A conquista da Copa do Mundo de 2002 marcou o auge da Seleção Brasileira no século XXI. Comandada por Felipão, e liderada por um trio ofensivo de outro planeta, Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo, o Brasil encantou o mundo com talento, improviso e eficiência. Era o quinto título mundial e, para muitos, a confirmação de que a fórmula brasileira de futebol arte ainda era soberana.
Mas, na prática, aquela conquista representou um ponto de virada. Enquanto o Brasil celebrava, o resto do mundo, especialmente a Europa, já se movimentava para transformar o futebol. Não seria mais um jogo apenas de craques. Seria um jogo de sistema. Um jogo de ideias. E a partir dali, o futebol europeu tomaria o protagonismo global, deixando o Brasil para trás, preso a uma nostalgia do passado que já não bastava para vencer.
Os sistemas táticos europeus tomam conta
Entre 2006 e 2014, o domínio europeu se consolidou com três títulos mundiais consecutivos, cada um representando uma escola tática distinta e avançada:
Em 2006, a Itália venceu com um Catenaccio moderno. Ao contrário da versão original e ultra-defensiva dos anos 60, esse novo modelo era mais adaptável, mais inteligente. A seleção italiana daquele ano era equilibrada, com uma defesa sólida, transições rápidas e um jogo coletivo refinado. Era uma equipe que sabia sofrer, sabia se fechar, mas também sabia atacar com qualidade. O título foi conquistado mais com inteligência tática do que com brilho técnico.
Em 2010, foi a vez da Espanha impor sua filosofia. O famoso Tiki-Taka, criado por Luís Aragones e desenvolvido no Barcelona de Guardiola, foi a base da seleção campeã. Um jogo de posse curta, paciência extrema e ocupação racional dos espaços. A Espanha sufocava os adversários não com força física ou velocidade, mas com controle absoluto da bola. Era um futebol cerebral, que impunha domínio psicológico e tático.
Em 2014, a Alemanha atropelou. E o verbo não é exagero: o 7 a 1 sobre o Brasil simbolizou um abismo de organização e planejamento. A equipe alemã, liderada por Joachim Löw, aplicava conceitos modernos como Gegenpressing (pressão imediata após a perda da bola), modelo alemão criado e desenvolvido por Ralf Rangnick. Era um time treinado para agir como um organismo coeso. O massacre em Belo Horizonte foi mais do que um resultado: foi um alerta de que o futebol brasileiro estava, de fato, defasado.
Enquanto isso, o Brasil seguia acreditando que o talento individual seria suficiente. As comissões técnicas continuavam presas a conceitos antiquados. A base ignorava o ensino tático. As categorias de formação priorizavam a venda, mas esqueciam da compactação, da leitura de espaços, da pressão coordenada, da ocupação racional do campo. O discurso seguia romântico, mas os resultados não acompanhavam.
A derrota de 2014 não foi suficiente para mudar o rumo. Nem mesmo a eliminação para a Bélgica em 2018, com um Brasil desorganizado em campo, serviu como catalisador. A estrutura do futebol brasileiro continuava resistindo à modernização. Ainda havia desconfiança com termos como “linha alta”, “zonas de pressão” ou “fase defensiva em bloco médio”.
A “revolução tática” brasileira
Foi apenas em 2019, com a chegada de Jorge Jesus ao Flamengo, que o Brasil teve um choque de realidade. O treinador português implantou, em poucos meses, um modelo europeu de futebol moderno. O Flamengo daquele ano jogava com linhas compactas, amplitude ofensiva, pressão pós-perda, triangulações laterais — tudo o que os clubes de elite da Europa já praticavam há anos. E deu certo: venceu a Libertadores e o Campeonato Brasileiro com autoridade.
A resposta foi imediata. O torcedor, que sempre valorizou o talento acima de tudo, passou a entender o valor da organização. O futebol brasileiro foi forçado a admitir: tática importa, e muito. Daí em diante, nomes como Fernando Diniz começaram a ganhar espaço. Diniz, pioneiro do jogo “aposicional”, faz um contraponto com o estilo posicional que é famoso no mundo inteiro. No entanto, assim como qualquer pioneiro, ele demorou para colher os frutos, e até hoje é ridicularizado por seu estilo.
No entanto, esse estilo de jogo já foi exportado para os europeus, e nomes como Thiago Motta, Hansi Flick e Simone Inzaghi já seguem, em seu próprio estilo, o futebol onde os espaços não são definidos e as posições não são marcadas. É o futebol do futuro, que surgiu no Brasil, mas está sendo desenvolvido na Europa. Aqui, apenas Filipe Luís segue um estilo aposicional na elite do futebol brasileiro, um forte indício do atraso do pensamento tático do país.
A falta da identidade tática brasileira
Esse movimento culminou, anos depois, com uma decisão simbólica: a seleção brasileira passou a considerar um treinador estrangeiro. Jorge Jesus, o mesmo que impactou o Flamengo, agora está perto de ser escolhido para liderar a equipe nacional rumo à Copa de 2026. Mas isso, em vez de solução, expõe o vazio.
O Brasil não desenvolveu uma identidade tática própria. Em vez disso, optou por importar uma. Jorge Jesus representa competência, mas também representa o reconhecimento implícito de que a escola brasileira fracassou em evoluir. Não houve investimento coordenado em formação de técnicos, estruturação de categorias de base ou definição de uma filosofia nacional. O que há, hoje, é uma tentativa de colar uma peça estrangeira num sistema falho.
A Copa de 2026 se aproxima, e o Brasil chega sem identidade tática, sem filosofia própria, e apostando novamente no talento individual, sendo que agora aliado a uma estrutura importada. Pode até dar certo. Mas, se der, não será mérito de um projeto brasileiro. Será o sucesso de um transplante europeu no corpo do futebol nacional.
A verdade é dura: o Brasil parou no tempo. E agora, tenta correr atrás copiando os outros.
(Foto: Divulgação/Al-Hilal)