Em 2012, Dana White fez algo que presidentes do UFC raramente fazem: admitiu que um evento havia sido ruim. Depois do UFC 149, realizado em Calgary, o dirigente não tentou encontrar desculpas para uma noite marcada por lesões, mudanças de última hora e lutas que não corresponderam às expectativas.
“Estou envergonhado”, disse White aos jornalistas naquela ocasião, reconhecendo que aquele havia sido um dos piores eventos da história da organização.
Naquele momento, a declaração tinha um peso enorme. O UFC 149 havia sido vendido como um grande pay-per-view, mas chegou ao fim depois de perder nomes como José Aldo, Jon Jones, Antônio Minotouro e Michael Bisping. O card que restou não conseguiu compensar a perda das principais estrelas.
Mais de uma década depois, o UFC 332 chega a Salt Lake City em uma situação curiosamente parecida, mas, ao mesmo tempo, completamente diferente. Também existe uma sensação de decepção antes mesmo de as lutas acontecerem. Também faltam grandes estrelas. E também existe a impressão de que o evento não possui aquela luta que faz o torcedor pensar que precisa estar diante da televisão naquela noite.
A diferença é que, em 2026, isso já não significa necessariamente que o UFC 332 seja um fracasso comercial. E talvez essa seja a parte mais importante dessa história.
O UFC 149 tinha um problema que o UFC 332 não tem
Para entender a comparação, é preciso voltar ao contexto econômico de 2012. O UFC 149 era um pay-per-view tradicional. O torcedor pagava aproximadamente US$ 50 para assistir ao evento. Portanto, havia uma expectativa diretamente relacionada ao preço: se o UFC estava cobrando uma quantia significativa por uma noite de lutas, o card precisava parecer especial. Era uma relação bastante simples: grandes lutas justificavam grandes preços.
O problema para o UFC 149 foi que a estrutura do card desmoronou antes mesmo da noite começar. Lesões e mudanças de adversários transformaram um evento que deveria reunir alguns dos principais nomes da organização em uma programação muito menos atraente. E o próprio Dana White reconheceu isso depois.
O UFC 332 está inserido em uma realidade completamente diferente. Os eventos numerados já não funcionam exclusivamente como produtos individuais comprados separadamente pelo torcedor. Com a mudança no modelo de distribuição, o fã não precisa necessariamente decidir se vale a pena gastar dezenas de dólares naquela noite específica.
A pergunta passa a ser outra: vale a pena dedicar algumas horas para assistir?
É uma diferença aparentemente pequena, mas que muda completamente a relação entre UFC e público.
O problema do UFC 332 começa antes das lutas
O UFC 332 possui um problema que nenhum resultado pode resolver completamente antes do evento começar.
A expectativa. Durante determinado período, o próprio evento chegou a aparecer sem uma luta principal definida, com o espaço ocupado por um genérico “TBD vs. TBD”. Para quem já havia comprado ingressos em Salt Lake City, isso significava esperar por uma atração principal que pudesse justificar a presença no evento.
Quando a luta foi definida, o confronto pelo cinturão peso-mosca feminino entre Natália Silva e Wang Cong trouxe importância esportiva, mas não necessariamente o poder de atração que o público esperava.
Isso acontece porque existe uma diferença entre uma luta importante e uma luta que o público estava esperando para ver. Natália e Wang disputarão um cinturão do UFC. Isso, por si só, possui enorme relevância. Mas a ausência de uma estrela consolidada no topo do card produz uma sensação diferente.
Não existe, nesse caso, aquele confronto que domina as conversas durante semanas. Não há um nome que faça o torcedor reorganizar a própria agenda. E essa talvez seja a principal crítica possível ao UFC 332: não necessariamente que as lutas sejam ruins, mas que poucas delas parecem indispensáveis.
O restante do card ajuda, mas não resolve completamente essa ausência de impacto. King Green costuma produzir combates movimentados. Roberto Soldić chega ao UFC cercado de expectativa depois de construir uma carreira relevante fora da organização. Rafael dos Anjos, Johnny Walker, Marvin Vettori e Court McGee também são nomes conhecidos por quem acompanha MMA há anos.
Mas existe uma diferença entre reconhecer um lutador e sentir que é necessário vê-lo lutar. O UFC 332 parece ter vários nomes capazes de produzir uma boa noite de MMA.
O que ele não possui, pelo menos no papel, é uma atração capaz de transformar a noite em um acontecimento.
O novo modelo do UFC muda tudo
Durante anos, os eventos numerados representavam o topo da pirâmide do UFC. Os Fight Nights tinham uma função. Os eventos numerados tinham outra.
Essa distinção era reforçada pelo preço. Quando o torcedor precisava comprar separadamente cada grande evento, existia uma hierarquia clara. Um UFC numerado precisava parecer maior porque custava mais. Uma luta entre grandes estrelas justificava o investimento.
Agora, essa separação ficou muito menos evidente. Se o assinante já possui acesso ao conteúdo através de sua plataforma de streaming, o UFC 332 deixa de competir diretamente contra o bolso do torcedor e passa a competir contra seu tempo.
Isso pode parecer uma mudança pequena, mas representa uma transformação enorme na maneira como o conteúdo esportivo é consumido.
Nesse modelo, um card secundário pode continuar sendo perfeitamente funcional. Se uma luta surpreender, ótimo. Se um prospecto apresentar uma atuação memorável, melhor ainda. Se uma luta principal inesperadamente produzir um clássico, o UFC ganha uma história que não estava necessariamente no planejamento.
E essa imprevisibilidade é justamente uma das características que tornam o MMA diferente de outros esportes.
O problema dos cards ruins é que ninguém sabe se eles serão ruins
É possível analisar o card e concluir que ele não possui o mesmo poder de atração de outros eventos numerados. Mas isso não permite prever o que acontecerá dentro do octógono.
O UFC 149 serve como exemplo perfeito. O problema daquele evento não era apenas a ausência de estrelas. As lutas que permaneceram também não conseguiram produzir a noite que o público esperava.
Mas o inverso também acontece. Lutadores relativamente desconhecidos podem produzir uma das melhores lutas do ano. Um confronto que parecia destinado ao meio do card pode terminar em um nocaute espetacular. Um prospecto pode apresentar uma atuação que muda sua carreira em 15 minutos.
É impossível eliminar completamente esse elemento do MMA. E talvez seja justamente por isso que o UFC continue podendo vender a ideia de que não é possível julgar um evento antes de ele acontecer. A frase contém uma verdade, mas também possui uma contradição comercial.
A organização sabe que precisa vender expectativa antes da luta. É por isso que promove estrelas, rivalidades, cinturões, histórias pessoais e possíveis clássicos.
Depois que o evento termina, porém, o argumento muda: o que importa é o que aconteceu no octógono.
As duas coisas são verdadeiras. O problema é que uma delas acontece antes de o torcedor decidir assistir e a outra acontece depois.



