Nicky Butt e Paul Scholes manchester united
Futebol Premier League

Manchester United gera tensão com a histórica “Classe de 92”; entenda

O Manchester United sempre se orgulhou de sua história e de seus ídolos, mas nem sempre essa convivência com o passado é simples. O episódio recente envolvendo Lisandro Martínez e dois nomes emblemáticos da chamada “Classe de 92”, Nicky Butt e Paul Scholes, escancarou uma relação que mistura respeito, cobrança, orgulho e, em alguns momentos, desgaste público.

Tudo começou de forma aparentemente leve, em tom de brincadeira. Antes do clássico contra o Manchester City, Butt e Scholes ironizaram a diferença física entre Martínez e Erling Haaland durante o podcast “The Good, The Bad, The Football”. A provocação ganhou repercussão, principalmente após o argentino fazer uma grande atuação na vitória por 2 a 0 em Old Trafford e responder de forma direta às críticas.

Martínez deixou claro que se incomodou com o comentário, afirmando que muitos falam na televisão, mas que, cara a cara, ninguém diz nada. A resposta não caiu bem entre os ex-jogadores, que voltaram ao tema no mesmo podcast, agora com um tom mais duro, questionando a postura emocional do defensor do United.

Butt e Scholes rebatem e expõem choque de gerações

Nicky Butt foi direto ao elogiar o desempenho de Martínez, reconhecendo que ele encarou um dos melhores atacantes do mundo e saiu vencedor do duelo. No entanto, criticou a reação do argentino fora de campo, dizendo que, em um clube do tamanho do Manchester United, é preciso saber lidar com críticas e comentários públicos.

Paul Scholes seguiu a mesma linha. Revelou, inclusive, que já havia trocado mensagens com Martínez no passado por conta de outra crítica e que o zagueiro chegou a dizer que havia perdido o respeito por ele. O ex-meia afirmou ter deixado seu telefone à disposição, mas nunca recebeu resposta.

Esse tipo de embate público revela mais do que um simples desentendimento pontual. Ele expõe o choque entre gerações: de um lado, ídolos formados em um ambiente extremamente competitivo, acostumados a críticas duras e cobrança interna; do outro, jogadores atuais que convivem com redes sociais, podcasts e um ciclo de exposição muito mais intenso.

A Classe de 92 carrega um peso simbólico enorme dentro do clube. Ryan Giggs, Scholes, David Beckham, Butt e os irmãos Neville somam mais de 3.400 partidas pelo United e foram a base do time que conquistou a Tríplice Coroa em 1999. Isso faz com que suas opiniões ainda tenham enorme repercussão entre torcedores, dirigentes e jogadores.

Presença constante e influência fora das quatro linhas

Mesmo após a aposentadoria, a Classe de 92 nunca se afastou completamente do Manchester United. Giggs chegou a assumir como técnico interino e integrou comissões técnicas após a saída de David Moyes. Butt teve papel central na base do clube, sendo chefe da academia entre 2016 e 2021, além de atuar diretamente em projetos sociais ligados à instituição.

Esse envolvimento reforça a sensação de pertencimento, mas também gera conflitos. Butt, por exemplo, já criticou publicamente decisões internas sobre a formação de jovens jogadores e chegou a afirmar que o clube ameaçou cancelar seus ingressos de temporada, o que evidenciou atritos nos bastidores.

Ao mesmo tempo, o United mantém laços institucionais com o grupo. O clube firmou parceria com a universidade UA92, fundada pelos ex-jogadores, e utiliza com frequência o Hotel Football, empreendimento da Classe de 92 localizado ao lado de Old Trafford, apesar de no passado ter tentado barrar sua construção.

Gary Neville talvez seja o exemplo mais visível dessa relação ambígua. Como comentarista e podcaster, ele é uma das vozes mais influentes do futebol inglês. Suas análises, muitas vezes críticas, incomodam treinadores e jogadores. Ruben Amorim, antes de ser demitido, chegou a citar Neville como alguém cuja opinião tinha peso excessivo dentro do clube.

Críticas públicas, orgulho histórico e o impacto no elenco atual do United

O grande problema para o Manchester United não é a existência das críticas, mas o impacto que elas causam no vestiário. A reação de Lisandro Martínez mostra que os jogadores não ignoram o que é dito por ex-ídolos. Pelo contrário, sentem, respondem e, em alguns casos, levam para o lado pessoal.

Para parte da torcida, a Classe de 92 representa a essência do clube, a famosa “DNA do United”, baseada em ataque, coragem e valorização da base. Para outros, o excesso de nostalgia atrapalha a reconstrução e cria comparações constantes com um passado difícil de ser replicado.

Dirigentes tentam minimizar o conflito. Collette Roche, diretora de operações do clube, afirmou que os ex-jogadores fazem parte da família do Manchester United e que a relação vai muito além de manchetes ou declarações em podcasts. Gary Neville também nega qualquer ruptura, dizendo que o grupo apenas sofre e se frustra quando o time perde.

Ainda assim, episódios como esse deixam claro que a convivência não é totalmente harmoniosa. Enquanto a Classe de 92 segue sendo uma referência moral e histórica, o elenco atual busca afirmar sua própria identidade, em um contexto completamente diferente do futebol dos anos 1990.

No fim das contas, a relação entre o Manchester United e a Classe de 92 segue viva, intensa e, muitas vezes, desconfortável. Um laço que mistura amor, cobrança e expectativa, mas que, como mostrou o caso Martínez, ainda está longe de ser simples ou pacífico.