Durante décadas, vestir a camisa da França significou conviver com nomes que marcaram gerações. De Just Fontaine a Michel Platini, passando por Jean-Pierre Papin, Thierry Henry e Olivier Giroud, o país construiu uma tradição ofensiva que ajudou a transformar a seleção em uma das maiores do futebol mundial.
Mas agora existe um novo dono do topo.
Com os gols marcados na estreia da França na Copa do Mundo de 2026 contra Senegal, Kylian Mbappe entrou definitivamente para a história ao alcançar 58 gols pela seleção principal e superar Olivier Giroud como maior artilheiro da história dos Bleus. O feito impressiona ainda mais quando observado em perspectiva: Mbappe chegou ao recorde com apenas 27 anos e antes mesmo de completar 100 partidas internacionais.
Mais do que quebrar uma marca histórica, o atacante mostra que sua carreira internacional parece estar apenas entrando na fase mais dominante.
De promessa precoce ao líder da seleção francesa
Quando Mbappe estreou pela França em 2017, ainda era visto como um talento em explosão que começava a ganhar espaço no cenário europeu. O primeiro gol veio poucos meses depois, justamente em uma partida das Eliminatórias da Copa do Mundo contra a Holanda.
Naquele mesmo período, o atacante encerrava sua ascensão meteórica no Monaco e preparava a transferência que mudaria sua carreira para sempre: a chegada ao Paris Saint-Germain.
Mas o impacto na seleção foi ainda mais rápido.
Em 2018, com apenas 19 anos, Mbappe virou protagonista na campanha do título mundial da França na Rússia. Sua velocidade, personalidade e capacidade de decidir jogos grandes chamaram atenção do planeta.
O torneio terminou com um marco histórico: Mbappe se tornou o jogador francês mais jovem a marcar em uma Copa do Mundo e entrou para um grupo extremamente restrito ao se tornar apenas o segundo adolescente da história a marcar em uma final de Mundial, repetindo um feito alcançado apenas por Pelé.

A Copa do Mundo virou o palco preferido de Mbappe
Se em 2018 ele apareceu para o mundo, em 2022 assumiu definitivamente o papel de principal referência da França.
Na Copa disputada no Catar, Mbappe produziu uma das campanhas individuais mais fortes da história recente dos Mundiais. O atacante terminou como artilheiro da competição e protagonizou um dos momentos mais marcantes do futebol internacional.
Mesmo com a derrota para a Argentina na decisão, seu hat-trick na final entrou para os livros de história. Até então, apenas Geoff Hurst havia conseguido marcar três gols em uma decisão de Copa do Mundo.
Agora, em 2026, o camisa 10 continua empilhando números.
Com 14 gols em Copas do Mundo, Mbappe já aparece muito próximo do recorde absoluto do alemão Miroslav Klose, que encerrou a carreira com 16.
Isso ajuda a explicar por que muitos ex-jogadores e analistas acreditam que o francês ainda não atingiu seu auge competitivo.

O projeto Mbappe começou muito antes da fama
Apesar da explosão meteórica, quem acompanha a trajetória do atacante sabe que nada aconteceu por acaso.
O chamado “Projeto Mbappe” virou expressão popular justamente porque existiu um planejamento familiar extremamente estruturado desde os primeiros anos de vida.
Nascido em Bondy, nos arredores de Paris, em 1998, poucos meses depois do primeiro título mundial da França, Mbappe cresceu em um ambiente totalmente ligado ao esporte.
Seu pai, Wilfried Mbappe, era treinador de futebol. Sua mãe, Fayza Lamari, construiu carreira como atleta profissional de handebol.
A rotina era quase totalmente dedicada ao desenvolvimento esportivo.
Na infância, o jovem Kylian dividia o tempo entre escola, treinos e estudo do jogo. Há relatos de que ele aprendeu o hino francês ainda muito pequeno porque sonhava cantar pela seleção principal.
Também desenvolveu cedo uma ambição incomum para a idade. Enquanto outros jovens observavam apenas o presente, Mbappe sempre falava em objetivos de longo prazo.

Da confiança extrema ao papel de maior referência da França
Essa autoconfiança sempre acompanhou sua carreira.
Ainda na época do Monaco, existe uma história que ilustra bem sua mentalidade. Em uma atividade interna, jogadores precisavam criar capas fictícias de revista com seus objetivos pessoais.
Enquanto muitos escolheram revistas esportivas tradicionais, Mbappe escolheu a revista Time.
O título imaginado para sua própria capa era simples: “El Maestro”.
Na época, muitos interpretaram como excesso de confiança. Alguns anos depois, a cena ganhou outro significado quando ele realmente apareceu estampando capas internacionais após vencer a Copa do Mundo.
Hoje, além dos gols, Mbappe carrega uma responsabilidade diferente.
Desde que assumiu a braçadeira de capitão da França, passou a ser cobrado não apenas pelo desempenho individual, mas também pela liderança.

Ainda faltam objetivos importantes — como conquistar a Liga dos Campeões e vencer uma Bola de Ouro.
Mas olhando para os números atuais, o recorde de gols parece apenas mais uma etapa.
O Projeto Mbappe ainda está em andamento.
E para a França, isso provavelmente significa que novas marcas históricas ainda estão por vir.
Foto: GettyImages