Uma das principais polêmicas da Fórmula 1 atual ganhou um novo capítulo. Nesta quinta-feira (28), o chefe da Mercedes, Toto Wolff, disse ser favorável à mudança de motores para a temporada 2027. Mesmo reconhecendo a vantagem obtida pela equipe com o novo regulamento, o executivo afirmou que aceita discutir alterações no projeto que entrará em vigor a partir de 2026.
A discussão envolve o conceito das novas unidades de potência da Fórmula 1, que tem uma divisão de energia de 50:50 entre o motor de combustão interna e os sistemas elétricos de baterias reforçados de 350 kW. A ideia inicial era tornar a categoria mais sustentável e moderna, aumentando o protagonismo da parte elétrica.
No entanto, as primeiras simulações e análises feitas pelas equipes mostraram problemas importantes no comportamento dos carros. Durante corridas e classificações, ficou evidente o chamado “superclipping”, situação em que o piloto perde potência elétrica no fim das retas.
Além disso, o uso frequente do “lift and coast” — técnica em que o piloto tira o pé do acelerador antes das curvas para economizar energia — passou a preocupar dirigentes e engenheiros.
Na prática, muitas equipes acreditam que a Fórmula 1 pode acabar perdendo desempenho e espetáculo caso o regulamento permaneça inalterado. Por isso, fabricantes começaram a discutir uma mudança na proporção energética, passando de 50:50 para 60:40 em favor dos motores de combustão.
Toto Wolff demonstrou apoio à discussão e indicou que a Mercedes está aberta a negociar uma solução conjunta entre os fabricantes. “Bem, é mais fácil falar da minha posição, mas acho que as corridas são bastante divertidas”, afirmou o dirigente.
“Obviamente, o traçado da pista de Montreal ajuda em termos de energia, mas acho que as mudanças que todos nós previmos, adicionando mais potência e ajudando na distribuição de energia, são mudanças positivas.”
“Eles querem dizer um acordo entre os fabricantes de motores, e parece uma abordagem sensata, mas ainda não votamos sobre isso.”
Mudança na Fórmula 1 deve sofrer resistência
Apesar do apoio da Mercedes, a proposta enfrenta resistência significativa dentro da Fórmula 1. A Honda indicou que aceita seguir qualquer decisão tomada pela FIA, mas nos bastidores Audi e Ferrari aparecem como as principais opositoras da mudança.
O caso da Audi chama ainda mais atenção. A montadora alemã investiu pesado no projeto dos motores de 2026 justamente por acreditar no conceito 50:50 definido inicialmente pela categoria. Alterar o regulamento apenas um ano depois da estreia é visto internamente como uma quebra de planejamento técnico e financeiro.
A Ferrari também demonstra preocupação com uma possível mudança de rota. A equipe italiana entende que o regulamento já foi aprovado anteriormente e que alterações podem gerar desequilíbrios esportivos e econômicos.
O debate mostra como a Fórmula 1 vive um momento delicado na sua nova era tecnológica. Ao mesmo tempo em que a categoria avança na eletrificação, os carros estão menos competitivos, ficando excessivamente dependentes da recuperação de energia.
Como funciona a votação
Para que a alteração seja aprovada, a Fórmula 1 precisará alcançar uma supermaioria dentro do Comitê Consultivo de Unidades de Potência. O órgão reúne as cinco fabricantes de motores da categoria: Audi, Honda, Ferrari, Mercedes HPP e Red Bull Powertrains, além da própria Fórmula 1 e da FIA.
A regra determina que uma supermaioria seja formada por quatro das cinco fabricantes, além da aprovação conjunta da FIA e da Fórmula 1. Ou seja, mesmo com apoio da Mercedes e possível neutralidade da Honda, a resistência de Audi e Ferrari pode dificultar bastante qualquer mudança no regulamento.
A situação também evidencia o peso político das montadoras dentro da Fórmula 1 moderna. Diferentemente de outros períodos da categoria, os fabricantes possuem enorme influência nas decisões técnicas, principalmente em projetos que envolvem investimentos bilionários.
Enquanto as conversas seguem nos bastidores, a Fórmula 1 tenta encontrar um equilíbrio entre inovação tecnológica, sustentabilidade e competitividade. A definição sobre os motores de 2027 pode influenciar diretamente o futuro esportivo e comercial da categoria pelos próximos anos.
Foto: Mercedes/Fórmula 1