O UFC 332 chega ao fim de semana com uma situação incomum. Wang Cong estará no evento principal em Salt Lake City, mas a própria organização parece ter dificuldade para transformar a chinesa em uma atração reconhecível pelo público. A situação ficou ainda mais evidente quando Dana White demonstrou pouco conhecimento sobre a trajetória da lutadora e chegou a confundi-la com Natália Silva ao falar com jornalistas depois da coletiva.
O episódio chama atenção porque Wang não surgiu repentinamente como uma atleta desconhecida dentro do UFC. Ela está há pouco mais de dois anos na organização, possui uma sequência de quatro vitórias e chega ao evento principal justamente em um momento no qual deveria começar a ocupar um espaço maior na estratégia de promoção. O problema é que praticamente todo esse caminho aconteceu longe dos holofotes.
Wang venceu suas quatro últimas lutas em preliminares e teve apenas uma aparição em um card principal, justamente na derrota para Gabriella Fernandes, em 2024. A organização, portanto, nunca construiu ao redor dela a imagem de uma futura protagonista. Quando surgiu a necessidade de colocar seu nome no topo do UFC 332, a organização precisou acelerar um processo que normalmente leva meses ou até anos.
Isso ajuda a explicar por que a reação de Dana White chamou tanta atenção. Mais do que uma questão sobre o conhecimento pessoal do dirigente, o episódio expõe uma dificuldade da própria estratégia de promoção do UFC: não é possível transformar instantaneamente uma lutadora de preliminar em atração principal simplesmente porque ela foi colocada no main event.
Wang Cong chegou ao topo sem que o UFC construísse sua história
O principal problema de Wang Cong não parece ser falta de resultados. A chinesa chega ao UFC 332 com quatro vitórias consecutivas e uma oportunidade de disputar um dos principais espaços de um evento da organização.
A questão é que o público não teve tempo suficiente para construir uma relação com ela. A maneira como o UFC promove seus atletas normalmente depende da repetição. Um lutador aparece em diferentes eventos, conquista vitórias, participa de lutas importantes, recebe espaço em cards principais e, gradualmente, passa a ser reconhecido pelo público. A promoção pode então explorar sua personalidade, sua história, seu estilo de luta e seus resultados para criar uma narrativa.
Esse processo não aconteceu com Wang. Sua sequência de vitórias foi construída majoritariamente nas preliminares. Em vez de ser apresentada progressivamente como uma possível protagonista, ela permaneceu em uma posição secundária até que uma combinação de circunstâncias colocasse seu nome no evento principal.
Isso cria uma contradição. O UFC quer que o público considere Wang uma atração principal porque ela está no topo do card, mas não forneceu anteriormente os mesmos mecanismos de promoção que utiliza para transformar outros atletas em nomes conhecidos. É como tentar começar uma história pelo último capítulo.
A situação também ajuda a entender por que Dana White parecia ter pouco a dizer sobre a lutadora. Se a própria organização não passou os últimos anos construindo uma narrativa ao redor dela, é natural que o público tenha dificuldade para enxergar imediatamente a importância daquela luta.
O problema, nesse sentido, não é apenas Wang Cong ser pouco conhecida. É o fato de o UFC ter participado ativamente da construção dessa falta de reconhecimento.
O UFC pode colocar qualquer luta no topo, mas não pode fabricar relevância instantaneamente
Existe uma diferença importante entre promover uma luta e simplesmente anunciá-la como o principal combate de um evento.
O UFC possui alcance suficiente para colocar praticamente qualquer atleta diante de milhões de pessoas. Porém, exposição não é automaticamente sinônimo de popularidade. Para que uma luta seja percebida como um grande acontecimento, o público precisa entender quem são os envolvidos, por que aquele combate importa e o que está em jogo para cada um.
Wang chega ao UFC 332 sem esse contexto construído ao longo do tempo. Isso não significa que a luta não tenha importância. Uma sequência de quatro vitórias é relevante, e a oportunidade de protagonizar um evento pode representar justamente o momento em que a atleta começa a construir uma posição diferente dentro da organização.
O problema está no timing da promoção. Ao invés de aproveitar o evento principal como consequência de uma trajetória já estabelecida, o UFC parece estar utilizando o evento principal como ponto de partida para apresentar Wang a um público maior.
Essa diferença pode parecer pequena, mas altera completamente a maneira como o espectador se relaciona com a luta. Quando um atleta chega ao topo depois de uma sequência de grandes combates, existe uma expectativa acumulada. Quando chega por necessidade ou oportunidade, o interesse precisa ser criado praticamente do zero.
O episódio envolvendo Dana White apenas tornou essa dificuldade mais visível. O dirigente estava consultando anotações durante a coletiva e, mesmo assim, não conseguiu apresentar uma narrativa particularmente forte sobre Wang. Para uma organização cuja força promocional sempre foi uma das maiores armas comerciais, é um sinal curioso.
Mais do que questionar se White pessoalmente conhece ou não Wang, o caso levanta uma pergunta sobre a própria máquina de promoção do UFC: por que a atleta chegou ao maior palco sem que a empresa estivesse preparada para explicar ao público por que ele deveria se importar?
Dana White virou parte da promoção do boxe ao entrar na rivalidade com Hearn
Existe uma interpretação de que a influência de Dana White representa uma ameaça para a mídia especializada em boxe e que a promoção estaria tentando substituir o papel tradicional dos jornalistas na construção da narrativa. A realidade é mais complexa do que isso
Historicamente, o UFC passou muitos anos buscando justamente o apoio da mídia tradicional. A organização queria aparecer em jornais, programas esportivos e veículos de grande alcance porque precisava aumentar sua legitimidade e conquistar pessoas que ainda não eram fãs de MMA.
Com o crescimento da internet e das redes sociais, esse cenário mudou. O UFC passou a ter canais próprios para falar diretamente com seus fãs. A necessidade de depender exclusivamente da imprensa para construir narrativas diminuiu, ao mesmo tempo em que a prioridade comercial passou a incluir uma monetização cada vez maior da base de torcedores já existente.
É nesse contexto que Dana White pode exercer uma função particularmente importante no boxe. Sua presença na promoção de Fury x Joshua não depende necessariamente de ele ser um especialista em vender aquela luta. White funciona como um gerador de atenção. A rivalidade com Eddie Hearn, as provocações e as disputas públicas ampliam a conversa para além do público tradicional do boxe.
O efeito é curioso. Quem acompanha MMA pode não ter interesse inicial em Fury x Joshua, mas pode começar a acompanhar a discussão justamente porque Dana White está envolvido. Ao mesmo tempo, quem se coloca contra White acaba encontrando em Hearn uma espécie de contraponto natural.
Os dois lados se beneficiam da disputa porque a discussão aumenta a exposição do evento. É uma estratégia promocional diferente daquela utilizada pelo UFC para construir uma estrela como Conor McGregor, por exemplo. No caso de Fury x Joshua, a própria briga entre os promotores se transforma em parte do produto.
No fim, o contraste entre esses dois episódios é interessante. Wang Cong chega ao evento principal do UFC 332 precisando que o público descubra quem ela é, enquanto Dana White participa de uma promoção de boxe que já possui dois dos maiores nomes da modalidade e ainda consegue ampliar a conversa simplesmente por se colocar no centro da disputa.
A questão, portanto, não é apenas saber se Wang Cong merece estar no topo do card. O ponto é entender como uma atleta chega até lá e quanto trabalho foi feito para que o público reconheça a importância daquele momento.
O UFC tem uma capacidade enorme de criar estrelas, mas esse processo não acontece apenas colocando um lutador no main event. É preciso construir uma história, apresentar o atleta, criar familiaridade e dar ao público motivos para acompanhar sua evolução.
Wang agora terá a oportunidade de transformar o UFC 332 justamente no início dessa construção. Mas, se a organização quiser que ela seja percebida como uma protagonista no futuro, precisará fazer muito mais do que simplesmente colocá-la novamente em um card principal.
(Foto: Getty Images)



