Carlos Vinícius já mostrou que sabe fazer gols
Carlos Vinícius não chega ao novo ciclo do Grêmio precisando provar que é capaz de marcar. Os números já fazem isso. O centroavante tem 18 gols na temporada e 10 no Brasileirão, números que o colocam entre os principais artilheiros da competição. O detalhe mais interessante é que essa produção aconteceu mesmo em um cenário no qual o camisa 95 nem sempre recebe a quantidade de bolas que gostaria.
É justamente aí que aparece a primeira ideia de Renato Portaluppi. O novo treinador identificou que Carlos Vinícius muitas vezes fica isolado entre os zagueiros e que o restante do time precisa se aproximar mais da área para criar melhores condições de finalização.
A orientação é clara: meias e pontas precisam pisar mais na área, acompanhar as jogadas e dividir com o centroavante a atenção da defesa. Pode parecer apenas um ajuste de posicionamento, mas a mudança ataca diretamente uma das principais limitações ofensivas do Grêmio.
Carlos Vinícius não precisa necessariamente participar mais da construção. Precisa receber mais bolas em condições de finalizar.
O jejum recente tem relação com a falta de oportunidades
Os últimos jogos ajudam a entender por que Renato decidiu mexer justamente nesse aspecto.
Carlos Vinícius marcou apenas duas vezes nos últimos 12 jogos. Os dois gols aconteceram na vitória por 3 a 1 sobre o Internacional, pela volta das quartas de final da Copa do Brasil. Antes disso, seu último gol havia sido em 17 de julho, na derrota para o Mirassol pelo Brasileirão.
O número, isoladamente, pode sugerir uma queda acentuada de rendimento. O contexto, porém, conta outra história.
Nos últimos três jogos, o centroavante finalizou três vezes contra o Botafogo, duas diante do Vasco e uma contra o Vitória. Foram apenas seis finalizações em três partidas.
Isso não permite concluir que Carlos Vinícius esteja apenas atravessando um problema de eficiência. Também é preciso olhar para a quantidade de vezes em que ele consegue receber a bola em condições de concluir.
Renato parece ter feito justamente essa leitura.
Na apresentação, o treinador afirmou que o centroavante muitas vezes fica sozinho na área, cercado por quatro ou cinco defensores, e cobrou maior aproximação dos meias e dos outros atacantes.
A mudança, portanto, não é simplesmente colocar mais gente para atacar. É evitar que Carlos Vinícius tenha de enfrentar uma defesa inteira praticamente sozinho.
Renato quer levar mais jogadores para perto do centroavante
Essa é uma diferença importante na ideia apresentada pelo novo treinador.
Meias como Villasanti e Krovinovic e pontas como Pavon e Amuzu precisarão participar mais das jogadas próximas à área. Em vez de permanecerem distantes, terão de atacar espaços e acompanhar os movimentos do centroavante.
Isso pode abrir diferentes possibilidades para Carlos Vinícius.
Se a bola vier pelos lados, ele terá mais companheiros disputando a atenção dos zagueiros. Se a jogada for construída pelo meio, poderá encontrar opções de tabela e movimentação. Se um cruzamento for cortado, haverá jogadores em condições de atacar a sobra.
O objetivo é fazer a defesa adversária tomar mais decisões.
Quando Carlos Vinícius está isolado, os zagueiros podem concentrar praticamente toda a atenção nele. Quando outros jogadores entram na área, essa marcação precisa ser distribuída.
E um centroavante eficiente tende a se beneficiar disso.
O estilo de Renato pode combinar com as características de Carlos Vinícius
Existe também uma conexão natural entre a ideia de Renato e o perfil do atacante.
Carlos Vinícius é um centroavante que pode ser mais perigoso quando consegue permanecer próximo da área, atacar cruzamentos, disputar bolas com os zagueiros e finalizar com poucos toques.
Para isso, precisa de uma equipe capaz de levar a bola até ele. Parece óbvio, mas não é.
Um atacante de referência pode passar boa parte de uma partida trabalhando longe do gol se a equipe não consegue avançar pelos lados, ocupar o corredor central ou aproximar jogadores para criar superioridade.
Renato historicamente valoriza a utilização dos lados do campo e a presença ofensiva dos jogadores que atuam pelos corredores. Se os pontas conseguirem avançar, chegar à linha de fundo ou entrar por dentro com mais frequência, Carlos Vinícius terá mais possibilidades de ocupar a região em que é mais perigoso.
Mas o ponto não é transformar o Grêmio em uma equipe que apenas cruza bolas. É criar diferentes maneiras de fazer o centroavante participar das jogadas decisivas sem obrigá-lo a sair constantemente da área para procurar o jogo.
Quanto mais próximo do gol estiver, maior será a possibilidade de aproveitar a principal qualidade que já demonstrou ao longo da temporada: eficiência.
O desafio de Renato será transformar a ideia em comportamento
A proposta faz sentido no papel. O problema começa quando ela precisa aparecer durante os 90 minutos.
Não basta pedir para os meias e pontas chegarem à área. O Grêmio também precisará manter equilíbrio para não ficar exposto quando perder a bola. Os jogadores terão de entender quando atacar o espaço, quando permanecer mais próximos do meio-campo e como fazer essa movimentação sem transformar o time em um bloco partido.
Esse será um dos primeiros trabalhos de Renato.
O treinador não precisa reinventar Carlos Vinícius. Precisa criar um ambiente em que o atacante possa explorar melhor aquilo que já sabe fazer.
A partida contra o Palmeiras, neste domingo, será a primeira oportunidade para observar se essa mudança começa a aparecer no campo.
Mais do que cobrar um gol do centroavante, será interessante observar o comportamento coletivo: quantos jogadores chegam à área, de onde surgem as jogadas e se Carlos Vinícius consegue receber a bola em zonas mais perigosas.
Esse será o verdadeiro indicador.
Carlos Vinícius pode ser o primeiro grande beneficiado da mudança
Há um aspecto particularmente interessante nessa história: Renato identificou um problema que não exige necessariamente uma grande reformulação do elenco para ser corrigido.
O Grêmio já tem o centroavante. Carlos Vinícius já marcou 10 vezes no Brasileirão e 18 na temporada. O que falta é fazer com que ele tenha mais participação nas jogadas que terminam perto do gol.
Isso também explica por que a mudança pode ser importante para o próprio time. Se o centroavante estiver mais abastecido, os adversários terão de proteger melhor a área. Se os pontas e meias aparecerem por dentro, espaços poderão surgir em outros setores. Uma movimentação pode beneficiar a outra.
É uma relação que vai além do número de gols do camisa 95. Renato está tentando fazer o Grêmio jogar mais perto do seu principal finalizador. E isso pode mudar a produção ofensiva da equipe.
Carlos Vinícius já mostrou que consegue transformar poucas oportunidades em gols. Agora, a missão de Renato é fazer com que essas oportunidades deixem de ser tão poucas.
Se conseguir, o Grêmio não terá apenas um centroavante recuperado. Terá uma das suas principais armas ofensivas novamente no centro do jogo.
Foto: Lucas Uebel/Grêmio/Divulgação



