O grupo Fenway Sports Group (FSG), proprietário do Liverpool, está prestes a dar mais um passo ousado em sua estratégia de expansão no futebol mundial. Segundo o Daily Mail, a empresa norte-americana, baseada em Boston, concluiu a fase de due diligence — avaliação financeira e jurídica — para adquirir o Getafe, clube da primeira divisão espanhola. Caso o negócio seja fechado, será a primeira incursão da FSG no futebol fora do Reino Unido e um movimento que pode mudar a forma como o Liverpool opera no mercado europeu.
A FSG já é dona do Liverpool, da NHL’s Pittsburgh Penguins e do icônico Boston Red Sox, na MLB. Ao longo dos últimos anos, o grupo vem estudando a compra de outros clubes para montar uma rede internacional capaz de formar talentos, aumentar sua presença global e, ao mesmo tempo, gerar sinergias comerciais. Em 2024, houve uma tentativa de adquirir o Toulouse, da Ligue 1 francesa, mas a operação não avançou. Agora, os sinais são de que a escolha espanhola é definitiva.
Por que o Getafe é um alvo “inteligente”
Diferentemente de nomes históricos como Athletic Bilbao, Valencia ou Sevilla, o Getafe é um clube mais jovem e menos tradicional. Fundado em 1983, a partir da fusão de equipes menores — inclusive de um grupo de torcedores do Real Madrid —, o time madrilenho se consolidou como um clube estável na La Liga, mas sem a aura centenária que poderia gerar resistência dos torcedores à chegada de investidores estrangeiros.
Esse detalhe é estratégico. Ao contrário de clubes com histórias seculares e identidades muito fortes, cuja compra poderia gerar protestos massivos, o Getafe representa uma oportunidade menos polêmica. Além disso, não é uma equipe de ponta na Espanha, o que minimiza os riscos de conflitos em competições europeias — um problema recente para Manchester City e Girona (ambos do mesmo grupo) e até para o Crystal Palace, ligado ao Lyon via Eagle Football.
Para a FSG, o clube oferece um ponto de entrada direto no mercado espanhol e um local para “estacionar” jovens talentos que ainda não estão prontos para a intensidade da Premier League. Essa prática já foi testada com sucesso por outros grupos: o Manchester City desenvolveu Savinho no Girona antes de levá-lo ao elenco principal; o Chelsea, por sua vez, usa o Strasbourg, da França, para o mesmo fim.
Multi-club ownership: um modelo em expansão
A compra do Getafe pelos donos do Liverpool se insere no chamado modelo de multi-club ownership (propriedade de múltiplos clubes). Trata-se de uma tendência crescente no futebol mundial, em que conglomerados compram times em diferentes países para compartilhar scouting, formação de jogadores, estratégias de marketing e até treinadores.
Para os clubes “principais” da rede, essa abordagem oferece uma vantagem competitiva: a possibilidade de testar jovens em campeonatos de menor exigência física, dar rodagem a atletas emprestados e até contornar restrições financeiras, como as regras de Fair Play Financeiro.
No entanto, o modelo levanta questões éticas e regulatórias. Muitos críticos argumentam que ele ameaça a integridade das competições europeias e concentra poder demais em poucos grupos. Ainda assim, nem a UEFA nem as ligas nacionais criaram barreiras eficazes para impedir que isso se expanda.
Situação atual do Getafe favorece venda
Do lado do Getafe, há sinais de que o clube estaria aberto a investimento externo. O presidente Ángel Torres já reclamou publicamente das dificuldades de cumprir as regras de Fair Play da La Liga, chegando a afirmar que precisou vender Omar Alderete — “um dos melhores zagueiros do campeonato” — para um clube recém-promovido da Premier League por um valor baixo, apenas para conseguir registrar 16 ou 17 jogadores no elenco.
Esse contexto de pressão financeira pode tornar a proposta da FSG atraente para o clube madrilenho. Com um investidor sólido, o Getafe ganharia estabilidade e poderia reforçar seu elenco, enquanto a FSG teria um “laboratório” espanhol para desenvolver atletas.
Impacto para o Liverpool e para o mercado europeu
Se a negociação for concluída, o Liverpool terá uma plataforma privilegiada para expandir sua rede de captação de jogadores. Jovens sul-americanos, por exemplo, poderiam chegar primeiro ao Getafe, adaptar-se ao futebol europeu e depois, se aprovados, dar o salto para a Premier League.
Além disso, a FSG poderia usar o clube como vitrine para talentos da própria base do Liverpool. Jogadores que hoje têm dificuldade para ganhar minutos em Anfield poderiam ganhar experiência na La Liga, elevando seu valor de mercado ou retornando mais prontos. Essa lógica já é comum em grupos como City Football Group e Red Bull.
Para os torcedores do Liverpool, essa movimentação pode significar uma mudança de perfil nas contratações, com mais apostas em jogadores jovens “pré-testados” no cenário europeu. Para o Getafe, pode representar uma chance de subir um degrau competitivo, tornando-se um clube formador de elite com suporte financeiro estável.
Riscos e desafios do projeto
Apesar das vantagens aparentes, a operação não é livre de riscos. A La Liga é uma liga altamente competitiva e regulada, e qualquer tentativa de usar o Getafe como um simples “satélite” pode gerar resistência local. Há também o desafio de equilibrar interesses: o Getafe precisa se manter competitivo na Espanha, enquanto serve aos planos de longo prazo do Liverpool.
Outro ponto é a própria reputação da FSG. Apesar de seu sucesso financeiro com o Liverpool, o grupo já foi criticado por decisões impopulares, como tentar participar da Superliga Europeia em 2021. Em um ambiente cultural diferente, como o espanhol, a aceitação pode ser ainda mais delicada.
Um passo estratégico para o futuro
Ainda assim, tudo indica que a FSG está pronta para dar esse passo. Ao colocar executivos experientes como Michael Edwards e Julian Ward para liderar o processo, o grupo demonstra que a compra do Getafe não é uma aventura oportunista, mas parte de um plano estruturado de longo prazo.
Se confirmada, a aquisição não apenas reforçará o Liverpool no mercado global, mas também poderá servir de modelo para outros gigantes ingleses que buscam expandir suas redes. E para o Getafe, pode ser o início de uma nova era, com mais recursos, visibilidade internacional e chances de competir em níveis mais altos.
No momento, resta esperar os próximos capítulos para saber se os donos do Liverpool realmente vão desembarcar em La Liga — e como essa decisão transformará tanto o clube espanhol quanto o próprio Liverpool nos próximos anos.