Loteria da NBA: 42 anos de tanking, reformas falhas e mais
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Loteria da NBA: 42 anos de tanking, reformas falhas e o que vem pela frente

Neste domingo, a NBA realiza a 42ª edição da Loteria do Draft. O evento, criado para promover equilíbrio competitivo, tornou-se um dos capítulos mais polêmicos da liga. 

Quatro décadas depois, o tanking continua vivo, as reformas geram consequências inesperadas e uma nova mudança já está no horizonte para 2027. A história da loteria revela como a NBA luta constantemente contra si mesma: tenta impedir que times percam de propósito, mas acaba criando incentivos que perpetuam o problema.

Desde 1985, o sistema evoluiu várias vezes. Nenhuma versão resolveu completamente o dilema central: dar aos piores times chance real de se reconstruir sem transformar a temporada regular em um festival de derrotas intencionais. O resultado é um ciclo vicioso que compromete a integridade da competição.

Antes da loteria: coin flip e o nascimento do tanking

Até 1984, o pior time de cada conferência disputava no cara ou coroa o direito de escolher em primeiro lugar. O sistema era simples, mas falho. Em 1984, o Houston Rockets terminou a temporada com uma sequência suspeita de derrotas, garantindo a primeira escolha e selecionando Hakeem Olajuwon após já ter pego Ralph Sampson no ano anterior. A polêmica foi enorme. Executivos de outros times, como Norm Sonju do Dallas Mavericks, acusaram abertamente o Rockets de tanking. A liga decidiu agir.

Em 1985, nasceu a primeira loteria. Sete times sem playoffs tinham chances iguais. A bola saiu para o New York Knicks, que escolheu Patrick Ewing. Até hoje, a loteria de 1985 é cercada de teorias conspiratórias sobre envelopes congelados ou amassados. Nada foi provado, mas a desconfiança já estava instalada.

Reformas sucessivas e o equilíbrio impossível

Nos anos seguintes, a NBA ajustou o formato várias vezes. Em 1990, introduziu pesos baseados em recorde. O pior time ganhava mais chances, mas não garantia nada. A loteria se expandiu com novas franquias e, em 1994, o sistema de 14 bolas (250 combinações para o pior time) se consolidou por 25 anos.

Esse período trouxe momentos icônicos, como o Orlando Magic vencendo duas loterias seguidas (Shaquille O’Neal e Penny Hardaway). A revolta foi geral. Times pequenos reclamavam que o sistema beneficiava azarões em vez de reconstruções consistentes. A liga respondeu com ajustes, mas o problema persistia: times ainda encontravam maneiras de perder.

A era “The Process” e o tanking institucionalizado

Tudo mudou em 2013, quando Sam Hinkie assumiu o Philadelphia 76ers. Sob o comando de Hinkie, o time trocou veteranos por picks, draftou jogadores lesionados que não jogariam imediatamente e aceitou anos de derrotas dolorosas. “The Process” foi o primeiro tanking declaradamente estratégico e de longo prazo. A liga tentou reagir, mas a primeira proposta de reforma em 2014 foi rejeitada.

Em 2017, a NBA conseguiu aprovar uma loteria “achatada”: os três piores times teriam 14% de chance cada na primeira escolha. A ideia era reduzir o incentivo extremo de ser o pior time. Na prática, o efeito foi oposto. Times medianos e até candidatos ao Play-In viram valor em perder para subir algumas posições. O tanking se espalhou como nunca.

A temporada 2025/26: tanking em escala industrial

Esta temporada foi uma das piores da história nesse aspecto. Nove dos dez times que ficaram de fora dos playoffs praticaram algum nível de tanking. A qualidade da temporada regular despencou. A liga multou Utah Jazz e Indiana Pacers, e Adam Silver deixou claro que mais medidas viriam.

A proposta atual, que deve valer a partir de 2027, é mais agressiva: loteria com 16 times, bolas diferenciadas (pior time com 8,1% de chance na primeira escolha), proibição de escolher em primeiro lugar em anos consecutivos, limite no top 5 por três anos seguidos e maior poder punitivo para o comissário. 

Por que as reformas nunca funcionam completamente?

A história mostra um padrão claro. Toda vez que a liga tenta coibir o tanking, cria novos incentivos. Achatar as odds ajuda os piores times a não caírem tanto, mas valoriza demais posições medianas da loteria. Proibir escolhas consecutivas em primeiro lugar parece justo, mas pode desestimular reconstruções honestas. O equilíbrio perfeito é ilusório porque o draft é, por natureza, um sistema de alocação de talento que afeta o futuro de franquias por uma década.

O grande problema não é só a loteria. É o enfraquecimento da free agency após sucessivas CBAs favoráveis aos donos. Com estrelas renovando com mais facilidade, o draft se tornou o principal caminho para montar times vencedores. Isso aumenta a tentação de tanking.

O que o futuro reserva?

A NBA caminha para mais mudanças radicais. Ideias como o “wheel” (ordem aleatória total) ou até rookie free agency ganham força em bastidores. O comissário Adam Silver sabe que o produto da temporada regular está comprometido. Se as próximas reformas não funcionarem, o debate deve se intensificar.

Enquanto isso, a loteria de 2026 será mais uma edição carregada de tensão. Times como Wizards, Jazz e Nets torcem para as bolinhas caírem a seu favor. Mas a lição de 42 anos é clara: enquanto existir um draft com ordem reversa, sempre haverá quem tente manipular o sistema. 

A loteria não é apenas um evento. É o espelho das contradições da liga: quer equilíbrio, mas pune quem perde; quer espetáculo, mas tolera temporadas inteiras de mau basquete. Enquanto não resolver essa equação, o tanking continuará sendo parte indesejada, mas inevitável, da NBA.

Foto: NBA.