A Premier League vive uma realidade muito semelhante, talvez até a mesma do que o Brasileirão costuma passar com a Libertadores. Muito se fala sobre os times aparentarem estar mais cansados, quando os compromissos do futebol nacional batem em sua porta, algo que não tende a ocorrer com tanta frequência, nas vezes que a música da Champions League toca na hora do hino com os profissionais enfileirados para o jogo.
A principal questão dessa conversa, é que ela realmente foi comprovada neste último fim de semana.
Chelsea e Arsenal, recém-saídos de vitórias épicas na Champions League, se arrastaram num 1 a 1 cheio de passes tortos em Stamford Bridge pela Premier League. Crystal Palace, Tottenham e Nottingham Forest também passaram por péssimos bocados, perdendo para adversários “descansados” como Fulham, Manchester United e Brighton.
Mas será que isso tudo significa que as competições internacionais realmente bagunçam a vida dos times da Premier League? Ou estamos diante de mais um mito do futebol moderno?
A montanha-russa europeia da temporada
Entre as nove equipes inglesas disputando competições europeias, apenas Liverpool e Newcastle conseguiram vencer bem suas partidas na Premier League, seguintes aos compromissos internacionais nesta última rodada. O Manchester City precisou de gol nos acréscimos contra o Leeds, e o Aston Villa sofreu para bater o lanterna Wolves.
Se a gente olha só para o fim de semana, parece que a lenda está viva. Mas quando analisamos o andamento da temporada, a história começa a ficar bem menos óbvia.
Crystal Palace, Nottingham Forest, Liverpool, Chelsea e Arsenal realmente têm aproveitamento mais baixo na Premier League logo depois de seus compromissos internacionais. Mas o efeito contrário ocorre com City, Spurs, Newcastle e Villa, que melhoram o desempenho quando chegam embalados de viagens e jogos internacionais.
Isso já bagunça toda a narrativa, né?
Crystal Palace e o pesadelo pós-Europa
O caso mais gritante é o do Crystal Palace. O time simplesmente anda despencando na Premier League depois de seus jogos europeus. Foram só 0,8 ponto por jogo nessas circunstâncias, contra 2,1 pontos nas outras partidas.
Para ficar mais claro: o Palace parece um time de G4 quando está “descansado” e quando dá meia noite, vira um time que tenta se segurar em tudo, para não conhecer o rebaixamento.
O impacto negativo é o segundo maior da Premier League desde a temporada 2010/11. Pior que isso, só o Burnley de 2018/19, e olha que aquele Burnley esteve bem distante de fazer algo de interessantes nos compromissos europeus, então, é necessário prestar mais atenção nesta realidade dos Eagles. Ainda mais ao lembrar, que se tratavam do último time invicto no Campeonato Inglês.
E por quê? Segundo Oliver Glasner, é simples: falta elenco, peças, jogadores, material bruto, contratações…
Ele não poupou ninguém na coletiva após a derrota para o United:
“Sabíamos do calendário. Sabíamos da Copa Africana. E mesmo assim não reforçamos o elenco. Quando você joga pela primeira vez competições europeias na história do clube… você investe. Nós economizamos.”
Com poucos jogadores de confiança, o Palace é o time que menos faz rotações na Premier League. E aí, meu amigo… as pernas começam a pesar.
Aston Villa ensina como atuar internacionalmente sem cair na Premier League
Enquanto isso, o Aston Villa vai na direção contrária. O time de Unai Emery tem o maior ganho de desempenho pós-Europa já registrado: venceu todas as cinco partidas na Premier League imediatamente depois de seus jogos da Europa League. Parece que entenderam como funciona as coisas, ou melhor, talvez estejam escolhendo seus lados de uma forma mais interessante.
O curioso? Quando disputou a Champions e a Conference League, o Villa penava exatamente como o Palace hoje. Só venceu quatro das onze partidas pós-Europa.
Mas a experiência acumulada, e um técnico especialista em noites europeias fez a diferença. Emery passou a rodar mais o elenco na Premier League, e nas outras competições, dividindo responsabilidades e fazendo ajustes nos treinos. Resultado: o Villa está mais inteiro que nunca, dentro e fora da Inglaterra.
Newcastle também entra na lista positiva, registrando o terceiro maior salto de desempenho pós-Champions League na Premier League desde 2010/11. Nada mal para um elenco que ainda está aprendendo a lidar com o novo patamar.
Afinal… mito ou realidade na Premier League?
Casos como Palace e Villa fazem parecer que estamos diante de uma montanha-russa maluca, tanto na Premier League quanto na Champions, Europa League, Conference… Mas quando analisamos os mais de dez anos de dados, a conclusão é surpreendente:
Times da Premier League somam, em média, 1,76 ponto após jogos europeus, contra 1,79 nas outras partidas.
Ou seja: praticamente igual.
A “maldição europeia” existe para alguns clubes, sim, principalmente os que chegam despreparados, com elencos curtos ou treinadores incapazes de girar a equipe. Mas para outros times, jogar na Europa é impulso, não peso.
O grande segredo? Não é glamour, não é orçamento milionário. É gestão de elenco.
E, ao que tudo indica, competir na Europa não atrapalha a Premier League. Mas competir sem planejamento… aí sim vira problema.
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