O futebol europeu está acostumado a histórias de clubes centenários, grandes investimentos e camisas pesadas. O Sabah, porém, está escrevendo seu próprio caminho por uma rota bem diferente. Fundado apenas em 2017, o clube do Azerbaijão eliminou o AGF (ou Aarhus, como preferir), da Dinamarca, com uma goleada por 4 a 0 nesta terça-feira e ficou a apenas uma eliminatória da fase de liga da Champions League.
A classificação ganhou contornos ainda mais impressionantes pela maneira como aconteceu. Depois de perder o primeiro jogo por 2 a 1 na Dinamarca, o Sabah segurou um primeiro tempo sem gols em casa e simplesmente atropelou o adversário na etapa final. Foram quatro gols, anotados por Veljko Simic, Steve Solvet, Joy-Lance Mickels e Xander Severina, em aproximadamente meia hora para transformar a desvantagem no confronto em uma vitória por 5 a 2 no agregado.
Depois do país impressionar com o Qarabag nas edições recentes de Champions e Europa League, o Sabah escreveu mais capítulo de uma ascensão que aconteceu em velocidade incomum.
Em menos de uma década, os “Bayquşlar” (do azerbaijano, “As Corujas”) deixaram a segunda divisão do Azerbaijão, chegaram à elite, conquistaram seu primeiro título nacional, derrotando o Qarabag, e agora está a dois jogos de alcançar pela primeira vez a principal competição de clubes da Europa.
De clube da segunda divisão ao sonho da Champions

Masazir é um assentamento e município no distrito de Absheron, no leste do Azerbaijão, e está situado às margens do lago que dá nome ao local. É justamente nessa região lacustre que surge o Sabah.
O clube foi fundado em 8 de setembro de 2017 e começou sua trajetória profissional na segunda divisão do Azerbaijão. A permanência naquele nível, porém, durou pouco. Em 2018, o clube recebeu licença para disputar a primeira divisão e iniciou uma caminhada que, anos depois, o colocaria diante de um dos maiores objetivos possíveis no futebol europeu.
A transformação ganhou um capítulo decisivo nas temporadas seguintes. Em 2022/23, foram vice-campeões nacionais, já no triênio 2024-2025-26, o clube deu início a uma trajetória de glórias que abriga o bicampeonato da Copa do Azerbaijão e o inédito Campeonato Azeri.
Com 78 pontos em 33 partidas, resultado de 24 vitórias, seis empates e apenas três derrotas, o Sabah conquistou pela primeira vez a “Misli Premyer Liqası” (nome oficial do Campeonato Azerbaijano). O título também encerrou a hegemonia do Qarabağ no futebol nacional e colocou o clube em uma posição inédita: disputar as eliminatórias da Champions League.
A trajetória continental, entretanto, começou somente em 2023/24. Na estreia europeia, pela Conference League, o Sabah eliminou o RFS, da Letônia, antes de cair diante do Partizan nos pênaltis. Na temporada seguinte, voltou à competição, passou pelo Maccabi Haifa e foi eliminado pelo St. Patrick’s Athletic.
Em 2025/26, o clube disputou pela primeira vez as eliminatórias da Europa League e também teve experiência na Conference League. Agora, em 2026/27, chegou pela primeira vez às eliminatórias da Champions.
A evolução praticamente anual ajuda a dimensionar o tamanho da história: Conference League, Europa League, Champions League. Foi assim que o Sabah passou de estreante em competições europeias a candidato a uma vaga na fase de liga em apenas quatro temporadas.
Goleada sobre o AGF mostra que não foi apenas uma zebra
O desempenho reforça a ideia de que o Sabah não chegou até aqui apenas por aproveitar uma noite improvável. A equipe mostrou capacidade para controlar o jogo, atacar pelos lados e aumentar a agressividade depois do intervalo. Quando encontrou o primeiro gol, não recuou para administrar a vantagem: continuou pressionando até construir uma goleada.
Esse comportamento é importante para entender o momento do clube. O Sabah não apenas sobreviveu ao confronto. Depois de um primeiro tempo sem gols, voltou do intervalo disposto a buscar a classificação e resolveu o confronto em pouco mais de 30 minutos. Agora, a equipe está a apenas uma eliminatória da fase de liga da Champions League.
Nomes queridos pela torcida ganham protagonismo na pré-Champions

A classificação diante do AGF também merece ser analisada para além do placar. Depois de perder o jogo de ida, o Sabah chegou ao segundo confronto precisando reverter a desvantagem. Após um primeiro tempo equilibrado, a equipe encontrou os espaços necessários e transformou a etapa final em uma demonstração de força diante de sua torcida.
Veljko Simić foi o grande destaque da partida. Aos 31 anos, o sérvio chegou recentemente ao clube e rapidamente conquistou os torcedores. Na temporada passada, foi peça importante na campanha do título do Campeonato Azerbaijano, com 12 gols e nove assistências. Na ocasião, porém, o jogador ainda não pertencia ao Sabah — estava emprestado pelo Sivasspor, da Turquia. Para 2026/27, a diretoria se movimentou e adquiriu seus direitos em definitivo por 450 mil euros.
O investimento já começa a ser justificado pelos números na pré-Champions. Em seis partidas, Simić marcou cinco gols e deu uma assistência, tornando-se uma das principais esperanças ofensivas do Sabah para o último round preliminar da competição.
Outro nome conhecido pela torcida que deixou sua marca na goleada foi Joy-Lance Mickels. O atacante ruandês é o maior artilheiro da história do clube, com 74 gols em 114 partidas somando suas duas passagens pelo Sabah. O vínculo com a equipe também o colocou em outro patamar histórico: Mickels é o segundo jogador que mais vestiu a camisa das Corujas, com 185 jogos, atrás apenas do lateral-direito Amin Seydiyev.
A lista de personagens importantes ainda conta com um brasileiro. Aos 26 anos, Júnior Almeida chegou recentemente ao futebol azeri sem custos, após deixar o Marítimo, de Portugal. Formado nas categorias de base do Rio Preto, o zagueiro também passou pelo futebol profissional do Novorizontino e Votuporanguense.
Embora ainda não tenha entrado em campo na campanha do Sabah na pré-Champions, Júnior acompanhou de perto a classificação sobre o AGF e agora faz parte de um elenco que está a apenas uma etapa de alcançar a fase de grupos da principal competição de clubes da Europa.
Dambrauskas é parte importante da transformação

Por trás da ascensão também está Valdas Dambrauskas. O técnico lituano assumiu o Sabah em junho de 2025 e chegou ao clube com experiência em diferentes projetos do futebol europeu.
Antes de desembarcar no Azerbaijão, passou por equipes como Žalgiris, RFS, Ludogorets, Hajduk Split, Omonia e OFI Crete. O treinador também já conhece o caminho até o playoff da Champions: levou o Ludogorets a essa fase e agora retorna ao mesmo estágio cinco anos depois.
Sua passagem pelo Sabah já produziu o maior resultado da história do clube. Foi sob o comando de Dambrauskas que a equipe conquistou o primeiro Campeonato Azerbaijano e interrompeu a hegemonia do Qarabağ.
A classificação diante do AGF, portanto, não é um episódio isolado. É a continuação de um projeto que ganhou força justamente na temporada passada e agora começa a ultrapassar as fronteiras do Azerbaijão.
O Sabah também passou a ocupar um espaço inédito no futebol nacional. Com a classificação, tornou-se apenas o quarto clube azeri a alcançar a terceira fase preliminar da Champions League, juntando-se a Baku, Neftçi e Qarabağ.
E, para um país que tem no Qarabağ seu principal representante continental das últimas décadas, a ascensão de um novo clube ao mesmo palco ganha ainda mais peso.
Um projeto internacional em um mercado periférico
Outra característica interessante do Sabah está na composição do elenco. O clube atua em um mercado considerado periférico dentro do futebol europeu, mas não se limita a jogadores do Azerbaijão.
O elenco conta com 26 jogadores, sendo 18 estrangeiros, e tem média de idade de aproximadamente 26 anos. O valor estimado do plantel gira em torno de 17,25 milhões de euros, segundo o Transfermarkt. A estratégia também começa a gerar frutos no mercado de transferências: em 2026, o clube vendeu o francês Aaron Malouda ao Basel, da Suíça, por 3 milhões de euros, valor que representa a maior venda da história do Sabah.
O atacante, de 19 anos, também carrega um sobrenome conhecido no futebol europeu: é filho de Florent Malouda, ex-jogador de Lyon e Chelsea e campeão da Premier League e da Liga dos Campeões.
A estratégia ajuda a explicar como um clube tão jovem conseguiu acelerar sua evolução. Em vez de depender exclusivamente da formação de jogadores locais, o Sabah utiliza o mercado internacional para buscar atletas capazes de aumentar seu nível competitivo — e, posteriormente, transformá-los em ativos valorizados.
É uma espécie de contraponto à idade do próprio clube. Apesar de ter apenas nove anos, o Sabah já possui uma estrutura que procura combinar jogadores locais com estrangeiros e uma comissão técnica com experiência internacional.
O resultado é uma equipe que começa a deixar de ser apenas uma curiosidade do futebol azeri para se tornar um nome cada vez mais conhecido no cenário continental.
A um passo do maior palco
O próximo capítulo já está definido. Depois de eliminar o AGF, o Sabah enfrentará no playoff da Champions League o Hapoel Be’er Sheva, que venceu o Estrela Vermelha.
São dois jogos que podem mudar definitivamente o tamanho do clube no futebol europeu. Caso consiga superar a última eliminatória, o Sabah disputará pela primeira vez a fase de liga da Champions League. Para um clube fundado em 2017, a possibilidade parece ainda mais impressionante quando colocada em perspectiva.
Há menos de dez anos, a equipe ainda estava na segunda divisão do Azerbaijão. Em 2018, chegou à elite. Em 2023, disputou sua primeira competição europeia. Em 2026, conquistou seu primeiro título nacional. Agora, depois de golear o AGF por 4 a 0, está a dois jogos de enfrentar alguns dos maiores clubes do continente.
O Sabah ainda não chegou à Champions. Mas a trajetória até aqui já é histórica. E talvez seja justamente essa a parte mais interessante da história: o clube não está apenas tentando chegar a um novo patamar. Está descobrindo, em velocidade impressionante, até onde pode chegar.
Créditos da foto de capa: Aziz Karimov/Getty Images.



