Cinco anos depois da mudança de controle, o Newcastle ainda tenta transformar ambição em força real dentro da Premier League. Desde a compra liderada por investidores sauditas, em 2021, o clube cresceu em receita, voltou à Champions League e encerrou uma longa espera por um grande título nacional. Ainda assim, o avanço não aconteceu na velocidade que muitos imaginavam no começo do projeto.
Na época da aquisição, acreditava-se que o Newcastle pudesse repetir o caminho do Manchester City e mudar rapidamente a hierarquia do futebol inglês. Porém, o cenário atual é diferente daquele encontrado pelo City em 2008. Com regras financeiras mais rígidas, limitações sobre gastos e maior controle sobre receitas ligadas aos proprietários, o clube do norte da Inglaterra precisa construir seu crescimento enquanto também vende jogadores importantes para continuar investindo.
Regras financeiras mudaram o ritmo do projeto do Newcastle
A comparação com o Manchester City surgiu praticamente de forma imediata após a compra do Newcastle. O clube de Manchester levou pouco mais de três anos e sete meses para conquistar sua primeira Premier League depois da chegada do Abu Dhabi United Group. Por isso, parte dos dirigentes da elite inglesa temia que um novo concorrente com enorme poder financeiro aparecesse rapidamente.
O Newcastle, inclusive, nunca escondeu o tamanho de sua ambição. Amanda Staveley, uma das principais figuras da mudança de controle, afirmou no início do projeto que o objetivo era conquistar a Premier League dentro de dez anos. Mais recentemente, o presidente Yasir Al-Rumayyan declarou que o clube pretende ser o número um, enquanto o diretor-executivo David Hopkinson colocou como meta estar entre os melhores do mundo até 2030.
Porém, dinheiro disponível não significa liberdade total para gastar. As regras de lucro e sustentabilidade da Premier League, além das novas limitações relacionadas ao custo do elenco, diminuíram a possibilidade de um crescimento baseado apenas em grandes investimentos no mercado.
Também houve preocupação entre outros clubes com a possibilidade de o Newcastle aumentar suas receitas por meio de contratos muito lucrativos com empresas sauditas. Poucos dias após a aquisição, um dirigente entrou em contato com a Premier League em nome de 11 clubes para solicitar uma votação sobre uma proibição temporária desse tipo de acordo. A movimentação ajudou a abrir caminho para as regras sobre transações entre partes associadas, introduzidas em dezembro de 2021. Desta forma, o Newcastle passou a enfrentar um ambiente muito mais controlado do que aquele encontrado pelo Manchester City no começo de sua transformação.
Ainda assim, o crescimento financeiro foi considerável. A receita do clube saiu de 140 milhões de libras, em 2021, para 335,3 milhões de libras, em 2025. O problema é que a diferença para as equipes mais ricas da Inglaterra continua grande.
Mesmo aparecendo apenas duas posições abaixo do Chelsea na tabela de receitas da Premier League, o Newcastle arrecadou 155 milhões de libras a menos do que o clube londrino nas demonstrações financeiras mais recentes. Essa distância ajuda a explicar por que os Blues conseguem realizar operações tão grandes no mercado, enquanto o Newcastle precisa equilibrar cada movimento com muito mais cuidado.
Saídas importantes aumentam a pressão do Newcastle dentro de campo
A necessidade de respeitar as regras financeiras também começou a afetar diretamente o elenco. Em menos de 12 meses, o Newcastle perdeu três jogadores importantes, diminuindo a força da equipe em um momento no qual o clube ainda tenta se firmar entre os principais nomes da Premier League.
Alexander Isak deixou o time rumo ao Liverpool em uma transferência de 125 milhões de libras. Depois, Anthony Gordon e Sandro Tonali foram vendidos para Barcelona e Tottenham, respectivamente. As negociações tiveram grande importância para permitir que o clube voltasse ao mercado, principalmente após uma violação dos regulamentos de sustentabilidade financeira da Uefa.
O Newcastle entrou em um acordo de três anos com a entidade europeia e precisou aumentar sua capacidade de investimento. Desta forma, vender jogadores importantes deixou de ser apenas uma escolha esportiva e passou a ser uma parte necessária da estratégia.
Sendo assim, o próximo nome que gera preocupação é Bruno Guimarães. O clube não deseja perder o capitão, porém o futuro do brasileiro se tornou incerto depois que ele indicou interesse em defender o Arsenal. Caso uma nova saída de peso aconteça, a reconstrução do elenco ficará ainda mais complicada.
Vale destacar que o cenário pesa ainda mais porque a última temporada ficou abaixo do esperado. O Newcastle terminou a Premier League na 12ª posição e não conseguiu uma vaga nas competições europeias. Além disso, o investimento líquido superior a 100 milhões de libras realizado no mercado anterior não trouxe o retorno necessário, com Malick Thiaw aparecendo como o único reforço considerado um sucesso indiscutível.
Agora, o clube parece ter adotado uma postura diferente. As contratações realizadas neste verão foram todas de jogadores com 20 anos ou menos: o goleiro Ewen Jaouen, o meio-campista Sean Steur e o ponta Bazoumana Touré. Os três chegaram do futebol europeu e são vistos como atletas de grande potencial. Porém, são jogadores que ainda precisam de tempo para se desenvolver. Ao mesmo tempo, o Newcastle também precisa avançar fora de campo, com planos para um novo centro de treinamento e discussões sobre a ampliação do St James’ Park ou a construção de um novo estádio.
O projeto continua ambicioso, mas entrou em uma fase mais difícil. Para diminuir a diferença para os clubes mais ricos, o Newcastle precisa aumentar suas receitas, acertar nas contratações e evitar novos erros esportivos. Enquanto isso, o time tenta permanecer competitivo mesmo após perder peças importantes.
A transformação não parou, porém está acontecendo em um ritmo bem mais lento do que muitos imaginavam em 2021. No cenário atual da Premier League, o Newcastle não depende apenas do tamanho de seus proprietários. O clube precisa construir uma estrutura capaz de sustentar suas ambições sem ultrapassar os limites financeiros que hoje controlam o futebol inglês.
Créditos da foto de capa: Getty Images.


