Santos x Mirassol, Brasileirão 2026. Foto: Raul Baretta/Santos FC.
Futebol Brasileirão

Santos faz pouco, e empate contra o Mirassol mostra mais fragilidades do que qualidades

O empate por 1 a 1 com o Mirassol, no último domingo (23), na Vila Belmiro, pode até ser defendido por Cuca como uma “grande partida” do Santos. E, olhando exclusivamente para alguns números, o treinador não está completamente errado. O Peixe teve mais a bola, ocupou o campo ofensivo durante boa parte do jogo e criou situações suficientes para vencer. O problema é que futebol não premia domínio territorial, e sim quem consegue transformar esse domínio em gols.

E é justamente aí que o Santos volta a apresentar os mesmos problemas que o acompanham durante boa parte da temporada, principalmente no Brasileirão.

Contra um adversário direto na luta contra o rebaixamento, o Peixe teve a oportunidade de fazer aquilo que uma equipe ameaçada pelo Z-4 mais precisa: aproveitar o confronto em casa para abrir distância de um rival. Não conseguiu. O 1 a 1 manteve o Santos na 14ª colocação, agora com 26 pontos, apenas dois acima do próprio Mirassol, que abre a zona de rebaixamento, com 24.

O resultado deixa a sensação de que o Santos desperdiçou uma oportunidade enorme. Uma vitória teria levado o time aos 28 pontos e aberto cinco de vantagem para o Z-4. Em vez disso, o Peixe continua olhando para baixo e dando margem para que a briga contra a queda permaneça como uma preocupação real.

O Santos teve o controle, mas não teve eficiência

Neymar no jogo do Santos contra o Mirassol
Foto: Raul Baretta/Santos F.C.

É importante não cair no erro de dizer que o Santos simplesmente fez uma partida ruim. Não foi isso.

O time teve mais posse e passou boa parte do jogo no campo do Mirassol. Na primeira etapa, mesmo saindo atrás, já havia criado oportunidades para marcar. Depois do intervalo, aumentou a pressão e chegou ao empate com Álvaro Barreal, em uma bela finalização após passe de Neymar.

O problema é que a equipe parece precisar de oportunidades demais para fazer aquilo que deveria ser básico: colocar a bola para dentro.

Neymar participou diretamente dos principais momentos ofensivos do Santos. Foi dele o passe para Barreal no gol de empate e também partiram de seus pés outras boas jogadas. O camisa 10, inclusive, teve uma chance clara para virar a partida, mas não conseguiu concluir. Rollheiser também desperdiçou uma oportunidade depois.

E esse talvez seja o ponto mais preocupante: o Santos conseguiu criar, mas não conseguiu matar o jogo.

Em uma equipe que está brigando na parte de baixo da tabela, isso deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a ser um problema competitivo. Você pode jogar melhor que o adversário, controlar a partida e criar mais. Se não transformar isso em três pontos, todo o trabalho acaba sendo praticamente desperdiçado.

O Mirassol precisou de muito menos para marcar. Aos 35 minutos, Eduardo aproveitou uma falha na defesa santista e bateu colocado de fora da área para abrir o placar.

O contraste é significativo: o Santos precisou insistir, circular a bola e encontrar Neymar para finalmente empatar. O Mirassol encontrou um erro e saiu na frente.

Nem a vantagem numérica foi suficiente

Se existia uma situação capaz de colocar o Santos em vantagem definitiva, ela apareceu no segundo tempo.

Wallisson, do Mirassol, foi expulso após falta em Neymar, deixando os visitantes com um jogador a menos. O Santos passou a ter mais espaço e superioridade numérica justamente no momento em que precisava transformar pressão em resultado. E não conseguiu.

Essa é a parte que mais pesa na avaliação da partida. O empate poderia ser encarado de outra maneira se o Mirassol tivesse dominado o jogo, criado diversas chances e obrigado o Santos a se defender durante os 90 minutos. Não foi o caso.

O Peixe teve controle, teve território, teve Neymar, teve oportunidades e ainda teve um jogador a mais durante a reta final. Mesmo assim, ficou no 1 a 1.

O Mirassol, por sua vez, fez aquilo que precisava fazer depois da expulsão: fechou os espaços, protegeu a área e segurou o resultado. Walter também teve participação importante para garantir o ponto dos visitantes.

É aí que o empate passa a ter pesos completamente diferentes para os dois lados. Para o Mirassol, somar um ponto na Vila, mesmo depois de ficar com dez jogadores, é um resultado valioso. Para o Santos, é uma oportunidade perdida.

Neymar ainda é a melhor notícia, mas isso também virou um problema

Outro aspecto que chama atenção é o tamanho da dependência do Santos em relação a Neymar.

O camisa 10 não fez uma partida ruim. Pelo contrário. Foi um dos jogadores mais participativos do Peixe e teve influência direta no gol. O problema é que, quando o Santos precisa criar alguma coisa diferente, quase sempre a solução passa por ele.

Neymar encontra Barreal, Neymar conduz, Neymar tenta o drible, Neymar finaliza. E, quando ele não consegue resolver, o time parece ficar sem uma alternativa realmente confiável para transformar volume em gol.

Isso não significa que o Santos seja ruim por ter Neymar. Muito pelo contrário. Ter um jogador capaz de produzir tantas situações ofensivas é um privilégio. A questão é que um time que luta contra o rebaixamento não pode depender de lampejos individuais para sobreviver.

O próprio desempenho de Barreal reforça isso. O argentino foi outro dos destaques do Santos e marcou o gol que evitou uma derrota ainda mais pesada no contexto da tabela.

Mas ainda falta consistência coletiva para que essas boas atuações individuais deixem de parecer episódios isolados.

E esse é justamente o maior problema do Santos neste momento: existe futebol suficiente para competir, mas não existe regularidade suficiente para transformar esse futebol em pontos.

O cenário poderia ser muito mais confortável. Antes da rodada, o Peixe estava tentando aproveitar uma sequência positiva para se afastar da zona de rebaixamento. O próprio clube havia adotado uma estratégia de preservar Neymar, Gabigol e outros titulares na Sul-Americana justamente para chegar mais inteiro ao confronto contra o Mirassol.

No fim, todo esse planejamento resultou em apenas um ponto. E a tabela não espera. O Santos agora continua apenas dois pontos à frente do Z-4 e terá pela frente uma sequência ainda mais pesada, incluindo o confronto com o Palmeiras pelas quartas de final da Copa do Brasil e, depois, um duelo com o Corinthians pelo Brasileirão.

Por isso, talvez a melhor leitura do empate seja justamente a mais incômoda: o Santos não mostrou que não consegue jogar. Mostrou que ainda não consegue transformar aquilo que joga em resultado.

E, quando a temporada começa a entrar em sua reta decisiva, essa diferença pode ser fatal.

O Peixe fez o suficiente para não perder. Teve momentos para vencer. Mas, diante de um concorrente direto, em casa e com superioridade numérica, deveria ter feito muito mais.

No fim das contas, o empate contra o Mirassol deixa menos motivos para comemorar do que problemas para resolver.

Créditos da foto de capa: Raul Baretta/Santos FC