Escócia está a apenas um jogo de transformar décadas de frustração em uma das maiores histórias desta Copa do Mundo. Depois de sobreviver a um confronto dramático contra o Haiti e conquistar uma vitória que manteve vivo o sonho da classificação, a seleção comandada por Steve Clarke agora encara um desafio ainda maior: parar uma seleção marroquina que chega embalada, confiante e apontada como uma das equipes mais perigosas do torneio.
A atmosfera ao redor dos escoceses é de puro entusiasmo. A torcida tomou conta das ruas de Boston nos últimos dias, transformando a cidade americana em uma espécie de extensão de Glasgow ou Edimburgo. Em bares, praças e arredores do estádio, o famoso Tartan Army fez o que sabe fazer de melhor: cantar, celebrar e acreditar. Mas agora chega o momento em que a empolgação precisa dar lugar ao desempenho dentro das quatro linhas.
A partida contra Marrocos representa muito mais do que apenas mais um jogo da fase de grupos. Dependendo dos resultados, um empate pode ser suficiente para levar a Escócia ao mata-mata de uma grande competição internacional pela primeira vez em sua história. Até mesmo uma derrota apertada pode manter os escoceses vivos na disputa entre os melhores terceiros colocados.
O cenário é promissor. O adversário, porém, é assustador.
A vitória da Escócia sobre Haiti trouxe alívio, mas também um alerta
A classificação ainda é possível graças ao triunfo conquistado sobre o Haiti no último fim de semana. O resultado foi comemorado como uma final pela torcida escocesa, mas a atuação deixou claro que a equipe precisará elevar seu nível para competir contra Marrocos.
O jogo esteve longe de ser tranquilo.
A Escócia contou com um gol decisivo que teve participação da sorte, escapou de um possível pênalti após toque de mão de Grant Hanley dentro da área e ainda precisou agradecer por uma cabeçada perigosa de Frantzdy Pierrot que passou rente à trave nos minutos finais.
Nada disso tira os méritos da vitória. Pelo contrário. Em torneios longos, sobreviver a partidas difíceis costuma ser uma característica comum entre equipes competitivas.
O problema é que depender novamente desse tipo de roteiro contra Marrocos parece uma aposta extremamente arriscada.
Marrocos chega como uma das seleções mais impressionantes do torneio
Se a Escócia sofreu para superar o Haiti, Marrocos vem de uma atuação que chamou a atenção do mundo inteiro contra o Brasil.
O empate por 1 a 1 não conta toda a história do jogo. Durante boa parte da partida, os marroquinos controlaram as ações e criaram dificuldades enormes para uma seleção brasileira recheada de estrelas.
Nos primeiros 30 minutos, por exemplo, Marrocos finalizou 12 vezes. A equipe movimentou a defesa brasileira constantemente e mostrou uma combinação de velocidade, criatividade e intensidade que explica por que muitos especialistas a consideram uma das forças emergentes do futebol mundial.
O gol marcado por Ismael Saibari resumiu perfeitamente essa qualidade técnica. A jogada começou com um passe preciso de Brahim Díaz entre Gabriel e Marquinhos, dois defensores acostumados a enfrentar os melhores atacantes do planeta. Na sequência, Saibari aplicou uma finalização por cobertura que deixou Alisson sem qualquer chance.
Foi um lance que misturou inteligência, precisão e talento. Tudo aquilo que a Escócia tentará neutralizar.
A nova joia do torneio pode causar problemas
Toda Copa do Mundo costuma revelar novos talentos, e poucos jogadores estão chamando tanta atenção quanto Ayyoub Bouaddi.
Aos apenas 18 anos, o meio-campista marroquino aparece como uma das grandes revelações da competição. Contra o Brasil, sua atuação foi tão impactante que Carlo Ancelotti precisou mexer no time ainda no intervalo para tentar conter o domínio exercido pelo jovem.
Bouaddi já carregava enorme reputação antes mesmo do Mundial. Ele estreou em competições europeias aos 16 anos e se tornou o jogador mais jovem a atuar na elite do futebol francês durante o século XXI.
Agora, está aproveitando o palco global para mostrar por que vários gigantes europeus acompanham sua evolução de perto.
Para uma seleção escocesa que já encontrou dificuldades na construção defensiva diante do Haiti, controlar Bouaddi será uma missão fundamental.
Hakimi lidera uma geração talentosa
Embora Bouaddi esteja atraindo os holofotes, o principal nome de Marrocos continua sendo Achraf Hakimi.
O lateral do Paris Saint-Germain é considerado por muitos um dos melhores jogadores do mundo em sua posição. Sua capacidade de apoiar o ataque, acelerar transições e criar superioridade numérica faz dele uma arma constante.
Boa parte das jogadas ofensivas marroquinas passa pelos pés do defensor, que já conquistou títulos importantes por clubes como Inter de Milão e PSG. Mas Hakimi não está sozinho.
Marrocos possui uma geração extremamente talentosa formada por jogadores espalhados por alguns dos principais centros do futebol europeu. Muitos nasceram em países como França, Espanha, Bélgica e Holanda, mas mantêm forte ligação com suas raízes marroquinas.
O resultado é uma equipe multicultural, tecnicamente qualificada e cada vez mais competitiva no cenário internacional.
Os líderes da Escócia precisam aparecer
Se existe uma boa notícia para Steve Clarke, é que alguns dos principais jogadores da Escócia ainda parecem ter margem para crescer no torneio.
Scott McTominay, principal referência da equipe, correu praticamente o campo inteiro contra o Haiti e esteve entre os atletas que mais percorreram quilômetros na rodada. Mesmo assim, sua influência técnica ficou abaixo do habitual.
O mesmo pode ser dito de John McGinn. Apesar de ter deixado sua marca, o meio-campista não conseguiu controlar o ritmo da partida da forma como costuma fazer.
Contra Marrocos, isso precisa mudar.
A sensação é que a Escócia sobreviveu ao primeiro grande teste da competição sem apresentar sua melhor versão. Em alguns momentos, isso pode ser visto como um sinal positivo. Afinal, vencer mesmo jogando abaixo do ideal costuma fortalecer a confiança de qualquer grupo.
Por outro lado, o próximo adversário dificilmente permitirá tantos erros.
Tudo indica que Steve Clarke deve reforçar o meio-campo para conter a intensidade marroquina e tentar equilibrar a posse de bola. A ideia não será apenas se defender. A Escócia sabe que passar 90 minutos encurralada provavelmente acabará em desastre.
O desafio é enorme. Talvez seja o maior que esta geração já enfrentou vestindo a camisa da seleção. Mas também é exatamente o tipo de ocasião que pode transformar jogadores em lendas nacionais. Se a Escócia conseguir superar Marrocos e alcançar o mata-mata pela primeira vez em sua história, a festa iniciada em Boston ganhará proporções que nem os torcedores mais otimistas ousavam imaginar antes do início desta Copa do Mundo.
Foto: Getty Images