O Liverpool saiu vencedor do Merseyside Derby contra o Everton, mantendo os 100% de aproveitamento no Campeonato Inglês e a liderança isolada com 15 pontos em cinco jogos. Mas nem tudo foram flores. Depois de um primeiro tempo praticamente perfeito, a equipe de Arne Slot deu uma balançada quando o treinador mexeu na formação. O próprio holandês falou no pós-jogo sobre a necessidade de “evoluir” e ficou claro que essa evolução passa por um delicado equilíbrio entre elenco, tática e resultados.
A vitória por 2 a 1 no clássico teve gols de Ryan Gravenberch e Hugo Ekitike, dois jogadores que encarnam bem a nova cara do Liverpool. O meia holandês brilhou com liberdade para chegar ao ataque, enquanto o atacante francês mostrou frieza de goleador, anotando seu quarto gol desde que chegou no verão europeu. Foi um primeiro tempo digno de campeão, mas o fim do jogo expôs o tamanho do desafio de Slot: mexer sem perder intensidade.
Gravenberch solto e dominante
Slot chamou o primeiro tempo de “um prazer de ver” — e não foi exagero. Salah serviu com categoria para Gravenberch abrir o placar com classe, antes de Ekitike completar uma jogada iniciada pelo próprio meia. O detalhe é que Gravenberch não foi só brilho ofensivo; o técnico destacou também como ele ajudou Conor Bradley na recomposição defensiva, mostrando ser um verdadeiro box-to-box moderno.
Esse novo papel já rendeu ao holandês o título de jogador mais jovem da história do clube a marcar e dar assistência em um Merseyside Derby. Com mais liberdade, ele está lembrando os tempos áureos de Wijnaldum sob Klopp: elegância, resistência e chegada ao ataque. Só que essa guinada tem efeitos colaterais — escolher a combinação ideal de meio-campistas virou um quebra-cabeça bem mais complicado para Slot.
O dilema Wirtz e o meio-campo dos sonhos
A chegada de Florian Wirtz aumentou ainda mais as opções, mas também os dilemas. O jovem alemão ainda não engrenou no ritmo da Premier League e não tem números expressivos — apenas uma assistência na Community Shield. No sábado, entrou no lugar de Gakpo e tocou na bola oito vezes, metade em passes laterais ou para trás. É talento puro, mas ainda em adaptação.
Para encaixá-lo, Slot precisaria mexer na engrenagem que tanto funcionou no título passado, com Gravenberch, Szoboszlai e Mac Allister dominando o meio. Wirtz brilhou contra o Atlético de Madrid na Champions, criando cinco chances, mas o time também ficou mais exposto. Contra o Everton, os Toffees tiveram seu melhor momento justamente após a entrada do alemão. Slot percebeu bem que derby não era jogo para um camisa 10 puro de início.
Dois camisas 9, uma vaga
Se o meio-campo já é um desafio, o ataque não fica atrás. Ekitike virou xodó da torcida e não sente o peso de ter Isak, contratado por 125 milhões de libras, como concorrente. Até agora, vem respondendo com gols e personalidade. Slot elogiou: “Estou impressionado, mas já sabia o que compramos. Todo time top tem dois camisas 9, e nós também”.
Mas e quando Isak estiver 100%? A disputa direta por uma vaga vai ser inevitável. Dois atacantes de nível altíssimo, ambos com fome de protagonismo, pedindo minutos — um problemão bom de ter, mas ainda assim um problema. Slot vai precisar de mão firme e comunicação para manter todos motivados e o elenco unido.
A evolução que Slot quer — e precisa para o Liverpool
Desde que chegou, Slot vem falando em “evolução” do time. E dá para ver isso nos detalhes: um meio mais dinâmico, liberdade para Gravenberch, maior rotação de elenco e dois centroavantes de elite. O desafio é que essas mudanças não tirem o Liverpool do trilho das vitórias. A torcida está empolgada com o 100%, mas também sabe que jogos decididos no fim não são eternamente sustentáveis.
O técnico holandês tem agora seu maior teste de equilíbrio: usar o elenco com inteligência, manter a intensidade dos titulares e dar espaço aos reforços sem comprometer o rendimento. Se conseguir, o Liverpool pode não só repetir a temporada passada, mas até dar um passo além. Caso contrário, as “mexidas” podem se tornar uma dor de cabeça maior do que se imagina.