e John Surtees alcançaram o mesmo feito no Grande Prêmio dos Estados Unidos de 1968, em Watkins Glen.
A estatística chama a atenção diante do sucesso dos pilotos britânicos na categoria ao longo das décadas seguintes. Outro feito igualmente exclusivo foi alcançado por Lewis Hamilton. Após a vitória em Barcelona, o piloto afirmou ter reencontrado seu melhor momento, garantindo seu lugar em um grupo muito restrito da história da Ferrari.
Antes do GP da Espanha de 2026, apenas seis pilotos britânicos haviam conquistado vitórias pela equipe italiana na Fórmula 1. Juntos, eles acumularam 19 triunfos, sendo que quase metade dessas conquistas aconteceu durante a primeira década da categoria, nos anos 1950. Com sua vitória na Espanha, Hamilton alcançou o 20º triunfo de um britânico ao volante de uma Ferrari e passou a integrar o grupo formado pelos pilotos que abriram esse caminho ao longo da história.
O primeiro deles foi Mike Hawthorn. Enzo Ferrari ficou impressionado com suas atuações em 1952, quando o jovem piloto de Mexborough, em Yorkshire, competia com um Cooper-Bristol. Seu estilo agressivo e determinado chamou a atenção do fundador da Ferrari, especialmente depois de uma atuação marcante no Grande Prêmio da Holanda.
Contratado para 1953, Hawthorn rapidamente justificou a aposta ao vencer o Grande Prêmio da França após um intenso duelo com Juan Manuel Fangio. No ano seguinte, conquistou também o Grande Prêmio da Espanha.
Após uma passagem difícil por outras equipes, retornou à Ferrari em 1957 e, em 1958, venceu novamente o GP da França. A regularidade ao longo daquela temporada lhe permitiu superar Stirling Moss por apenas um ponto e se tornar o primeiro campeão mundial britânico da Fórmula 1.
Peter Collins e Tony Brooks também marcaram época na Ferrari
Peter Collins chegou à Ferrari em 1956 e rapidamente se destacou. O piloto de Kidderminster conquistou posições importantes no grid em várias corridas e, logo em sua segunda participação pela equipe, dividiu o carro com Juan Manuel Fangio para terminar em segundo lugar em Mônaco.
Em seguida, venceu consecutivamente os Grandes Prêmios da Bélgica e da França, tornando-se um dos candidatos ao título mundial.
Na decisão do campeonato, em Monza, seus companheiros Luigi Musso e Eugenio Castellotti enfrentaram problemas em seus carros. Collins tinha chances reais de conquistar o título, mas aceitou entregar seu carro a Fangio durante uma parada nos boxes quando a equipe solicitou.
Segundo o relato da época, o britânico afirmou que ainda teria muito tempo para conquistar um campeonato. Em 1958, Collins e Hawthorn lideraram os resultados da Ferrari. O piloto venceu seu Grande Prêmio da Inglaterra com uma dobradinha da equipe italiana, tendo Hawthorn em segundo lugar.
Poucas semanas depois, durante o Grande Prêmio da Alemanha, Collins disputava a vitória quando saiu da pista e bateu em uma árvore. O piloto não resistiu aos ferimentos. Outro britânico importante na história da Ferrari foi Tony Brooks.
Depois de conquistar vitórias importantes pela Vanwall, Brooks foi contratado pela Ferrari em 1959 para substituir Mike Hawthorn, que havia encerrado a carreira. Com personalidade discreta e comportamento reservado, contrastava com muitos pilotos de sua época, mas demonstrava enorme eficiência nas pistas.
Na Ferrari, venceu os Grandes Prêmios da França e da Alemanha em 1959. Sua trajetória fez com que muitos estudiosos do automobilismo o considerassem um dos pilotos mais talentosos e, ao mesmo tempo, mais subestimados da história da Fórmula 1.
John Surtees e Nigel Mansell ampliaram a tradição britânica
John Surtees construiu uma carreira única no automobilismo. Entre 1952 e 1960, conquistou sete títulos mundiais no motociclismo com a MV Augusta, desempenho que despertou o interesse da Ferrari. Após competir por Lotus, Cooper e Lola, ingressou na Ferrari em 1963 e conquistou sua primeira vitória pela equipe em Monza.
No ano seguinte, venceu os Grandes Prêmios da Alemanha e da Itália e conquistou o título mundial na última volta da última corrida da temporada, realizada no México. Em 1965, sofreu um grave acidente durante uma prova de carros esportivos no Canadá. As lesões foram tão severas que existia o temor de que nunca mais pudesse caminhar normalmente.
Após uma longa recuperação, voltou às pistas, liderou o Grande Prêmio de Mônaco de 1966 até enfrentar problemas mecânicos e depois venceu o Grande Prêmio da Bélgica disputado sob chuva. Entretanto, deixou a Ferrari naquele mesmo ano após divergências com o chefe da equipe, Eugenio Dragoni.
Mesmo lamentando essa saída durante o restante de sua vida, Surtees permaneceu como o único piloto da história a conquistar campeonatos mundiais tanto sobre duas quanto sobre quatro rodas. Nigel Mansell foi outro britânico que marcou época na Ferrari.
Apelidado pelos torcedores italianos de “Il Leone”, iniciou sua trajetória na equipe com uma vitória surpreendente no Grande Prêmio do Brasil de 1989. O piloto chegou a reservar antecipadamente uma passagem aérea para voltar ao Reino Unido acreditando que o carro da Ferrari abandonaria a corrida devido aos problemas apresentados nos testes de pré-temporada.
No entanto, o carro resistiu e Mansell conquistou uma vitória inesperada. Ainda venceu o Grande Prêmio da Hungria naquele ano e o Grande Prêmio de Portugal em 1990, antes de retornar à Williams, onde conquistaria seu título mundial em 1992.
Eddie Irvine e Lewis Hamilton completam a lista de vencedores britânicos
Eddie Irvine escreveu seu nome na história da Ferrari durante a temporada de 1999. Sua campanha começou com uma vitória no Grande Prêmio da Austrália, aproveitando problemas enfrentados por seu companheiro Michael Schumacher.
Schumacher liderava a equipe até sofrer o acidente que resultou em uma fratura na perna durante o Grande Prêmio da Inglaterra. Com isso, a Ferrari passou a concentrar seus esforços em Irvine.
O britânico respondeu vencendo o Grande Prêmio da Áustria. Depois, Mika Salo abriu caminho para que ele conquistasse outra vitória na Alemanha, enquanto Schumacher ainda se recuperava. Na volta do alemão, Irvine venceu também o Grande Prêmio da Malásia.
Apesar de terminar o campeonato dois pontos atrás de Mika Hakkinen e não conquistar o título mundial, sua campanha garantiu um lugar permanente na história da Ferrari. O nome mais recente dessa lista é Lewis Hamilton.
A Ferrari demonstrou confiança no heptacampeão mundial mesmo durante os momentos mais difíceis de sua primeira temporada pela equipe, em 2025. Naquele período, enfrentando dificuldades para alcançar resultados, Hamilton chegou a afirmar que a Ferrari deveria “trocar o piloto”.
Segundo o relato apresentado, um período de intenso treinamento e reflexão durante o inverno permitiu que o britânico reencontrasse não apenas sua identidade como piloto, mas também sua forma de pilotar. O resultado desse processo foi a vitória no Grande Prêmio da Espanha de 2026.
Com esse triunfo, Hamilton tornou-se o sétimo piloto britânico a vencer pela Ferrari na F1 e alcançou a 20ª vitória de um britânico pela equipe italiana, reforçando seu lugar em um dos grupos mais exclusivos da história da Scuderia e alimentando a possibilidade de disputar aquele que seria seu oitavo título mundial.
Foto: (Fórmula 1)