Stan Wawrinka
Tenis

Stan Wawrinka foi desrespeitado pela organização do Masters de Roma, e isso é inaceitável

A saída de Stan Wawrinka do Masters 1000 de Roma não deveria ter sido apenas mais uma nota de rodapé em uma semana movimentada do circuito. Mas foi exatamente isso que aconteceu. Sem convite, obrigado a disputar o qualifying e, por fim, saindo antes da rodada decisiva, o suíço encerrou sua trajetória em Roma de forma discreta, quase burocrática. Para um jogador do seu calibre, isso diz mais sobre a organização do torneio do que sobre seu momento esportivo.

Wawrinka não é apenas mais um veterano em fim de carreira. Trata-se de um tricampeão de Grand Slam, ex-top 3 do mundo e finalista justamente em Roma. Sua relação com o saibro italiano é grande e faz parte da história recente do torneio. Ignorar esse contexto ao definir os convites para a chave principal não é apenas uma escolha técnica discutível, é uma decisão que revela falta de sensibilidade da instituição.

As “regras dos convites em Roma não podem passar por cima da história

O argumento mais comum para a distribuição de wildcards costuma girar em torno de dois eixos: fomentar talentos locais ou atrair nomes midiáticos. Wawrinka se encaixa, de alguma forma, nos dois. Ainda que não seja italiano, seu nome carrega peso histórico e reconhecimento global. Em um torneio que tenta manter relevância no calendário pré-Roland Garros, abrir espaço para um jogador desse porte seria não apenas justificável, mas estratégico.

Ao optar por deixá-lo fora da chave principal, a organização transferiu o risco para o qualifying. E esse é o segundo problema. Exigir que um atleta de 40 anos, em sua temporada final, percorra um caminho mais longo e fisicamente exigente é, no mínimo, um cálculo pouco cuidadoso. Não se trata de paternalismo, mas de compreender o contexto. Wawrinka ainda compete em bom nível, e sua vitória sobre Stefano Travaglia prova isso. No entanto, ele já não possui a mesma capacidade de recuperação de anos atrás.

O desfecho era previsível: desgaste acumulado e retirada antes da última rodada classificatória. Com isso, o torneio perde duplamente. Primeiro, porque afasta um nome relevante da chave principal. Segundo, porque frustra o público que poderia ter assistido a uma última apresentação do suíço no palco principal do Foro Italico.

A entrada de Pablo Carreño Busta como lucky loser é parte do regulamento e não deve ser questionada. Mas o fato de essa vaga surgir justamente após a saída de Wawrinka reforça a sensação de oportunidade desperdiçada. O sistema funcionou, mas o planejamento falhou.

O contraste fica ainda mais evidente quando se olha para o passado. Em 2008, um jovem Wawrinka fez campanha memorável em Roma, derrotando nomes como Andy Murray e Andy Roddick até chegar à final contra Novak Djokovic. Aquela trajetória não apenas o colocou no mapa do circuito, mas também ajudou a moldar sua carreira. Roma foi, naquele momento, um palco de afirmação.

Quase duas décadas depois, o mesmo torneio não conseguiu oferecer o espaço para uma despedida à altura. E isso levanta uma questão mais ampla: até que ponto os grandes eventos estão preparados para lidar com o fim de ciclo de seus protagonistas?

Wawrinka foi desrespeitado em um momento crucial do tênis

Com a saída gradual de nomes históricos, cada despedida ganha peso narrativo. Não se trata apenas de resultados, mas de memória, legado e conexão com o público. Torneios que ignoram esse aspecto correm o risco de se tornarem frios, excessivamente técnicos, desconectados da dimensão emocional do esporte.

No caso de Wawrinka, a crítica não é sobre privilégio, mas sobre reconhecimento. Convites não são apenas ferramentas competitivas, são também instrumentos para respeitar os veteranos. Servem para contar histórias, celebrar trajetórias e aproximar o público do espetáculo. Ao não utilizar esse recurso para um jogador em sua última temporada, o Aberto de Roma perdeu a chance de construir um momento grande.

Por fim, existe uma ironia inevitável. Enquanto o tênis discute formas de valorizar sua história e seus ídolos, situações como essa mostram uma desconexão entre discurso e prática. Wawrinka não precisava de um favor, precisava apenas de um reconhecimento proporcional ao que construiu.

Sua despedida em Roma não foi marcada por uma última batalha em quadra central, nem por aplausos prolongados. Foi silenciosa, quase invisível. E, nesse caso, o silêncio diz muito.

(Foto: Getty Images)