A lendária primeira vez do Haiti na Copa de 1974
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A lendária primeira vez do Haiti na Copa de 1974: O milagre dos Granadeiros

Haiti volta à Copa do Mundo em 2026. Cinquenta e dois anos depois da inesquecível estreia em 1974, os Grenadiers caribenhos regressam ao palco mais importante do futebol mundial. Uma qualificação conquistada com garra, superação e um futebol resiliente, que ecoa a épica jornada da primeira participação. 

Naquela época, sob uma ditadura opressora, um time de operários, garçons e eletricistas desafiou o mundo. Hoje, com profissionais espalhados pela Europa e pela América, o Haiti sonha em escrever um novo capítulo. Mas a memória de 1974 ainda pulsa forte.

O milagre de 1973: Um italiano em Port-au-Prince

Tudo começou em 1973, no auge da ditadura dos Duvalier. François “Papa Doc” havia passado o poder ao filho Jean-Claude, “Baby Doc”. O futebol era usado como ferramenta de propaganda. Haiti sediou a fase final do Campeonato CONCACAF, que servia também como eliminatória para a Copa de 1974 na Alemanha Ocidental. Faltava apenas um treinador capaz de liderar o projeto.

Ettore Trevisan, triestino nascido em 1929, aceitou o desafio quase por acaso. Ex-jogador e treinador itinerante, com passagens pela Grécia e Bastia, ele chegou ao Haiti recomendado por figuras da FIGC. “Nem sabia direito onde ficava o país”, confessaria anos depois. O que encontrou foi um time de amadores: jovens que ganhavam cinco dólares por dia e viviam em barracos precários. Sem estrutura, sem disciplina tática, mas com talento natural.

Trevisan transformou o grupo. Ensinou alimentação adequada, sono reparador e organização em campo. “Esqueçam o vudu. Olhem para Cassius Clay, negro como vocês, que vence todo mundo”, motivava. Com o apoio do regime, que via no futebol uma vitrine, ele montou um time competitivo. A vila com frutas tropicais serviu de base para treinos intensos.

Em dezembro de 1973, no estádio de Port-au-Prince, Haiti brilhou. Venceu as Antilhas Holandesas por 3 a 0, Trinidad e Tobago por 2 a 1 (com gols anulados polêmicos para os adversários), Honduras por 1 a 0 e Guatemala por 2 a 1, com dupla de Emmanuel Sanon. A derrota por 1 a 0 para o México no final foi irrelevante. Com 8 pontos, os Grenadiers conquistaram a vaga histórica.

Sanon, o herói que humilhou a Itália

Na Alemanha Ocidental, Haiti caiu no Grupo D com Itália, Polônia e Argentina. Ninguém dava chances aos caribenhos. No dia 15 de junho de 1974, no Olympiastadion de Munique, enfrentaram a Itália de Ferruccio Valcareggi, vice-campeã mundial e com Dino Zoff invicto há 1.142 minutos.

O primeiro tempo terminou 0 a 0, graças às defesas milagrosas de Henry Francillon. Aos 46 minutos do segundo tempo, Philippe Vorbe lançou Emmanuel Sanon. O atacante, que ganhava 200 dólares por mês no Don Bosco, superou a zaga italiana, driblou Zoff e abriu o placar. Por seis minutos, Haiti liderou sobre a Itália. Sanon quebrou o recorde de Zoff e entrou para a lenda.

A Itália reagiu. Rivera empatou, Auguste fez contra, Anastasi fechou em 3 a 1. Mas o gol de Sanon ficou marcado para sempre. “Todos falavam de europeus e sul-americanos. Ninguém imaginava um haitiano”, disse o herói depois.

O drama do doping e o fim trágico

A alegria durou pouco. Ernst Jean-Joseph, sorteado no antidoping após o jogo com a Itália, testou positivo para anfetamina. Foi o primeiro caso de doping na história dos Mundiais. O regime reagiu com brutalidade: os Tonton Macoutes o espancaram e o enviaram para um campo de prisioneiros. A equipe, abalada, perdeu por 7 a 0 para a Polônia e por 4 a 1 para a Argentina. Haiti terminou o grupo com dois gols marcados e 14 sofridos.

Trevisan, o grande artífice, foi afastado após entrevista polêmica ao jornal La Stampa, onde falou da miséria haitiana. O regime o considerou inconveniente. Ele voltou à Itália marcado pela experiência.

Os heróis de 1974 e o legado

Emmanuel Sanon brilhou no Beerschot, na Bélgica, e encerrou a carreira nos EUA. Morreu em 2008 vítima de câncer. Henry Francillon jogou na Alemanha e no Canadá. Philippe Vorbe virou comentarista. Jean-Joseph sobreviveu às torturas e voltou a jogar.

Hoje, Haiti retorna com profissionais como Frantzdy Pierrot e Ricardo Adé. Sob Sébastien Migné, superou Honduras e Costa Rica nas eliminatórias. No Grupo C de 2026, enfrentará Escócia, Marrocos e Brasil. A pressão é grande, mas a resiliência haitiana é maior.

O fio que liga 1974 a 2026 é de esperança. Os Grenadiers carregam o espírito de Sanon, Francillon e Trevisan. Não são mais amadores, mas o sonho é o mesmo: surpreender o mundo. Haiti volta aos Mundiais com a lição de que, mesmo contra gigantes, o futebol permite milagres.

A pérola do Caribe sonha alto. Em 2026, o mundo vai lembrar por que o Haiti merece seu lugar na história do esporte.

Foto: Imago.