Filipe Luís precisou de apenas cinco jogos para transformar uma boa oportunidade em um acontecimento histórico no Monaco. O brasileiro venceu todos os compromissos oficiais desde que assumiu o clube e chegou ao quinto triunfo justamente contra o PSG, fora de casa, em uma virada por 2 a 1 no Parque dos Príncipes. Com isso, tornou-se o primeiro treinador da história do Monaco a vencer seus cinco primeiros jogos.
O número impressiona por si só. Mas o que realmente chama atenção está no que ele representa.
Poucos meses depois de deixar o Flamengo, Filipe Luís encontrou na França condições muito diferentes para desenvolver suas ideias. E o contraste reacende uma discussão que o futebol brasileiro raramente faz com profundidade: será que o problema está sempre nos treinadores?
Talvez esteja também no ambiente em que eles trabalham.
O resultado não apareceu por acaso
Seria fácil olhar para os cinco jogos e concluir que Filipe Luís simplesmente encontrou um campeonato mais adequado ao seu estilo. A realidade é mais complexa.
No Monaco, o treinador chegou com uma ideia clara de jogo e encontrou um clube disposto a apostar nela. O próprio Filipe revelou, na apresentação, que recebeu contatos de outras equipes, mas escolheu o Monaco porque houve identificação entre suas ideias e o projeto.
Isso importa.
Um treinador precisa de jogadores capazes de executar suas propostas, tempo para treiná-las e uma direção disposta a sustentar decisões que nem sempre produzem resultados imediatamente. Filipe Luís encontrou essas condições.
O Monaco o contratou até 2028, mesmo sendo seu primeiro trabalho como treinador na Europa. A escolha foi conduzida pelo diretor esportivo brasileiro Thiago Scuro, que participou diretamente da negociação.
É justamente aí que começa a diferença.
O Brasil costuma exigir resposta antes de permitir construção
O futebol brasileiro tem uma relação complicada com o tempo. Treinadores são frequentemente avaliados pela sequência mais recente de resultados, e uma série de derrotas pode colocar todo um trabalho em dúvida. Isso cria um ambiente no qual o técnico precisa pensar não apenas em como melhorar a equipe, mas também em como chegar vivo à próxima rodada.
O problema não é cobrar resultados. Isso faz parte do futebol. A questão aparece quando o resultado imediato passa a ser praticamente o único critério de avaliação.
Filipe Luís conhece esse cenário.
No Flamengo, sua saída aconteceu em março, poucas horas depois de uma goleada por 8 a 0 sobre o Madureira. A demissão veio em um contexto no qual o clube havia perdido a Supercopa do Brasil e a Recopa Sul-Americana e vivia um início de temporada abaixo das expectativas.
Poucos meses depois, o mesmo treinador está invicto no início de sua experiência europeia. Isso não significa que o Flamengo necessariamente tenha errado ao demiti-lo. Mas mostra como a avaliação de um técnico pode mudar completamente de acordo com o contexto.
A estrutura pode potencializar um treinador
É aqui que a experiência de Filipe Luís no Monaco se torna ainda mais interessante. O treinador não chegou a um clube sem problemas. O Monaco terminou a temporada anterior apenas em sétimo no Campeonato Francês e passou por mudanças no comando técnico.
Ou seja, não recebeu uma equipe pronta, mas sim um projeto, e isso parece ter feito diferença.
Filipe encontrou liberdade para participar dos treinamentos, corrigir os jogadores e implementar seus conceitos. Desde os primeiros trabalhos, demonstrou uma postura muito próxima do elenco, inclusive participando de exercícios para facilitar a transmissão de suas ideias.
O clube também mostrou capacidade para tomar decisões difíceis sem transformar cada escolha em uma crise.
Um exemplo foi a saída de Paul Pogba antes mesmo do início oficial da temporada. A rescisão foi tratada pelo Monaco como uma decisão conjunta diante de objetivos que não haviam sido plenamente alcançados.
Isso também é gestão de futebol. Não significa que todas as decisões estejam certas. Significa ter uma estrutura capaz de tomá-las sem abandonar o projeto a cada dificuldade.
Treinadores brasileiros também precisam evoluir
Seria injusto transformar o sucesso de Filipe Luís em uma absolvição automática dos técnicos brasileiros. O caso dele também mostra que existe uma nova geração buscando uma preparação diferente.
Filipe teve experiência como jogador no futebol europeu, conviveu com treinadores de diferentes escolas e iniciou sua carreira técnica nas categorias de base do Flamengo antes de chegar ao profissional. No clube carioca, conquistou títulos importantes e construiu uma reputação de treinador atualizado.
Outros profissionais começam a seguir caminho semelhante. Thiago Neves, por exemplo, já identifica Filipe como um dos nomes que abriram espaço para uma nova geração de ex-jogadores interessados em construir carreira como treinadores.
Isso também precisa entrar na discussão. Não adianta apenas reclamar da falta de tempo se os profissionais não estiverem dispostos a estudar, atualizar métodos e compreender as transformações do jogo. O ambiente precisa melhorar.
Mas os treinadores também precisam acompanhar essa evolução.
O PSG reforçou o argumento, mas não encerra a discussão
A vitória sobre o PSG tornou a história muito maior. O Monaco saiu atrás, reagiu no segundo tempo e venceu por 2 a 1 no estádio do atual campeão francês. Com o resultado, chegou a nove pontos e assumiu isoladamente a liderança da Ligue 1.
Mais importante: o time não venceu apenas um adversário qualquer. Venceu uma equipe que, até pouco tempo, parecia estar em outro patamar no futebol francês e europeu. Ainda assim, é preciso ter cuidado.
Cinco jogos não são suficientes para concluir que Filipe Luís será um grande treinador europeu. Tampouco provam que todos os problemas do futebol brasileiro estejam nos clubes. O que esses cinco jogos fazem é levantar uma pergunta incômoda.
Quanto talento técnico o futebol brasileiro deixa pelo caminho porque seus profissionais são avaliados antes de terem tempo para construir?
Filipe Luís oferece uma resposta parcial. Ele continua sendo o treinador que construiu sua carreira no Brasil. O que mudou foi o contexto em que suas ideias passaram a ser trabalhadas. No Monaco, encontrou respaldo, organização e uma direção disposta a apostar em seu trabalho. E, até aqui, os resultados apareceram rapidamente.
Talvez a discussão, portanto, não seja escolher entre “treinadores” ou “clubes”. O futebol brasileiro precisa dos dois lados funcionando melhor.
Os clubes precisam aprender a construir projetos em vez de reagir a cada crise. Os treinadores precisam se preparar, evoluir e apresentar ideias capazes de acompanhar as transformações do futebol.
Filipe Luís não prova que o treinador brasileiro é injustiçado. Ele mostra algo mais interessante: quando competência, preparação e ambiente se encontram, o desenvolvimento pode acontecer muito mais rápido. E talvez esse seja o verdadeiro alerta que o Monaco está dando ao futebol brasileiro.
O problema não está apenas em quem está à beira do campo. Muitas vezes, está em tudo aquilo que acontece ao redor dela.
Imagem: Reprodução/X/AS Monaco



