A Inglaterra sabe que não contratou Thomas Tuchel apenas para passar pela fase de grupos. Esse roteiro, aliás, já era praticamente uma especialidade de Gareth Southgate, algo comum para ele. O desafio agora é outro: fazer a seleção inglesa vencer os jogos que realmente definem um campeão.
É justamente nesse ponto que o treinador alemão começa a dar sinais positivos. Ainda que a atuação contra a República Democrática do Congo tenha deixado dúvidas, algumas decisões tomadas durante a partida reforçaram uma das maiores qualidades da carreira de Tuchel: sua capacidade de mudar um jogo enquanto ele está acontecendo.
Nesta espécie de torneio, onde cada detalhe pode decidir uma campanha inteira, esse pode ser o diferencial que a Inglaterra buscava há anos.
Inglaterra aposta em Tuchel para vencer os jogos decisivos
Desde que foi anunciado como treinador da Inglaterra, Thomas Tuchel nunca escondeu qual seria sua missão.
Em sua apresentação, o alemão deixou claro que respeitava o legado de Gareth Southgate, responsável por recolocar os ingleses entre as principais seleções do planeta. No entanto, também reconheceu que ainda faltava o passo mais importante.
A meta é simples de explicar, mas extremamente difícil de executar: conquistar a Copa do Mundo e colocar a segunda estrela na camisa inglesa.
Southgate transformou a Inglaterra em uma equipe competitiva e constante nos grandes torneios. Foram campanhas sólidas em Copas do Mundo e Eurocopas, sempre chegando às fases finais. O problema é que, quando as partidas exigiam respostas rápidas durante os 90 minutos, muitas vezes a equipe acabava ficando para trás.
Foi exatamente esse histórico que fez a federação apostar em Tuchel.
Mudanças durante o jogo começam a aparecer
Mesmo sem uma atuação brilhante diante da RD Congo, a Inglaterra apresentou um aspecto bastante interessante.
As duas pausas para hidratação serviram praticamente como mini intervalos técnicos, e Tuchel aproveitou cada uma delas para reorganizar sua equipe.
Os números ajudam a ilustrar isso. Todas as oito finalizações inglesas no primeiro tempo aconteceram após a primeira pausa para hidratação, quando o treinador conseguiu ajustar posicionamentos e orientar seus jogadores.
Depois do intervalo, a história se repetiu.
O empate inglês nasceu pouco depois da segunda pausa, quando Declan Rice passou a atuar como lateral-direito em uma alteração que mudou completamente a dinâmica ofensiva da equipe.
A mudança, inclusive, foi sugerida pelo auxiliar Anthony Barry, mas recebeu rapidamente o aval de Tuchel. Foi uma decisão ousada, tomada no calor da partida, exatamente o tipo de intervenção que muitos torcedores sentiram falta durante a passagem de Southgate.
O contraste com Gareth Southgate
As comparações são inevitáveis. Durante o ciclo anterior, uma das críticas mais frequentes feitas a Gareth Southgate dizia respeito justamente à demora para modificar o time.
O exemplo mais lembrado continua sendo a semifinal da Copa do Mundo de 2018.
A Inglaterra começou melhor diante da Croácia, abriu o placar, mas viu o adversário crescer. Mesmo com a mudança clara de cenário, Southgate esperou o empate croata para fazer sua primeira substituição.
Dois anos depois, na final da Eurocopa contra a Itália, o roteiro foi bastante parecido.
Os ingleses marcaram cedo, diminuíram o ritmo e passaram boa parte da partida assistindo aos italianos crescerem no jogo. O empate veio naturalmente, e as alterações demoraram novamente para acontecer.
Na Copa do Mundo do Catar, contra a França, a situação voltou a se repetir. As primeiras mudanças aconteceram apenas depois do gol de Olivier Giroud, já na reta final da partida.
Na Euro de 2024, Cole Palmer até saiu do banco para marcar contra a Espanha na decisão, mas pouco depois foi um reserva espanhol quem definiu o título.
Esses episódios ajudaram a construir a imagem de que a Inglaterra frequentemente reagia tarde demais nos momentos decisivos.
O que faz Tuchel ser tão elogiado?
Quem conhece Thomas Tuchel de perto acredita que justamente essa seja sua maior qualidade.
Benjamin Weber, que trabalhou ao lado do treinador em Mainz, Borussia Dortmund, Paris Saint-Germain e Chelsea, fez questão de destacar essa característica.
Segundo ele, Tuchel possui uma capacidade incomum para entender o que uma partida precisa enquanto ela acontece.
Para Weber, o treinador alemão sempre foi especialista em competições eliminatórias. Não por acaso, acumulou finais por praticamente todos os clubes em que trabalhou e conquistou a Liga dos Campeões comandando o Chelsea.
Além da leitura tática, Weber também destaca outro fator. Tuchel costuma ser extremamente forte nas conversas durante o intervalo. Segundo o ex-auxiliar, seus discursos conseguem unir objetividade, confiança e motivação, sem sobrecarregar os atletas com excesso de informações.
Em vez de transformar o intervalo em uma palestra cheia de conceitos complexos, o treinador costuma apresentar poucas instruções, indicar onde estão os espaços em campo e reforçar a confiança dos jogadores para executar o plano.
Declan Rice revelou impacto imediato
As palavras de Declan Rice após uma das primeiras partidas de Tuchel pela seleção inglesa ajudam a entender como esse perfil já começa a ser percebido pelos jogadores.
O volante destacou que o discurso do treinador no intervalo acalmou completamente o elenco.
Sem revelar detalhes da conversa, Rice afirmou que aquele foi um daqueles momentos em que o grupo percebe estar trabalhando com um treinador de altíssimo nível.
Esse tipo de liderança costuma ser decisivo em torneios curtos.
Em uma Copa do Mundo, muitas vezes não existe tempo para corrigir problemas ao longo de várias semanas. As soluções precisam aparecer entre um tempo e outro, ou até mesmo durante a partida.
Copa mostra como os detalhes fazem diferença
A própria Copa do Mundo vem reforçando essa ideia.
Diversos confrontos do mata-mata foram decididos nos minutos finais, enquanto outros acabaram sendo definidos apenas nas cobranças de pênaltis.
Ou seja, os detalhes nunca tiveram tanto peso. O próprio Carlo Ancelotti, outro treinador campeão da Liga dos Campeões presente no torneio, já mostrou como uma alteração pode mudar completamente uma classificação.
No duelo entre Brasil e Japão, o italiano promoveu a entrada de Gabriel Martinelli no segundo tempo, utilizando o atacante por dentro, em uma função diferente da habitual.
Foi justamente dessa posição que saiu o gol da vitória brasileira nos acréscimos.
Situações como essa reforçam uma velha máxima do futebol: ler corretamente o jogo é uma habilidade que mistura experiência, sensibilidade e coragem.
A verdadeira prova ainda está por vir
Os primeiros sinais deixados por Thomas Tuchel são animadores, mas ainda insuficientes para qualquer conclusão definitiva.
O verdadeiro julgamento acontecerá quando a Inglaterra voltar a disputar uma semifinal ou uma final de grande torneio. Foi justamente nesses momentos que Southgate esbarrou repetidamente em pequenos detalhes que acabaram custando títulos.
Agora, a expectativa inglesa é que Tuchel consiga transformar esses detalhes em vantagem.
Se o treinador alemão continuar demonstrando rapidez para adaptar o time, coragem para fazer mudanças e personalidade para decidir jogos em tempo real, a Inglaterra pode finalmente dar o passo que persegue há décadas.
E, quem sabe, transformar o velho sonho da segunda estrela em realidade.
Foto: Sky Sports/Reprodução