Os jogos que mostram as falhas de uma Copa com 48 seleções
Futebol Copa do Mundo

Os jogos que mostram as falhas de uma Copa com 48 seleções

A Copa do Mundo de 2026 está expondo claramente os problemas do formato com 48 equipes. Após apenas duas rodadas da fase de grupos, já se percebe a falta de real perigo para muitas seleções. Diferente de edições anteriores, onde uma derrota quase sempre significava eliminação precoce, agora é muito mais difícil cair na primeira fase.

A inclusão dos oito melhores terceiros colocados para completar os 32 times das oitavas de final foi necessária para manter a simetria do mata-mata, mas criou situações estranhas. Times podem jogar por resultados específicos, inclusive empates “convenientes”, sem correr risco real de eliminação.

Dois jogos que colocam o formato à prova

Dois confrontos desta semana ilustram perfeitamente o problema:

  • Austrália x Paraguai (Grupo D)  
  • Áustria x Argélia (Grupo J)

As quatro seleções estão com três pontos e ocupam a segunda e terceira posições em seus grupos. Quatro pontos praticamente garantem a vaga entre os melhores terceiros colocados. Isso cria um cenário perigoso: as equipes podem simplesmente se contentar com um empate, sem necessidade de arriscar.

Situações semelhantes podem ocorrer em outros grupos, como Japão x Suécia e Gana x Croácia. Com duas partidas de grupos terminando antes, as seleções já saberão exatamente o que precisam para avançar.

O que a Fifa quis evitar… e acabou criando nesta edição de Copa

A Fifa já havia vivido o trauma da Copa de 1982, quando a Alemanha Ocidental e a Áustria jogaram um “jogo combinado” de 1 a 0 que eliminou a Argélia. Depois disso, passou a exigir que as últimas rodadas fossem simultâneas. No entanto, com 48 seleções, o problema voltou de forma diferente.

O plano inicial de 16 grupos de três times foi abandonado justamente por causa do risco de combinações. Optou-se por 12 grupos de quatro, mas a regra dos oito melhores terceiros reduziu drasticamente a tensão. Agora, é mais fácil avançar do que ser eliminado.

Outra distorção do formato: as seleções que jogam as últimas partidas de seus grupos têm vantagem. Elas já sabem exatamente o que precisam (vitória, empate ou até derrota) para se classificar como uma das melhores terceiras colocadas e até qual adversário enfrentarão nas oitavas.

Isso pode levar a situações absurdas: um time prefere perder para cair em um chaveamento mais favorável. A Argentina de 1982 foi vítima de uma combinação. Em 2026, a Argélia pode ser beneficiada.

Gianni Infantino defendeu a ampliação para 48 seleções desde sua eleição em 2016. O argumento era levar a Copa para mais países. No entanto, o formato atual sacrifica parte da intensidade que tornava a fase de grupos tão especial.

Em vez de criar emoção até o último minuto, estamos vendo cenários onde times podem “combinar” resultados sem grandes consequências. Se Austrália x Paraguai e Áustria x Argélia terminarem empatados, as críticas ao formato vão aumentar.

O que os números mostram: recordes de cartões vermelhos nas primeiras rodadas, equipes jogando os últimos 10-15 minutos sem atacar, apenas administrando o resultado e odds de empate em alguns jogos próximos de valores iguais, mostrando que o mercado já considera a possibilidade de “jogo morno”.

E se o problema se repetir nas oitavas da Copa?

O risco não para na fase de grupos. Com 32 equipes nos mata-mata, o torneio fica mais longo e o cansaço pode ser maior. Além disso, a possibilidade de times “escolherem” adversários com base no resultado da última rodada cria distorções difíceis de ignorar.

A Copa de 2026 está servindo de laboratório. Se os empates “estratégicos” se repetirem, a pressão sobre a Fifa para rever o formato atual da Copa vai aumentar. Reduzir para 32 ou aumentar para 64? A discussão já está aberta.

Por enquanto, o que se vê em campo são jogos com menos drama e mais cálculo. O futebol perde quando o resultado importa mais que a disputa. E a Copa de 48 seleções, até agora, está mostrando exatamente isso.

A ampliação trouxe mais países, mais jogos e mais receita. Mas também trouxe o risco de esvaziar o que o torneio tem de mais bonito: a tensão de quem fica e quem volta para casa mais cedo.

Foto: Reuters.