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UFC 332: os maiores vencedores e perdedores do evento deste sábado

O UFC 332 terminou em Salt Lake City com uma contradição curiosa. A luta principal entregou uma decisão pouco empolgante, mas o evento como um todo entrou para a história da organização depois de estabelecer o recorde de 11 nocautes, sendo nove deles no primeiro round. No fim das contas, a noite foi muito menos sobre o confronto entre Natália Silva e Wang Cong e muito mais sobre as diferentes direções que algumas carreiras tomaram dentro do octógono.

Enquanto Payton Talbott transformou uma promessa de futuro em uma possibilidade concreta de estrelato, Natália Silva conquistou o cinturão peso-mosca feminino e colocou o Brasil novamente no topo de uma divisão importante. Esteban Ribovics e Roman Kopylov também saíram fortalecidos, mostrando que ainda existe espaço para atletas que talvez não estivessem no centro das atenções antes do evento.

Do outro lado, nomes como Marvin Vettori e Rafael dos Anjos deixaram Salt Lake City com perguntas muito mais difíceis para responder. Não se trata apenas de mais uma derrota. Em ambos os casos, o resultado reforça a sensação de que carreiras importantes estão chegando a um ponto em que continuar lutando exige mais do que simplesmente vontade de permanecer no esporte.

O UFC 332, portanto, acabou funcionando como uma espécie de retrato da própria organização: uma geração tentando assumir espaço enquanto outra começa a descobrir que o tempo, no MMA, costuma cobrar suas dívidas de maneira bastante rápida.

Payton Talbott foi o grande vencedor da noite

Se existe um nome que deixou o UFC 332 maior do que entrou, é Payton Talbott.

O norte-americano não apenas derrotou Deiveson Figueiredo. Ele destruiu um ex-campeão do UFC em pouco mais de dois minutos, derrubando o brasileiro e mantendo uma pressão sufocante até que o árbitro interrompesse a luta. O resultado confirmou aquilo que já vinha aparecendo em suas últimas apresentações: Talbott deixou de ser apenas uma promessa interessante e começou a se comportar como alguém que pode disputar posições importantes no peso-galo.

A vitória ganha ainda mais peso quando colocada em sequência. Antes de Figueiredo, Talbott havia derrotado Henry Cejudo, outro ex-campeão e um dos nomes mais importantes da história da divisão. São dois adversários experientes, conhecidos e com currículos muito maiores do que o de Talbott, mas que foram incapazes de impedir a ascensão do jovem.

Aos 28 anos, ele está em uma idade particularmente interessante para um lutador. Ainda existe espaço para evolução, mas já há maturidade suficiente para enfrentar adversários de elite. O problema é que o próximo passo também precisa ser calculado com cuidado. Talbott quer Sean O’Malley, e a chamada faz sentido justamente porque O’Malley representa uma combinação rara de nível esportivo, popularidade e capacidade de transformar uma luta em evento.

A vitória sobre Figueiredo, porém, não significa que Talbott já esteja pronto para ser campeão. O que ela faz é tornar muito mais difícil ignorá-lo. E talvez essa seja a maior vitória da noite: ele saiu do UFC 332 não apenas com mais um triunfo, mas com o direito de exigir adversários maiores.

Natália Silva conquistou o cinturão, mas ainda precisa construir sua era

Natália Silva também está entre as grandes vencedoras do evento, embora sua vitória tenha acontecido de maneira completamente diferente.

A brasileira derrotou Wang Cong por decisão unânime e conquistou o cinturão peso-mosca feminino que estava vago. Foi uma atuação tecnicamente segura, construída principalmente pela movimentação e pela capacidade de controlar as trocas nos primeiros rounds. Wang cresceu na parte final da luta, mas não conseguiu recuperar a desvantagem construída anteriormente.

O resultado colocou Natália em uma posição que sua trajetória já indicava que poderia alcançar. Ela chegou ao título com nove vitórias no UFC e sem derrotas na organização, consolidando uma sequência que já incluía vitórias importantes sobre adversárias de alto nível.

Mas existe uma diferença entre conquistar um cinturão e construir uma era.

Natália assumiu o título em um momento de transição da divisão. Valentina Shevchenko, que deixou o cinturão vago por causa de uma lesão, continua sendo a principal referência histórica da categoria e ainda está no horizonte. A própria discussão sobre quem é a verdadeira força dominante do peso-mosca mostra que Natália terá de fazer mais do que conquistar o título para estabelecer seu nome entre as grandes da divisão.

Isso não diminui sua vitória. Pelo contrário. O cinturão agora oferece justamente a oportunidade de transformar uma sequência de excelentes resultados em protagonismo duradouro.

A luta contra Wang não foi espetacular, mas talvez tenha sido importante por outro motivo: Natália demonstrou que consegue vencer uma disputa de cinco rounds, administrar uma adversária perigosa e lidar com a pressão de uma luta de cinturão. Agora começa uma etapa diferente.

Ribovics e Kopylov mostram que veteranos também podem reagir

Nem todos os vencedores do UFC 332 são jovens tentando entrar no topo. Esteban Ribovics, por exemplo, derrotou King Green com uma das atuações mais violentas da noite. O argentino derrubou o adversário três vezes antes da interrupção no primeiro round e conseguiu sua segunda vitória consecutiva por nocaute. Depois de uma sequência irregular dentro do UFC, ele começa novamente a aparecer como um nome que pode entrar no radar do ranking.

O resultado é especialmente importante porque King Green não é conhecido por ser um adversário fácil de quebrar. A maneira como Ribovics conseguiu desmontá-lo mostra que existe uma evolução concreta em seu jogo e, principalmente, uma capacidade de transformar volume ofensivo em dano real.

Roman Kopylov viveu uma situação parecida. O russo interrompeu a ascensão de Ateba Gautier com um nocaute no primeiro round e conseguiu sua segunda vitória consecutiva depois de ter perdido duas lutas seguidas para Paulo Costa e Gregory Rodrigues.

Kopylov não virou um candidato ao cinturão de uma hora para outra. O que mudou foi sua posição dentro da divisão. Ele deixou de parecer um lutador tentando sobreviver entre resultados negativos e voltou a construir uma sequência que pode colocá-lo diante de adversários mais relevantes.

São vitórias diferentes, mas com um significado semelhante: o UFC 332 mostrou que nem toda trajetória precisa ser linear para terminar em ascensão.

Figueiredo e Vettori representam o outro lado da noite

Se Talbott foi o símbolo da nova geração, Deiveson Figueiredo foi um dos maiores perdedores do evento. O brasileiro foi derrotado pela terceira vez consecutiva e chegou à quinta derrota em suas últimas seis lutas. Aos 38 anos, o ex-campeão peso-mosca está diante de uma situação que já não pode ser tratada apenas como uma fase ruim. A sequência começa a questionar qual é o lugar que ele ainda pode ocupar em uma divisão cada vez mais jovem.

O mais duro é que Figueiredo não perdeu para um adversário estabelecido no topo. Perdeu para um lutador que está justamente tentando ocupar o espaço que nomes como ele dominaram durante anos.

Isso transforma a derrota em algo simbólico. O problema de Figueiredo não é apenas ter perdido uma luta. É que o UFC está mostrando, diante dele, que existe uma geração preparada para ocupar o lugar que um dia foi seu.

Marvin Vettori vive uma situação igualmente preocupante. A derrota para Ismail Naurdiev foi sua quinta consecutiva, levando o italiano a apenas uma vitória nas últimas sete apresentações. O último triunfo havia acontecido há três anos, contra Roman Dolidze.

Para um antigo desafiante ao cinturão dos médios, a sequência é brutal. Vettori ainda possui nome, experiência e um currículo capaz de justificar novas oportunidades, mas o MMA não costuma respeitar muito o passado quando o presente começa a acumular derrotas.

Nesse momento, a pergunta deixa de ser quando Vettori voltará a disputar o título e passa a ser se ainda existe uma versão dele capaz de competir no nível necessário para chegar novamente perto dele.

Rafael dos Anjos está diante de uma decisão ainda mais difícil

Rafael dos Anjos talvez seja o caso mais delicado entre os veteranos. O brasileiro foi campeão dos leves, disputou algumas das lutas mais importantes de sua geração e construiu uma carreira que já lhe garante um lugar relevante na história do UFC. Mas o problema é que sua última vitória aconteceu em 2022. Desde então, foram quatro derrotas consecutivas, incluindo o nocaute sofrido contra Alexander Hernandez no UFC 332.

Aos 41 anos, a questão não é mais saber se RDA ainda possui qualidade técnica. Ele possui. A questão é se seu corpo e sua capacidade de absorver dano conseguem acompanhar as exigências do MMA de alto nível.

Essa é uma diferença fundamental. Grandes campeões não necessariamente sabem o momento exato de parar. Muitos permanecem porque ainda sentem que podem competir, enquanto os resultados começam lentamente a contar uma história diferente. O problema é que, no MMA, uma sequência de derrotas não representa apenas perda de posição no ranking. Cada luta também pode cobrar um preço físico que não aparece imediatamente na estatística.

RDA precisa decidir o que pretende fazer com o restante de sua carreira. Continuar lutando pode significar buscar uma última sequência de vitórias que devolva algum sentido competitivo ao encerramento de sua trajetória. Parar agora, por outro lado, permitiria que sua carreira fosse lembrada principalmente pelo que construiu quando estava no auge.

É uma escolha pessoal, mas o UFC 332 tornou a pergunta inevitável.

(Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC)