Harry Kane está cada vez mais perto de transformar sua trajetória pela Inglaterra em uma das maiores da história da seleção. Aos 33 anos, o atacante está a apenas uma partida de igualar Peter Shilton como o jogador com mais aparições pela seleção. Caso participe do confronto contra a República Tcheca, pela UEFA Nations League, Kane chegará aos 125 jogos.
O número é impressionante, mas representa apenas uma parte do tamanho de sua trajetória. Kane já é o maior artilheiro da história da Inglaterra, com 89 gols em 124 partidas. Desde sua estreia, em março de 2015, quando marcou apenas 79 segundos depois de entrar em campo contra a Lituânia, o atacante se tornou uma presença constante na seleção.
Sua longevidade também chama atenção. Kane disputou seis grandes torneios pela Inglaterra e marcou 21 gols em 36 partidas nessas competições. O número o coloca muito acima de nomes históricos como Gary Lineker, que marcou 10 gols em 18 jogos em grandes torneios.
A discussão agora vai além dos números. A pergunta é se Kane já pode ser considerado um dos maiores jogadores da história da Inglaterra e, principalmente, se existe espaço para colocá-lo ao lado de figuras como Bobby Moore, Bobby Charlton e Wayne Rooney.
Kane já construiu um domínio impressionante nos números

O principal argumento a favor de Kane está justamente nos números. Nenhum outro jogador marcou mais gols pela Inglaterra do que ele. São 89 gols, uma marca que o coloca 36 gols à frente de Wayne Rooney, segundo maior artilheiro da seleção, com 53.
A diferença é enorme e mostra que Kane não apenas assumiu a liderança da artilharia, mas abriu uma distância considerável para seus principais concorrentes.
Rooney precisou de 120 partidas para marcar seus 53 gols. Kane alcançou 89 gols em 124 jogos. A comparação ajuda a entender o tamanho de sua produção ofensiva.
Além disso, Kane possui uma regularidade impressionante. Ele marcou cinco hat tricks pela Inglaterra e apresenta uma taxa de vitórias de 66% nas partidas em que foi titular. Também marcou em seis jogos consecutivos fora de casa pela seleção, ficando atrás apenas de Sir Tom Finney, que conseguiu marcar em sete partidas seguidas entre 1946 e 1948.
Outro dado importante está relacionado aos grandes torneios. Kane soma 21 gols em 36 partidas pela Inglaterra nessas competições. Isso significa que ele não construiu sua artilharia apenas em amistosos ou partidas de menor peso.
Sua produção também continua em alto nível. Os dois gols marcados na vitória por 7 a 0 sobre a Croácia elevaram seu número para 11 gols em 12 partidas pela Inglaterra neste ano.
O peso histórico de Bobby Moore e Bobby Charlton

Apesar dos números de Kane, a discussão sobre o maior jogador da Inglaterra não pode ser feita apenas com estatísticas.
Bobby Moore ocupa um lugar praticamente intocável na história da seleção porque foi o capitão da equipe que conquistou a Copa do Mundo de 1966. Ele levantou o único Mundial vencido pela Inglaterra e continua sendo o único capitão inglês a realizar esse feito.
Moore disputou 108 partidas pela seleção entre 1962 e 1973. Além da conquista mundial, teve uma carreira importante pelo West Ham, onde venceu a FA Cup e a Recopa Europeia.
Bobby Charlton também possui um peso histórico enorme. O meio campista sobreviveu ao desastre aéreo de Munique, em 1958, e posteriormente se tornou uma das maiores figuras do futebol inglês.
Com a Inglaterra, Charlton conquistou a Copa do Mundo de 1966. Pelo Manchester United, tornou-se campeão europeu em 1968, sendo o capitão da primeira equipe inglesa a vencer a competição.
Ele marcou 49 gols em 106 jogos pela seleção e permanece entre os maiores artilheiros da história da Inglaterra.
É justamente aqui que a comparação com Kane fica mais complicada. Moore e Charlton possuem algo que Kane ainda não conseguiu conquistar: um título mundial pela seleção.
Ao mesmo tempo, o futebol de suas épocas era muito diferente do atual. A quantidade de partidas, o calendário, a preparação física, as viagens e até a estrutura das seleções mudaram completamente.
Por isso, alguns ex-jogadores defendem que Kane precisa ser analisado dentro de seu próprio contexto.
A ausência de um grande título ainda pesa contra Kane

Se existe um ponto capaz de impedir que Kane seja colocado de forma unânime acima de todos os outros grandes jogadores ingleses, é justamente a falta de um título importante pela seleção.
O atacante esteve perto em algumas oportunidades.
Em 2018, a Inglaterra chegou à semifinal da Copa do Mundo na Rússia, mas perdeu para a Croácia. Quatro anos depois, no Catar, os ingleses foram eliminados pela França nas quartas de final. Kane marcou na competição, mas também perdeu um pênalti contra os franceses.
Na Eurocopa, a situação foi ainda mais dolorosa. A Inglaterra chegou à final em 2021 e perdeu para a Itália nos pênaltis, em Wembley. Em 2024, novamente chegou à decisão, desta vez contra a Espanha, mas terminou derrotada.
Kane também não marcou na final da Euro 2024 nem na semifinal da Copa do Mundo de 2018. Esses momentos são utilizados por críticos para argumentar que faltou uma grande atuação individual de Kane justamente quando a Inglaterra mais precisava.
Por outro lado, existe um contraponto importante. O futebol é um esporte coletivo e um atacante não consegue decidir sozinho uma competição inteira.
Kane teve participação direta em campanhas que levaram a Inglaterra às fases decisivas. Ele também assumiu responsabilidades como capitão e principal referência ofensiva.
A falta de troféus, portanto, não pode ser atribuída exclusivamente ao atacante.
Kane ainda pode aumentar seu legado

A grande vantagem de Kane é que sua história pela Inglaterra ainda não terminou.
A possibilidade de igualar o recorde de 125 partidas de Peter Shilton mostra que ele continua relevante mesmo aos 33 anos. E, caso mantenha seu nível físico e técnico, ainda poderá aumentar consideravelmente seus números.
A Eurocopa de 2028, disputada no Reino Unido e na Irlanda, pode representar uma das últimas grandes oportunidades de Kane conquistar um título com a seleção.
Esse fator pode ter um peso enorme na avaliação de sua carreira. Se conseguir liderar a Inglaterra a uma conquista importante, Kane acrescentará ao seu currículo justamente o elemento que hoje falta em comparação com os maiores nomes da história.
Sua carreira também ganhou uma dimensão impressionante em clubes. Kane marcou 280 gols pelo Tottenham, 152 pelo Bayern, 89 pela Inglaterra, nove pelo Millwall, cinco pelo Leyton Orient e dois pelo Leicester.
São números que mostram que sua capacidade de marcar gols não depende de um único clube ou contexto.
Por isso, a discussão sobre Kane já deixou de ser apenas uma comparação entre artilheiros. Ele entrou definitivamente na conversa sobre os maiores jogadores que a Inglaterra já produziu.
Bobby Moore tem a Copa do Mundo. Bobby Charlton tem a Copa do Mundo e uma carreira histórica pelo Manchester United. Rooney possui uma trajetória extremamente completa e foi durante muitos anos o principal nome ofensivo da seleção.
Kane, por sua vez, tem algo que nenhum deles possui em uma escala semelhante: uma produção goleadora extraordinária acompanhada de longevidade e regularidade.
A discussão continuará sendo subjetiva porque envolve diferentes gerações e contextos. Mas uma coisa já parece clara: independentemente de ser considerado o maior ou não, Harry Kane já construiu uma carreira que o coloca entre os grandes da história da Inglaterra.
(Foto de capa: PA Media)



