O conto de fadas vivido pelo Mirassol na Série A de 2025 ainda está fresco na memória do torcedor. Um time sem grandes holofotes, recheado de nomes pouco badalados, que simplesmente encaixou e bonito. Resultado? Uma campanha surpreendente, consistente e, no fim das contas, histórica: vaga direta para a Copa Libertadores. Sim, o Mirassol na Liberta. Quem diria?
Mas como todo bom roteiro do futebol brasileiro, a parte mais difícil não é chegar… é se manter.
E é exatamente aí que começa o drama do Mirassol em 2026.
Depois da temporada mágica, o clube viu seu elenco ser praticamente desmontado pelo mercado. E não tem muito mistério: quando um time pequeno ou médio vai bem, vira vitrine. Foi o que aconteceu. Jogadores que eram praticamente desconhecidos passaram a chamar atenção de clubes maiores, com mais dinheiro, mais estrutura e, claro, propostas difíceis de recusar.
As saídas foram pesadas e atingiram todos os setores do time.
Chico da Costa, referência no ataque e peça importante na campanha histórica, deixou o clube. No meio, Danielzinho, cérebro criativo da equipe, acertou com o São Paulo. Na defesa, Jemmes seguiu para o Fluminense, enquanto Lucas Ramon, lateral confiável e participativo, também se transferiu para o tricolor paulista. Em resumo: o Mirassol perdeu sua base.
E quando você perde peças-chave no ataque, no meio e na defesa… não existe substituição simples.
A diretoria, fiel ao seu modelo, foi ao mercado sem fazer loucuras. A ideia seguiu a mesma: encontrar nomes com potencial, custo acessível e margem de crescimento. Só que dessa vez, o desafio é maior, porque não se trata apenas de montar um time competitivo, mas de reconstruir uma identidade que já estava pronta.
Entre os nomes que chegaram, o destaque vai para o zagueiro William Machado, contratado justamente para suprir a saída de Jemmes. No meio-campo, uma das principais apostas é Gabriel Pires, jogador experiente e com rodagem internacional, mas que chega cercado de desconfiança. Isso porque, no recorte recente, o meia não conseguiu se firmar e acumulou atuações abaixo do esperado, o que faz com que sua contratação carregue um peso maior: o de precisar dar uma resposta imediata dentro de campo.
Ou seja, não basta apenas compor elenco, Gabriel Pires chega com a responsabilidade de tentar devolver ao time parte da criatividade perdida com a saída de Danielzinho. E, pelo histórico recente, isso ainda é uma incógnita, sem ficar em cima do mudo, dá para dizer que há mais chances de problema, do que surpresa positiva, mas…
Até aqui, o que se vê é um elenco em reconstrução, que ainda não encontrou identidade. As peças chegaram, mas o encaixe… esse ainda está em andamento. E, sendo bem direto, o nível técnico caiu. Não é uma crítica exagerada, é só olhar o campo. Dá para lembrar de Lucas Mugni, que estava no Ceará, teve seus momentos no Bahia e no Sport, sem esquecer do Flamengo, Galeano que fez uma boa campanha pelo Vozão também no ano passado.
E a chegada de Tiquinho Soares, que chegou em baixa também, nesta ideia de “recuperar” seu futebol, voltar a ser importante, algo que tem sido bem difícil.
Um Mirassol novo, mas com velhos problemas
Rafael Guanaes, um dos grandes responsáveis pelo sucesso do Mirassol em 2025, agora vive um cenário completamente diferente. Antes, ele tinha um grupo ajustado, confiante e entrosado. Agora, precisa praticamente começar do zero e com menos qualidade individual à disposição. E não é exagero falar em desafio enorme.
O treinador precisa reconstruir o time ao mesmo tempo em que compete. Precisa dar padrão, confiança e organização para um grupo que ainda está se conhecendo. E, no futebol brasileiro, tempo é um luxo que quase ninguém tem.
O Mirassol perdeu liderança dentro de campo, perdeu referências técnicas e, talvez o mais importante, perdeu aquela naturalidade de jogo que fazia tudo parecer mais simples do que realmente era.
Hoje, o time parece travado em muitos momentos. Falta criatividade, falta agressividade ofensiva e, em alguns jogos, falta até confiança. Aquela equipe leve, que jogava sem medo em 2025, deu lugar a um time mais cauteloso e, por vezes, previsível.
Libertadores no radar e pressão crescente
Como se a reconstrução já não fosse complicada o suficiente, o Mirassol ainda precisa lidar com um detalhe nada pequeno: a disputa da Copa Libertadores. E isso muda tudo.
A competição exige um nível de concentração, intensidade e qualidade que o elenco atual ainda não demonstrou ter de forma consistente. Além disso, o calendário apertado aumenta o risco de desgaste físico e mental, algo perigoso para um grupo que ainda está em formação.
Por outro lado, também existe uma oportunidade escondida nesse cenário.
Se conseguir encontrar rapidamente um padrão de jogo e extrair o máximo das novas peças, Rafael Guanaes pode novamente surpreender. O clube paulista já provou que sabe trabalhar bem com recursos limitados, a questão agora é repetir isso em um contexto mais exigente.
No fim das contas, o Mirassol de 2026 é quase um novo time. E isso exige tempo, paciência e ajustes rápidos.
A torcida, que ainda vive o embalo da última temporada, entende que a realidade mudou. A expectativa continua, mas agora vem acompanhada de um pé no chão maior.
Porque no futebol brasileiro, subir é difícil… mas se manter no topo é um desafio ainda mais cruel.
Foto: Marco Miatelo/AGIF