A estreia da França na Copa do Mundo de 2026 terminou com vitória, mas deixou sensações diferentes dependendo do momento da partida analisado. Contra Senegal, a seleção francesa mostrou novamente um padrão que acompanha a era Didier Deschamps há anos: pouco brilho coletivo, futebol pragmático e confiança quase absoluta na qualidade individual para resolver problemas.
Por longos períodos, principalmente no primeiro tempo, a França pareceu previsível, lenta e desconectada na criação. Faltaram movimentos coordenados, circulação mais dinâmica e capacidade de desmontar uma defesa organizada. Ainda assim, como tantas vezes aconteceu nos últimos anos, o talento individual acabou falando mais alto.
No centro dessa transformação apareceu Michael Olise. O jogador assumiu protagonismo justamente quando o time precisava de soluções e acabou sendo peça fundamental para justificar as escolhas do treinador francês.
Primeiro tempo expôs limitações conhecidas da França
Existe algo curioso na seleção de Deschamps: mesmo reunindo alguns dos jogadores mais talentosos do futebol mundial, raramente o time convence pelo jogo coletivo.
Contra Senegal isso ficou evidente desde os minutos iniciais.
A França teve dificuldade para controlar o ritmo ofensivo e sofreu para conectar meio-campo e ataque. O duplo volante formado por Tchouaméni e Rabiot entregou proteção física e ocupação territorial, mas pouco contribuiu para acelerar a construção.
Sem criatividade central, o jogo acabou ficando excessivamente dependente de ações diretas e acelerações pelos lados.
Esse comportamento não chega a ser novidade. Desde o título mundial em 2018, Deschamps construiu uma equipe baseada menos em controle absoluto e mais em eficiência. O objetivo nunca foi encantar; foi vencer.
Quando o plano funciona, a França parece implacável. Quando não funciona, surgem partidas como o primeiro tempo diante de Senegal.
Olise muda de posição e muda o jogo
A mudança aconteceu na segunda etapa.
Percebendo que seus pontas estavam presos pela marcação adversária, Deschamps promoveu ajustes posicionais que deram outro ritmo ao ataque.
Foi nesse momento que Olise cresceu.
Saindo mais da faixa lateral e passando a ocupar espaços interiores, o jogador encontrou zonas mais livres para receber, girar e acelerar jogadas. O impacto apareceu imediatamente.
A movimentação começou a atrair marcações, abrir corredores e permitir que Mbappe atacasse em condições mais favoráveis.
Olise passou a ser o principal organizador ofensivo da equipe e deu ao ataque francês algo que estava faltando: capacidade de pensar e executar em alta velocidade.
Enquanto isso, Senegal começou a perder capacidade de pressão. O desgaste físico apareceu e jogadores importantes deixaram de controlar os espaços com a mesma eficiência.
A França aproveitou.
Mbappe continua sendo o destino final das jogadas
Mesmo em um jogo irregular, ficou evidente mais uma vez que quase tudo na França termina em Kylian Mbappe.
Atuando mais centralizado, o atacante repetiu um padrão já conhecido: movimentos diagonais constantes e ataques ao espaço nas costas da defesa.
Durante parte da partida, ele até desperdiçou oportunidades e chegou a parecer desconectado do jogo.
Mas bastou o time encontrar alguém capaz de alimentá-lo para o cenário mudar.
Foi exatamente isso que Olise entregou.
A conexão entre os dois apareceu principalmente em jogadas de ruptura, quando o camisa 10 encontrou tempo para levantar a cabeça e explorar os movimentos do atacante do Real Madrid.
Essa parceria pode acabar sendo uma das grandes armas francesas ao longo do torneio.
Se Olise mantiver esse nível de influência entre linhas, Mbappe tende a continuar recebendo situações ideais para decidir.
A França talvez não convença, mas continua assustando
Existe uma discussão recorrente quando se fala sobre a seleção francesa: até que ponto um time precisa jogar bonito para ser considerado favorito?
A atuação diante de Senegal reforçou uma percepção antiga.
Coletivamente, a França ainda apresenta problemas. As coberturas defensivas nem sempre funcionam, o meio-campo não controla partidas com facilidade e o ataque por vezes parece desconectado.
Mas quase nenhuma seleção consegue compensar falhas estruturais como os franceses conseguem.
Quando entram em campo jogadores como Olise, Dembélé, Doué e Mbappe, o cenário muda rapidamente.
A equipe pode passar minutos sem convencer e ainda assim decidir partidas em poucos ataques.
Contra Senegal aconteceu exatamente isso.
A França mostrou defeitos conhecidos.
Mas também lembrou por que continua aparecendo entre os principais candidatos ao título mundial.
Foto: FIFA