O Flamengo está classificado para as quartas de final da Libertadores, recuperou confiança depois de semanas turbulentas e venceu um dos confrontos mais difíceis das oitavas de final. Mas, para além da classificação sobre o Cruzeiro, a vitória por 2 a 1 no Maracanã deixou uma questão interessante para Leonardo Jardim: o brilho de Pedro pode ser a chave para o Flamengo melhorar seu jogo com a posse de bola?
A atuação do centroavante ajuda a sustentar essa discussão. Pedro não foi apenas o jogador que apareceu próximo ao gol. Diante do Cruzeiro, ele participou diretamente da construção ofensiva, saiu da área, fez o pivô, encontrou espaços entre as linhas e distribuiu duas assistências decisivas, para Arrascaeta e Samuel Lino. O camisa 9 mostrou que sua importância para o Flamengo pode ir muito além das finalizações.
Essa característica ganha ainda mais relevância pelo momento do time. Depois da pausa para a Copa do Mundo, o Flamengo passou por atuações ruins e questionamentos sobre seu modelo de jogo. O time tinha dificuldade para controlar partidas e, principalmente, transformar posse de bola em chances claras. Contra o Cruzeiro, ao menos no primeiro tempo, a equipe apresentou uma versão muito mais próxima do que Leonardo Jardim parece buscar.
Pedro dá ao Flamengo uma referência para jogar apoiado
Os números dos primeiros 45 minutos no Maracanã impressionam pelo contexto. O Flamengo chegou a ter 70% de posse de bola, finalizou 12 vezes contra apenas três do Cruzeiro, criou três chances claras e praticamente não sofreu defensivamente. Foi uma atuação de domínio contra um adversário de alto nível e que chegou ao confronto como um dos favoritos da competição.
Pedro teve participação fundamental nesse cenário. Diferentemente de um centroavante que permanece fixo entre os zagueiros durante toda a partida, o camisa 9 se movimentou constantemente para oferecer uma opção de passe aos companheiros. Quando recuava ou flutuava para fora da área, atraía marcadores e abria espaços para as infiltrações dos meias e pontas.
Foi assim que nasceram os dois gols do Flamengo. Pedro saiu da referência, teve calma para identificar os movimentos dos companheiros e encontrou Arrascaeta e Samuel Lino. As duas assistências reforçaram uma qualidade que nem sempre recebe o mesmo destaque de sua capacidade como finalizador: sua inteligência associativa.
Essa pode ser uma peça importante para um Flamengo que gosta de trabalhar a bola no campo ofensivo. Quando Pedro consegue reter a posse e fazer o pivô, o time ganha tempo para aproximar Arrascaeta, Paquetá, Carrascal ou os jogadores que ocupam o meio-campo. Em vez de depender exclusivamente de acelerações individuais, a equipe passa a ter uma referência para construir ataques de maneira mais sustentada.
Os próprios números gerais do jogo mostram o controle rubro-negro. O Flamengo terminou a partida com 54% de posse, 21 finalizações, nove chutes no alvo e sete chances de gol, contra 14 finalizações e três chances do Cruzeiro. A vantagem no placar agregado foi mínima, mas a equipe carioca produziu mais durante o confronto.
Movimentação de Pedro cria espaços para Arrascaeta
A parceria entre Pedro e Arrascaeta foi um dos grandes destaques da classificação. Os dois jogadores têm características diferentes, mas complementares. Pedro oferece presença física, retenção de bola e capacidade de atuar de costas para o gol. Arrascaeta, por sua vez, tem leitura para atacar os espaços que surgem e qualidade técnica para definir as jogadas.
Após a partida, o uruguaio explicou que o Cruzeiro buscava muitos encaixes de marcação e que o Flamengo preparou Pedro para atuar com mais liberdade. A ideia funcionou porque a movimentação do centroavante ajudou a desorganizar referências defensivas e criar espaços para o restante do setor ofensivo.
Esse ponto é importante para entender a discussão sobre a posse de bola. Ter a bola não significa necessariamente jogar bem. O Flamengo teve partidas recentes com maior volume, mas pouca criatividade. Contra o Cruzeiro, a diferença foi a capacidade de encontrar soluções dentro da própria organização adversária.
Pedro ajudou justamente nesse aspecto. Ao sair da área, ele oferecia uma alternativa de passe vertical e evitava que o Flamengo precisasse recorrer constantemente a cruzamentos ou jogadas individuais. Quando recebia, tinha qualidade para dar continuidade à ação.
Isso também potencializa Arrascaeta. Com um atacante capaz de participar da construção, o uruguaio não precisa ser o único responsável por criar entre as linhas. A dupla pode alternar movimentos, aproximar-se da bola e atacar diferentes espaços da área.
Não por acaso, Leonardo Jardim destacou após a classificação que Pedro é um goleador importante para um time que trabalha com posse e jogo apoiado. A atuação no Maracanã também serviu para responder a questionamentos sobre a capacidade de Pedro e Arrascaeta participarem da pressão sem a bola. O Flamengo conseguiu pressionar alto e recuperar a posse no campo adversário com os dois em campo.

O desafio é transformar a atuação em padrão
A grande questão para o Flamengo agora é saber se a atuação contra o Cruzeiro representa uma mudança consistente ou apenas uma grande noite em um confronto decisivo. A equipe já havia apresentado sinais de recuperação na goleada sobre o Mirassol, mas ainda precisa demonstrar regularidade.
Esse ponto é especialmente importante porque Leonardo Jardim trabalha com rodízio. Pedro começou apenas sua segunda partida como titular nesta edição da Libertadores, e a comissão técnica precisa administrar a condição física do elenco durante a sequência de jogos.
Por isso, Pedro não precisa necessariamente atuar durante 90 minutos em todas as partidas para ser uma peça central do modelo. O que a classificação mostrou é que, em determinados contextos, especialmente contra adversários fechados e em jogos nos quais o Flamengo precisa controlar a posse, suas características podem oferecer uma solução diferente.
O clube continua buscando opções no mercado para o setor ofensivo, além de um meia e um ponta, segundo as informações apresentadas. Isso mostra que a comissão técnica entende que o elenco ainda pode ganhar alternativas. Mas a atuação contra o Cruzeiro também reforçou que algumas respostas podem estar dentro do próprio grupo.
Pedro é uma delas. Depois de passar por problemas físicos no início da temporada, o atacante voltou a ser decisivo justamente quando o Flamengo precisava de uma grande atuação.
Pedro pode ser mais do que o finalizador do Flamengo
O camisa 9 ainda é, naturalmente, um jogador de área. Sua principal função continuará sendo marcar gols. Mas limitar Pedro apenas ao papel de finalizador parece ignorar uma parte importante do seu repertório.
Contra o Cruzeiro, ele mostrou capacidade para conectar o meio-campo ao ataque, reter a posse sob pressão e encontrar companheiros em condições de finalizar. Suas duas assistências foram a melhor demonstração disso.
Em um Flamengo que busca recuperar consistência com a bola, essa característica pode ser extremamente valiosa. O time tem jogadores de qualidade técnica suficiente para dominar territorialmente os adversários, mas precisa encontrar mecanismos para transformar domínio em perigo real.
A movimentação de Pedro pode ser um desses mecanismos. Quando o centroavante participa mais do jogo, Arrascaeta ganha espaços, os pontas encontram opções de aproximação e o meio-campo passa a ter uma referência à frente para acelerar ou dar continuidade à posse.
A classificação para as quartas de final da Libertadores devolveu confiança ao Flamengo, mas não significa que todos os problemas recentes desapareceram. As turbulências nos bastidores, as dificuldades apresentadas no pós-Copa e a busca por reforços continuam fazendo parte do cenário.
Em campo, porém, a noite contra o Cruzeiro deixou uma pista importante. O Flamengo de maior controle e criatividade teve Pedro não apenas dentro da área, mas participando ativamente da construção. Se Leonardo Jardim conseguir transformar essa dinâmica em algo mais frequente, o brilho do camisa 9 pode ajudar o Rubro-Negro a encontrar uma versão mais dominante e eficiente com a posse de bola.
Foto: Gilvan Souza/ Flamengo



