O Mirassol precisa reencontrar uma versão de si mesmo que fez história no último Campeonato Brasileiro.
Quarto colocado em 2025, o clube do interior paulista foi uma das grandes surpresas da competição. Tinha uma identidade clara: intensidade, organização, pressão após a perda da bola e muita força como mandante. Um ano depois, porém, a realidade é bem diferente.
Após 24 rodadas, embora tenha disputado 23 partidas, o Mirassol é o 17º colocado, com 24 pontos. Está apenas um ponto atrás do Internacional, primeiro time fora da zona de rebaixamento, e não vence há sete jogos.
E o calendário não ajuda. No domingo (30), às 18h30, o time recebe o líder Palmeiras, que soma 51 pontos, no Maião. Na quarta-feira (2), às 19h30, viaja ao Maracanã para enfrentar o Flamengo, segundo colocado com 45 pontos, em jogo atrasado da quarta rodada.
Dois dos adversários mais difíceis possíveis justamente no momento em que o Mirassol mais precisa pontuar.
O Mirassol perdeu sua principal característica
A queda de rendimento não pode ser explicada apenas pela dificuldade de repetir uma campanha histórica.O calendário mudou completamente.
Em 2025, o Mirassol tinha uma rotina muito mais confortável. Disputava basicamente uma partida por semana, o que permitia a Rafael Guanaes trabalhar durante mais dias e manter a equipe fisicamente preparada para executar um jogo baseado em intensidade.
Em 2026, o cenário foi outro. Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores colocaram o elenco em uma sequência pesada de partidas e viagens. Em determinado momento, foram nove jogos em apenas 29 dias.
O desgaste apareceu. E afetou justamente o que tornava o Mirassol competitivo.
A pressão após a perda perdeu força, a equipe passou a recuperar menos bolas no campo de ataque e os adversários encontraram mais espaço para construir. Sem a mesma intensidade, o sistema defensivo também ficou mais exposto.
As mudanças no elenco pesaram, naturalmente. Jogadores importantes da campanha anterior deixaram o clube e a reposição não manteve exatamente o mesmo nível de funcionamento coletivo.
O resultado foi um Mirassol menos agressivo e, consequentemente, menos difícil de enfrentar.
A semana livre chega em boa hora
Agora, o contexto começa a mudar. Depois das eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores, o Mirassol terá o Brasileirão como única competição. Pela primeira vez em muito tempo, Rafael Guanaes ganhou uma semana inteira para trabalhar antes de uma partida.
É pouco diante de uma temporada inteira, mas pode fazer diferença. Mais do que recuperar fisicamente o elenco, o treinador precisa aproveitar o período para reconstruir comportamentos que ficaram pelo caminho: pressão coordenada, compactação e velocidade na reação após a perda.
Não se trata de simplesmente tentar repetir 2025. A equipe é outra, os adversários conhecem melhor suas características e o nível de exigência aumentou. Mas os princípios que fizeram o Mirassol chegar ao quarto lugar continuam sendo um bom ponto de partida.
O Maião também precisa voltar a pesar
A queda como mandante é outro sinal importante. Em 12 jogos em casa pelo Brasileirão de 2026, o Mirassol tem cinco vitórias, três empates e quatro derrotas. O desempenho coloca a equipe apenas na 14ª posição entre os mandantes.
No ano passado, era uma história completamente diferente. O Mirassol foi o quinto melhor mandante do campeonato, com 43 pontos em 19 partidas. Não perdeu no Maião: foram 12 vitórias e sete empates.
Isso não aconteceu por acaso. O estádio fazia parte da estratégia. A equipe entrava em campo com intensidade, pressionava o adversário e conseguia transformar o ambiente em vantagem competitiva.
Agora, em uma briga contra o rebaixamento, recuperar esse fator é fundamental. E o Palmeiras será o primeiro grande teste.
Palmeiras e Flamengo chegam no pior momento possível
O líder do Brasileirão chega ao Maião com 51 pontos. No primeiro turno, venceu o Mirassol por 1 a 0.
Poucos dias depois, o desafio será ainda maior. O Flamengo, segundo colocado com 45 pontos, espera o Mirassol no Maracanã, em uma partida atrasada da quarta rodada. No encontro anterior entre as equipes, os cariocas venceram por 5 a 1.
Os resultados anteriores, porém, não determinam o que acontecerá agora. Na situação atual, o Mirassol precisa olhar para esses jogos de outra maneira. Não será necessário dominar Palmeiras ou Flamengo durante 90 minutos. Mas será fundamental recuperar competitividade.
Contra adversários desse nível, qualquer queda de intensidade pode ser fatal.
Por outro lado, se o Mirassol conseguir voltar a pressionar, fechar espaços e dificultar a saída de bola, poderá transformar dois jogos extremamente complicados em oportunidades para somar pontos importantes.
É justamente o tipo de postura que marcou a equipe de 2025.
A prioridade mudou
O Mirassol não precisa mais pensar em repetir o quarto lugar do ano passado. A prioridade é muito mais simples e urgente: permanecer na Série A. Com 24 pontos e apenas um de vantagem sobre o primeiro time fora do Z-4, a margem de erro é pequena.
Por isso, o momento exige menos invenção e mais recuperação da identidade. Rafael Guanaes precisa fazer o time voltar a competir como competia. Pressionar melhor, reduzir espaços, recuperar a intensidade e, principalmente, voltar a fazer do Maião um problema para os adversários.
O Mirassol de 2025 não vai voltar exatamente da mesma forma. O elenco mudou, a temporada é diferente e a pressão agora é muito maior.
Mas parte daquela equipe ainda pode ser recuperada. Antes de enfrentar Palmeiras e Flamengo, o Mirassol precisa reencontrar aquilo que o tornou uma das grandes surpresas do futebol brasileiro. Não para repetir 2025, mas para sobreviver a 2026.
Foto: Pedro Zacchi/Agência Mirassol



