Time titular do Brasil vira dor de cabeça para Ancelotti
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Entenda o problema que Ancelotti precisa resolver para o Brasil avançar na Copa do Mundo

A estreia do Brasil na Copa do Mundo deixou algumas leituras importantes sobre o trabalho de Carlo Ancelotti, mas poucas chamaram tanto atenção quanto o problema que apareceu pelo lado direito da defesa. O empate diante de Marrocos não passou apenas pela dificuldade no meio-campo ou pela falta de intensidade ofensiva em determinados momentos. Houve um setor específico que limitou o funcionamento coletivo da Seleção e acabou influenciando tanto a construção das jogadas quanto a proteção defensiva.

Durante principalmente o primeiro tempo, Marrocos conseguiu executar um plano muito eficiente. A equipe africana não apenas competiu fisicamente como também controlou momentos importantes da posse e criou situações mais perigosas do que o Brasil. Enquanto Ayyoub Bouaddi e Neil El Aynaoui conseguiam dar ritmo ao meio-campo marroquino, Casemiro e Bruno Guimarães tiveram dificuldades para acelerar ou controlar o jogo brasileiro.

Mas embora o setor central tenha sido um dos problemas, a lateral direita acabou se tornando o ponto mais explorado do sistema montado por Ancelotti.

Improvisação de Ibañez limitou construção e travou ataque brasileiro

Com Wesley fora da Copa por lesão, Carlo Ancelotti escolheu Roger Ibañez para atuar como lateral-direito. A decisão tinha alguma lógica dentro do contexto: utilizar um jogador mais forte fisicamente para enfrentar um adversário agressivo pelos lados e tentar manter equilíbrio defensivo. Só que o plano encontrou dificuldades desde cedo.

É importante lembrar que Ibañez é zagueiro de origem e isso apareceu em praticamente todas as fases do jogo. Com a bola, faltou naturalidade para ocupar espaços, acelerar jogadas e oferecer profundidade. O defensor demonstrou pouca confiança para assumir riscos e, quando tentou passes mais verticais, acabou sem precisão.

Esse cenário influenciou diretamente o funcionamento ofensivo do Brasil.

Marrocos conseguiu conduzir parte da saída brasileira justamente para o lado direito, tirando da Seleção aquilo que normalmente seria sua zona mais perigosa: as combinações pelo lado esquerdo buscando Vinicius Júnior.

Com Brahim Díaz permanecendo mais alto na marcação e limitando construções por um corredor, o Brasil foi empurrado para jogar onde estava menos confortável.

E praticamente nada saiu dali.

Em um dos momentos mais simbólicos do jogo, uma construção iniciada pela direita terminou em perda de posse e originou o contra-ataque que acabou no gol de Ismael Saibari. Lucas Paquetá recebeu parte das críticas pelo erro seguinte, mas o lance começou em uma decisão arriscada e mal executada anteriormente.

Sem conseguir progredir pelo chão, o Brasil passou a recorrer com frequência a lançamentos mais diretos procurando Igor Thiago ou tentando acelerar Raphinha.

Nenhuma dessas alternativas funcionou de maneira consistente.

Ibanez Brasil
Foto: ©IMAGO

Nem defensivamente o Brasil encontrou estabilidade

Se ofensivamente a adaptação trouxe limitações, o cenário defensivo talvez tenha sido ainda mais preocupante.

Porque, em teoria, utilizar um zagueiro aberto deveria oferecer mais segurança sem bola.

Mas contra Marrocos aconteceu o oposto.

Os atacantes marroquinos conseguiram gerar desconforto constante com movimentações curtas, mudanças rápidas de direção e ocupação inteligente dos corredores. Mesmo sendo um defensor relativamente móvel para padrões de zagueiro, Ibañez sofreu quando precisou defender em espaço aberto durante sequências longas.

Felizmente para o Brasil, parte dos ataques marroquinos aconteceu pelo lado oposto.

Ainda assim, jogadores como Noussair Mazraoui e principalmente Bilal El Khannouss encontraram espaço suficiente para causar problemas.

No segundo tempo, Danilo entrou e ajudou a reorganizar minimamente o setor.

Não porque tenha transformado o jogo, mas porque trouxe mais leitura posicional e simplificou ações defensivas. O problema é que Danilo também está distante do perfil clássico de lateral há alguns anos e construiu grande parte do período recente da carreira atuando centralizado.

Além disso, chega à competição aos 34 anos e depois de um período marcado por problemas físicos.

Ou seja: funciona como solução de curto prazo, mas dificilmente como resposta definitiva.

Ancelotti tem poucas alternativas e pode carregar problema até o mata-mata

Talvez o ponto que mais preocupa olhando para frente seja justamente a falta de opções.

Ao escolher Ederson como substituto de Wesley, Ancelotti abriu mão de convocar um lateral-direito de origem. Isso significa que o Brasil entrou na Copa sem um especialista para a posição.

Hoje, as possibilidades são limitadas.

Ibañez aparece como improvisação inicial.

Danilo surge como alternativa mais segura.

E Fabinho pode ser considerado em situações específicas, embora não jogue regularmente na posição desde os tempos de Monaco.

O detalhe é que Fabinho entrou bem justamente ocupando espaço no meio-campo e pode acabar sendo mais necessário ali do que na defesa.

Ancelotti também teve circunstâncias difíceis para administrar. Perdeu Éder Militão anteriormente e recebeu o corte de Wesley já próximo do início do torneio.

Mesmo assim, manteve a escolha por adaptar zagueiros em vez de buscar reposição direta.

Carlo Ancelotti, Brasil, Copa do Mundo
Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Agora, o Ancelotti precisa encontrar uma resposta rapidamente.

Porque Marrocos talvez tenha mostrado um caminho que outros adversários vão observar: pressionar a saída brasileira pela direita, impedir construções limpas e obrigar o time a atacar longe do seu lado mais criativo.

Na fase de grupos isso pode até ser administrável.

Mas em mata-mata, uma fragilidade identificada costuma deixar de ser detalhe e rapidamente vira alvo.

Foto: Rafael Ribeiro / CBF