Futebol Premier League

Everton: a nova geração que ganha espaço e mostra que pode mudar o futuro do clube

O Everton encontrou nos jogadores mais jovens uma resposta para um dos momentos mais delicados de sua temporada. Mesmo sem Jack Grealish, afastado da equipe após uma ausência não autorizada em um treinamento, o time de David Moyes venceu o Newcastle pela Copa da Liga Inglesa e mostrou que possui alternativas capazes de assumir responsabilidades. A atuação de Hayden Hackney, com uma assistência e um gol, simbolizou uma mudança que vai além de uma boa noite: a equipe começa a depender cada vez mais de uma geração que pode ser fundamental para recuperar sua competitividade e encerrar um longo jejum de títulos.

A vitória ganhou importância pelo contexto. O Everton tinha diante de si a possibilidade de avançar às quartas de final e ficar a um passo de uma semifinal, com o Fleetwood, da quarta divisão, como possível adversário na sequência. Para uma torcida que não conquista um troféu desde 1995, a Copa da Liga representa uma oportunidade concreta de voltar a disputar uma decisão. A ausência de Grealish, um dos nomes mais conhecidos do elenco, poderia desviar a atenção do objetivo esportivo, mas os jovens aproveitaram o espaço para colocar o resultado em primeiro plano.

O desempenho também reforçou uma característica do trabalho de Moyes desde seu retorno ao clube: a disposição de abrir espaço para jogadores em desenvolvimento. Embora a experiência continue sendo importante em sua estrutura, o treinador tem utilizado cada vez mais atletas jovens, seja por necessidade diante das limitações do elenco, seja pela confiança no potencial daqueles que chegaram recentemente. O desafio agora é transformar essas boas atuações em uma base consistente para o restante da temporada.

Hayden Hackney aproveita a oportunidade e mostra o que pode oferecer

A atuação de Hayden Hackney foi o principal símbolo da vitória sobre o Newcastle. Contratado por 16,5 milhões de libras junto ao Middlesbrough, o meio-campista de 24 anos chegou ao Everton depois de ser eleito o melhor jogador da Championship na temporada anterior, mas encontrou dificuldades para conquistar uma sequência de oportunidades na equipe principal.

Depois de começar a temporada como titular na vitória sobre o Crystal Palace, Hackney teve poucas chances de iniciar partidas. Sua presença entre os titulares na Copa da Liga contra o Wolverhampton foi uma das raras oportunidades antes do confronto com o Newcastle, o que torna sua atuação ainda mais relevante. Diante de um adversário de nível elevado, o meio-campista demonstrou personalidade para participar da construção ofensiva, conduzir a bola e encontrar espaços perto da área.

Hackney participou diretamente dos dois primeiros gols do Everton. Primeiro, deu a assistência para James Garner abrir o placar; depois, apareceu dentro da área para completar de voleio e ampliar a vantagem. A combinação de participação na construção e presença ofensiva mostrou uma versatilidade importante para um jogador que não tem como principal característica a capacidade de marcar gols.

David Moyes, entretanto, não deixou que o resultado individual se transformasse em uma avaliação sem ressalvas. O treinador elogiou os momentos em que Hackney conseguiu contribuir para o ataque, mas também apontou erros de execução e situações nas quais o jogador perdeu a posse de bola. A cobrança faz parte do processo de adaptação de um atleta que chega da segunda divisão e precisa compreender as exigências de um campeonato mais intenso.

Essa postura ajuda a explicar como Moyes pretende desenvolver os reforços mais jovens. O treinador oferece oportunidades, mas não trata boas atuações como garantia de titularidade. Hackney precisa demonstrar regularidade, melhorar a tomada de decisões sob pressão e entender quando acelerar ou simplificar a circulação. Ainda assim, sua participação contra o Newcastle mostrou que o Everton pode encontrar nele uma alternativa importante para dar mais dinamismo ao meio-campo.

A presença de James Garner e Kiernan Dewsbury-Hall também contribuiu para o desempenho do setor. Com jogadores capazes de oferecer intensidade, condução e qualidade no passe, Hackney encontrou condições para aparecer em zonas mais avançadas sem precisar assumir sozinho a responsabilidade pela construção. Essa combinação pode ser especialmente útil para uma equipe que precisa ampliar suas alternativas ofensivas.

A falta de opções acelera o desenvolvimento de Thierno Barry

Se Hackney precisou esperar por oportunidades, Thierno Barry foi colocado em uma situação na qual a responsabilidade chegou muito mais cedo. Contratado junto ao Villarreal em julho de 2025, o atacante francês de 23 anos é o único centroavante de ofício do elenco e praticamente não tem concorrência direta por uma vaga na equipe titular.

A escassez de alternativas no setor ofensivo faz com que Barry acumule minutos e enfrente uma cobrança elevada em uma fase inicial de sua trajetória nas principais ligas europeias. Ele disputou 918 minutos nesta temporada, participou de todas as partidas e já marcou sete gols, ficando a apenas um de igualar sua produção da campanha anterior, mesmo tendo disputado 30 jogos a menos naquele período.

Sua influência também aparece na participação nas oportunidades criadas pelo Everton. A equipe registrou 24 grandes chances, e Barry esteve envolvido em 15 delas, o equivalente a 62,5%. O dado evidencia que o francês não é apenas uma referência para finalizar jogadas, mas também uma peça central na capacidade ofensiva do time.

A assistência para o gol de Hackney contra o Newcastle foi mais um exemplo dessa contribuição. Barry conseguiu participar da construção e encontrar o companheiro em uma posição favorável, mostrando que pode oferecer recursos além da presença física dentro da área. Para Moyes, desenvolver essa variedade de ações será importante para que o atacante não se torne previsível diante das defesas adversárias.

Ao mesmo tempo, a dependência de Barry representa um risco para o Everton. A ausência de um reserva com características semelhantes deixa o treinador com poucas alternativas caso o francês sofra uma lesão, enfrente uma sequência de jogos desgastante ou atravesse um período de baixa produção. O crescimento do atacante é positivo, mas não substitui a necessidade de ampliar as opções do elenco.

A situação também demonstra como a utilização dos jovens nem sempre acontece apenas por uma decisão planejada. Em alguns casos, a necessidade acelera o processo de desenvolvimento e obriga o jogador a aprender enquanto já enfrenta as exigências da competição. Barry tem respondido com números relevantes, mas precisará manter esse nível ao longo de uma temporada na qual a equipe não dispõe de muitas alternativas para substituí-lo.

Moyes está dando mais espaço aos jovens, e os números confirmam a mudança

A utilização de Hackney e Barry faz parte de um movimento mais amplo no Everton. Desde que retornou ao clube, em janeiro de 2025, Moyes participou da contratação definitiva de dez jogadores, sete deles com 24 anos ou menos. A composição do elenco indica uma tentativa de equilibrar a experiência necessária para competir na Premier League com a possibilidade de desenvolver atletas que ainda podem crescer e valorizar o patrimônio esportivo da equipe.

A idade média dos titulares na liga inglesa caiu quase 18 meses em relação à temporada anterior, chegando a 26 anos e 216 dias. A saída de Idrissa Gueye, um dos jogadores mais experientes do elenco, contribuiu para essa redução, mas não explica sozinha a mudança. Os atletas de até 24 anos também passaram a ocupar uma parcela maior dos minutos disponíveis na competição.

Outro indicador importante está na quantidade de jogadores utilizados. Moyes recorreu a 22 atletas durante toda a campanha anterior da Premier League e já utilizou o mesmo número nesta temporada. A distribuição das oportunidades sugere que o treinador está mais disposto a ampliar as alternativas e confiar em jogadores que ainda estão construindo sua trajetória no futebol de elite.

A mudança fica ainda mais evidente quando se observa a participação dos atletas de até 21 anos. Na temporada passada, esse grupo acumulou 1.088 minutos em campo. Na atual, já superou essa marca, chegando a 1.206 minutos. O crescimento mostra que a juventude deixou de ocupar apenas um espaço secundário no elenco e passou a ter influência real nas decisões de Moyes.

Harrison Armstrong é um dos exemplos mais claros dessa transformação. Aos 19 anos, o meio-campista passou por um empréstimo de seis meses ao Preston e chegou a ser considerado para uma nova passagem pelo clube antes de retornar definitivamente ao planejamento do Everton. Agora, iniciou todas as partidas da Premier League nesta temporada, demonstrando que conquistou a confiança do treinador.

A evolução de Armstrong também mostra que Moyes não está limitando as oportunidades aos jogadores contratados recentemente. O treinador tem observado o desenvolvimento de atletas formados ou integrados ao clube e procura encontrar funções nas quais eles possam contribuir. Para uma equipe que precisa construir uma identidade competitiva, essa integração pode ser tão importante quanto a chegada de reforços.

Tyler Dibling, Tyrique George e Merlin Röhl ampliam as alternativas

A mudança de perfil do elenco também aparece em outros jogadores que começaram a ganhar espaço. Tyler Dibling, contratado junto ao Southampton por 35 milhões de libras no verão de 2025, teve dificuldades para se adaptar inicialmente, mas apresentou sinais positivos contra o Newcastle. O ponta de 20 anos conseguiu ajudar o Everton a avançar no campo e mostrou que pode oferecer uma alternativa importante pelos lados.

A contratação de Dibling envolveu um investimento considerável, o que naturalmente aumentou a expectativa sobre seu desempenho. No entanto, jogadores jovens nem sempre conseguem corresponder imediatamente ao valor pago, especialmente quando precisam se adaptar a um novo ambiente e a uma competição exigente. A evolução gradual pode ser mais importante do que a cobrança por resultados instantâneos, desde que o atleta demonstre progresso e consiga transformar suas características em contribuição efetiva.

Tyrique George também representa uma alternativa em desenvolvimento. Depois de passar por empréstimo no Everton durante a segunda metade da temporada anterior, quando teve apenas uma titularidade na Premier League, o atacante de 20 anos foi contratado em definitivo junto ao Chelsea. Nesta campanha, já começou cinco partidas e marcou seu primeiro gol pelo clube no empate por 2 a 2 contra o Manchester United, em setembro.

Sua participação na Copa da Liga também foi relevante, especialmente pela recuperação da posse que antecedeu o primeiro gol do Everton. A capacidade de pressionar os adversários e contribuir sem a bola pode ser um diferencial para um jogador que busca conquistar espaço em uma equipe que precisa equilibrar criatividade e intensidade.

Merlin Röhl, por sua vez, mostra como a confiança de Moyes pode permitir que um atleta seja utilizado em funções diferentes. O meio-campista de 24 anos chegou inicialmente por empréstimo e foi contratado em definitivo no verão, depois de começar a ganhar espaço na reta final da temporada passada. Com a necessidade de encontrar uma solução para a lateral direita, passou a ser utilizado na posição e foi escolhido até mesmo em partidas nas quais Ainsley Maitland-Niles estava disponível.

A decisão de recolocá-lo imediatamente na equipe titular depois de uma lesão que o afastou por quatro jogos também demonstra o nível de confiança conquistado pelo jogador. Röhl foi utilizado contra Chelsea, Arsenal e Newcastle, consolidando-se como uma opção para uma posição na qual o Everton ainda procura estabilidade.

A variedade de funções exercidas por esses atletas amplia as possibilidades de Moyes, mas também exige cuidado. A versatilidade pode ser uma vantagem em um elenco curto, desde que não comprometa o desenvolvimento individual nem esconda a necessidade de reforços em posições carentes. O treinador precisa encontrar um equilíbrio entre aproveitar as características dos jovens e evitar que a equipe dependa excessivamente de adaptações improvisadas.

A experiência continua importante, mas o futuro do Everton passa pela nova geração

O crescimento dos jovens não significa que Moyes tenha abandonado a importância dos jogadores experientes. James Tarkowski, aos 33 anos, continua sendo uma das referências defensivas da equipe, enquanto Jordan Pickford, de 32, permanece fundamental para a segurança do sistema. Dewsbury-Hall, aos 28, também oferece qualidade e maturidade ao meio-campo, ajudando a estabelecer um equilíbrio entre os diferentes perfis do elenco.

A questão envolvendo Grealish reforça justamente essa necessidade de administrar experiência e juventude. O meia foi retirado da convocação para o jogo contra o Newcastle após uma ausência não autorizada de um treinamento, e sua eventual volta à equipe dependeria da avaliação interna de Moyes. O treinador evitou antecipar qualquer decisão sobre a partida seguinte, deixando claro que não pretende transformar uma questão disciplinar em uma discussão pública sobre escalação.

Grealish continua sendo um jogador experiente, com capacidade técnica para contribuir, mas sua situação mostra que o prestígio individual não pode estar acima das regras estabelecidas pelo clube. Ao mesmo tempo, a vitória sem sua presença revelou que o Everton possui jogadores capazes de assumir responsabilidades e que a equipe não precisa depender exclusivamente de seus nomes mais conhecidos.

O próximo encontro com o Newcastle, desta vez pela Premier League, será uma oportunidade para confirmar se a atuação na Copa da Liga representa uma mudança mais consistente. Repetir o resultado exigirá que os jovens mantenham o nível de concentração e intensidade, mas também que os jogadores experientes ajudem a controlar os momentos de maior pressão.

O Everton ainda precisa resolver limitações importantes, especialmente a falta de profundidade no ataque, mas a evolução de Hackney, Armstrong, Barry, Dibling, George e Röhl oferece motivos para otimismo. O desafio de Moyes será transformar o potencial desse grupo em regularidade, sem acelerar etapas de maneira irresponsável nem deixar de cobrar desempenho quando as oportunidades aparecerem.

A Copa da Liga pode representar o caminho mais curto para encerrar o jejum de títulos que acompanha o clube desde 1995, mas a importância da vitória sobre o Newcastle vai além da possibilidade de avançar na competição. O Everton encontrou respostas em jogadores que ainda estão construindo suas carreiras e mostrou que pode desenvolver uma equipe menos dependente de nomes experientes. Se essa geração conseguir manter a evolução e receber o suporte necessário, o clube poderá transformar uma necessidade imediata em parte de um projeto esportivo mais sustentável.

(Foto: Getty Images)