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Futebol Copa do Mundo

Olise escolheu a França, rejeitou a Inglaterra e hoje é um dos protagonistas da Copa do Mundo

Michael Olise nasceu em Londres, foi formado inteiramente no futebol inglês, brilhou na Premier League e hoje defende um gigante da Alemanha. Pelo roteiro, seria natural imaginá-lo vestindo a camisa da Inglaterra. Mas a história tomou um caminho completamente diferente. Graças à influência da família, especialmente da mãe, e a um trabalho de bastidores da Federação Francesa, Olise acabou escolhendo representar a França, decisão que hoje rende frutos dentro da Copa do Mundo.

O meia-atacante é uma das grandes sensações do torneio e simboliza uma vitória importante dos franceses fora das quatro linhas. Afinal, convencer um talento criado no futebol inglês a defender os Bleus não é algo que acontece todos os os dias. Mais curioso ainda é que Olise se tornou o primeiro jogador da história da seleção francesa a chegar à equipe principal sem nunca ter atuado por um clube do país.

Se hoje ele faz a torcida francesa sorrir, houve muito trabalho, planejamento e até insistência familiar para que isso acontecesse.

Uma carreira construída na Inglaterra

A ligação de Michael Olise com a Inglaterra sempre foi muito forte.

Nascido em Londres, ele passou pelas categorias de base de gigantes como Arsenal, Manchester City e Chelsea antes de iniciar sua trajetória profissional no Reading. O bom desempenho chamou a atenção do Crystal Palace, onde finalmente ganhou espaço na Premier League e passou a ser considerado um dos jogadores mais talentosos de sua geração.

As atuações chamaram atenção de diversos clubes europeus, até que o Bayern de Munique decidiu investir em sua contratação. A mudança para a Bundesliga representou mais um passo importante em sua evolução, mas sua história com seleções ainda estava longe de ser definida.

Na teoria, a Inglaterra parecia ter prioridade absoluta. Na prática, porém, o coração apontava para outro caminho.

A mãe foi decisiva para a escolha

Olise tinha várias possibilidades quando o assunto era seleção.

Além da Inglaterra, onde nasceu, ele também poderia defender Argélia, país de origem de sua mãe, ou Nigéria, terra natal de seu pai.

No entanto, foi justamente sua mãe quem mudou completamente o rumo dessa história.

Ela viveu na França, conquistou dupla nacionalidade e sempre alimentou o desejo de ver o filho defendendo a seleção francesa. Desde pequeno, Olise passava temporadas no país durante as férias, criando uma ligação cultural que acabaria pesando anos depois.

O próprio jogador explicou que sua conexão com a França nasceu por causa da família.

Segundo ele, a mãe sempre manteve viva essa relação com o país e esse foi um dos principais motivos para optar pelos Bleus quando chegou o momento de tomar uma decisão definitiva sobre seu futuro internacional.

Um vídeo mudou tudo

A escolha de Olise não aconteceu apenas por vontade do jogador.

Houve também um importante trabalho de observação realizado pela Federação Francesa.

Em 2019, sua mãe decidiu enviar vídeos com os melhores momentos do filho ainda atuando pelo Reading para Jean-Luc Vannuchi, treinador da seleção francesa sub-18 naquele período.

A iniciativa acabou sendo um verdadeiro divisor de águas.

Vannuchi ficou impressionado com a qualidade técnica do jovem meia e rapidamente iniciou o processo para integrá-lo às categorias de base da França.

O treinador, que também colaborava com a comissão técnica da seleção principal, já mantinha uma lista de jogadores elegíveis para defender o país e viu em Olise um talento que não poderia escapar.

Pouco tempo depois, veio a convocação para o tradicional Torneio de Toulon.

Mesmo encontrando dificuldades para se comunicar em francês, idioma que conhecia apenas pelas férias em família e pelas aulas incentivadas pela mãe, Olise conseguiu se adaptar rapidamente ao ambiente.

Vieira foi muito mais do que um treinador

Se a mãe foi fundamental para aproximar Olise da França, Patrick Vieira teve papel decisivo em sua evolução como atleta.

Durante sua passagem pelo Crystal Palace, entre 2021 e 2023, o ex-volante campeão do mundo em 1998 foi um dos maiores defensores do jovem meia.

Foi Vieira quem pediu sua contratação junto ao Reading por cerca de sete milhões de euros.

Na época, Olise ainda convivia com problemas físicos, especialmente nas costas, além do perfil extremamente reservado fora de campo.

Enquanto muitos enxergavam apenas um jogador tímido, Vieira via um enorme potencial.

O treinador sempre pediu paciência para que o atleta pudesse amadurecer sem pressão excessiva.

Mais tarde, revelou que, logo na primeira conversa entre os dois, Olise deixou muito claro qual era seu grande objetivo.

Segundo Vieira, o meia afirmou sem rodeios que queria defender a seleção francesa.

O ex-jogador também elogiou a personalidade do atleta e chegou a brincar ao compará-lo com dois dos maiores ídolos da história do futebol francês, Michel Platini e Zinedine Zidane.

Thierry Henry ajudou a fechar a porta para a Inglaterra

Outro personagem importante nessa trajetória foi Thierry Henry. Quando assumiu a seleção francesa sub-21, o ex-atacante passou a utilizar Olise com frequência e ajudou o meia a se integrar definitivamente ao ambiente da equipe nacional.

Entre 2022 e 2023, o jogador disputou diversas partidas pelas categorias de base e ganhou ainda mais confiança.

O grande ponto de virada aconteceu nos Jogos Olímpicos.

Sob comando de Henry, Olise foi um dos principais destaques da campanha francesa. Marcou cinco gols, terminou como maior garçom da competição e ajudou o país a conquistar a medalha de prata após a derrota para a Espanha na decisão.

Naquele momento, praticamente não existia mais qualquer possibilidade de mudança para a Inglaterra.

Inclusive, mesmo já negociado com o Bayern de Munique, o meia fez questão de atuar no torneio e trabalhou para que o clube alemão autorizasse sua liberação.

Deschamps concluiu o plano

Depois do sucesso nas categorias de base, faltava apenas um passo.

Em setembro, Didier Deschamps convocou Olise para a seleção principal visando compromissos da Liga das Nações.

A estreia como titular aconteceu justamente diante da Itália e marcou o início de uma nova fase em sua carreira. Na Inglaterra, a sensação já era de que o talento havia sido perdido definitivamente. Do lado francês, porém, a impressão era exatamente oposta. O investimento iniciado anos antes finalmente apresentava resultado.

Hoje, dois anos depois daquela primeira oportunidade na equipe principal, Olise é uma das grandes atrações da Copa do Mundo. Dono de um estilo elegante, dribles desconcertantes e enorme capacidade de decidir partidas, o meia representa uma vitória importante da França também nos bastidores.

Enquanto a Inglaterra observa de longe um jogador que foi formado em seu próprio sistema, os franceses comemoram o sucesso de um projeto iniciado por uma mãe determinada, fortalecido por Patrick Vieira, lapidado por Thierry Henry e concluído por Didier Deschamps. No fim das contas, a maior “contratação” da França para esta geração talvez nem tenha acontecido em uma janela de transferências, mas sim na disputa silenciosa por uma das joias mais talentosas do futebol europeu.

Foto: FIFA