Gable Steveson chegou ao UFC cercado de expectativas enormes. Campeão olímpico na luta olímpica, dono de um currículo impressionante no wrestling universitário e com apenas 26 anos, o peso-pesado parecia ter todos os ingredientes para se transformar em uma das grandes estrelas da nova geração. Só que a derrota para Sean Sharaf, em apenas 12 segundos, mostrou que existe uma distância considerável entre ter potencial e estar pronto para competir no mais alto nível do MMA.
A derrota no UFC 331 foi especialmente dura porque aconteceu justamente quando Steveson tentava construir sua imagem como futuro nome importante da categoria. O norte-americano havia estreado no octógono com uma vitória por nocaute sobre Elisha Ellison e carregava uma sequência de quatro triunfos por KO em sua carreira profissional. Contra Sharaf, porém, tudo terminou antes mesmo de o combate começar a ganhar forma.
Para Eric Nicksick, treinador de MMA que acompanha de perto a evolução do lutador, o problema pode estar menos no talento de Steveson e mais na tentativa de reproduzir características de outro atleta. E esse outro atleta é ninguém menos que Jon Jones.
Problema de tentar ser Jon Jones
A relação entre Steveson e Jones é conhecida dentro do UFC. O campeão olímpico treina na Jackson Wink MMA Academy, no Novo México, e conta com a experiência do ex-campeão dos meio-pesados e pesos-pesados em seu desenvolvimento. Ter um dos maiores lutadores da história por perto obviamente pode ajudar bastante.
O problema aparece quando inspiração vira cópia.
Segundo Nicksick, Steveson estaria tentando incorporar alguns movimentos característicos de Jones ao seu jogo, especialmente na movimentação em pé. Só que existe uma diferença fundamental: Steveson não tem o mesmo tipo de corpo, alcance e estilo de Jones.
E isso importa muito no MMA.
Jones construiu boa parte de seu sucesso utilizando a enorme envergadura, a capacidade de controlar a distância e uma criatividade incomum para encontrar golpes em ângulos diferentes. Seu jogo foi desenvolvido durante anos para explorar exatamente aquilo que seu físico oferecia.
Steveson, por outro lado, precisa descobrir quais são as próprias armas.
“Ele está tentando se movimentar um pouco como Jon, fazendo coisas que Jon faz muito bem por causa de seu alcance”, explicou Nicksick. Na avaliação do treinador, Steveson precisa adaptar seu estilo ao próprio corpo e continuar evoluindo com o tempo.
Parece uma recomendação simples, mas pode ser uma das decisões mais importantes da carreira do lutador.
Wrestling ainda precisa ser uma arma
Existe uma certa ironia na trajetória de Steveson no MMA. Ele chegou ao esporte justamente com uma das melhores bases possíveis para um peso-pesado. O norte-americano foi campeão olímpico e conquistou duas vezes o título da NCAA na Divisão I, além de quatro campeonatos da Big Ten e cinco títulos de All-American.
Ou seja: ele não precisa abandonar o wrestling para virar um bom striker. Precisa descobrir como transformar o wrestling em uma ponte para o restante do jogo.
Esse processo é muito diferente de simplesmente entrar no octógono e tentar trocar golpes. O MMA exige que o atleta conecte wrestling, boxe, chutes, defesa, clinch, controle de distância e condicionamento. Uma especialidade que funciona perfeitamente em outro esporte precisa ser adaptada para sobreviver quando o adversário pode atacar praticamente de qualquer posição.
Steveson ainda está no começo dessa transformação. Apesar de já estar no UFC, sua experiência profissional no MMA é limitada. O próprio Nicksick destacou que ele ainda é um lutador verde na modalidade e que não teve uma longa passagem pelo circuito regional enfrentando diferentes estilos antes de chegar à principal organização do mundo.
Isso ajuda a explicar por que a derrota para Sharaf pode ser vista também como uma espécie de choque de realidade.
Steveson descobriu, da maneira mais dolorosa possível, que o MMA não funciona simplesmente na base do currículo.
Derrota para Sharaf mudou o cenário
Antes do UFC 331, a narrativa em torno de Steveson era a de um prospecto extremamente promissor. Depois da luta, a conversa mudou completamente.
Sharaf precisou de apenas 12 segundos para nocautear o campeão olímpico e provocar a primeira derrota de sua carreira no MMA. Steveson passou a ter campanha de 1-1 no UFC, justamente quando começava a construir sua trajetória na organização.
O resultado foi ainda mais surpreendente porque Steveson era considerado um enorme favorito para a luta. A derrota foi descrita como a maior zebra de apostas da história do UFC, aumentando ainda mais o tamanho do impacto. Mas talvez o mais importante seja não transformar um resultado ruim em uma sentença definitiva sobre sua carreira.
Aos 26 anos, Steveson ainda tem bastante tempo para aprender. Ele tem um histórico esportivo que poucos atletas conseguem apresentar e características físicas que continuam sendo interessantes para um peso-pesado. O que falta é transformar esse potencial em um estilo de MMA que faça sentido para ele.
E isso provavelmente significa parar de tentar parecer com alguém.
Steveson precisa ser Steveson
A presença de Jon Jones pode continuar sendo extremamente importante para Steveson. Ter acesso à experiência de um dos maiores nomes da história do UFC não é algo que qualquer prospecto consegue. Mas existe uma diferença entre aprender com Jones e tentar lutar como Jones.
Essa diferença pode definir o futuro do campeão olímpico no MMA.
Steveson não precisa ter a movimentação de Jones, os mesmos golpes ou a mesma personalidade dentro do octógono. Ele precisa construir um jogo baseado em suas próprias características. Seu wrestling pode ser o ponto de partida, enquanto o striking precisa ser desenvolvido para complementar essa base, e não para apagar aquilo que o tornou um atleta de elite.
É justamente esse processo que pode determinar se o tropeço contra Sharaf será apenas um capítulo complicado ou o começo de uma mudança maior.
Por enquanto, a carreira de Steveson no UFC está longe de ter uma conclusão. Ele venceu sua primeira luta no primeiro round, perdeu a segunda em 12 segundos e ainda tem uma quantidade enorme de coisas para aprender. O próprio Nicksick acredita que o lutador pode reagir, destacando sua mentalidade competitiva e a qualidade da equipe que o acompanha.
A questão, portanto, não é simplesmente voltar ao octógono e tentar provar que a derrota foi um acidente.
É voltar diferente.
Se Gable Steveson conseguir transformar o wrestling olímpico em uma base para um estilo próprio de MMA, explorar seu físico e abandonar a necessidade de imitar Jon Jones, ainda existe muito espaço para crescimento. O talento está ali. Agora falta descobrir exatamente como colocá-lo para funcionar no octógono.
Porque, no fim das contas, ninguém precisa de um segundo Jon Jones. O UFC já tem o original. O que Steveson precisa encontrar é o primeiro Gable Steveson.
Foto: Reprodução/Instagram



