Vinícius Júnior deixou o gramado do MetLife Stadium com as mãos na cintura e o olhar perdido. A cena dizia muito mais do que qualquer estatística. Enquanto o brasileiro tentava entender mais uma eliminação precoce da Seleção, Erling Haaland comemorava uma atuação decisiva que colocou a Noruega, pela primeira vez na história, nas quartas de final de uma Copa do Mundo.
O placar de 2 a 1 para os noruegueses escancarou uma realidade difícil de ignorar: hoje, o problema do Brasil não é a falta de um craque. O problema é que nem mesmo um dos melhores jogadores do planeta consegue carregar sozinho uma equipe cheia de desequilíbrios.
E talvez esse seja o maior contraste entre Brasil e Noruega neste Mundial. Enquanto os europeus montaram uma seleção que potencializa seu principal astro, a Seleção Brasileira parece insistir em desperdiçar os melhores anos de Vinícius Júnior.
Vinícius fez tudo o que podia…
É difícil apontar o dedo para o camisa 7 depois do que ele apresentou ao longo da competição.
Contra a Noruega, Vinícius participou praticamente de todas as principais jogadas ofensivas do Brasil. Logo no início da partida, foi ele quem sofreu o pênalti e entregou a bola para Bruno Guimarães abrir o placar. O volante, porém, desperdiçou a cobrança ao parar na defesa do goleiro adversário.
Pouco depois, veio talvez o lance mais bonito do brasileiro na partida.
Com uma trivela precisa em velocidade, Vinícius deixou Endrick completamente livre diante do goleiro. Era uma assistência praticamente pronta. O atacante, entretanto, finalizou mal e desperdiçou uma oportunidade clara de colocar a Seleção em vantagem.
Enquanto isso, do outro lado do campo, o camisa 7 apenas observava Haaland aproveitar praticamente todas as chances que apareceram.
Como se não bastasse, o sistema defensivo brasileiro ainda colaborou para a derrota. Gabriel acabou sendo superado pelo centroavante norueguês em um dos lances decisivos da partida, permitindo que Haaland praticamente encaminhasse a classificação histórica da Noruega.
No fim, Vinícius saiu derrotado mais uma vez, mesmo sendo um dos poucos jogadores brasileiros que realmente corresponderam às expectativas.
A velha narrativa volta a aparecer
Existe uma crítica que acompanha Vinícius Júnior desde que estreou pela Seleção.
Sempre que veste a camisa amarela, muitos insistem em dizer que ele está abaixo do que apresenta no Real Madrid. Para parte da torcida, o protagonista das conquistas europeias simplesmente desaparece quando representa o Brasil.
Os números ajudam a alimentar esse discurso.
Antes desta Copa do Mundo, Vinícius havia marcado apenas oito gols em 47 partidas pela Seleção. Na Copa América de 2024, por exemplo, balançou as redes apenas duas vezes e acabou suspenso justamente nas quartas de final, quando o Brasil foi eliminado nos pênaltis.
Só que analisar apenas as estatísticas é contar apenas metade da história.
Durante boa parte de sua trajetória pela Seleção, Vinícius precisou atuar em equipes instáveis, com trocas constantes de treinadores, pouca organização tática e um elenco que raramente conseguia potencializar suas principais características.
Na prática, muitas vezes parecia um jogador tentando resolver tudo sozinho.
A melhor Copa da carreira… e mesmo assim insuficiente
Se havia alguma dúvida sobre o desempenho de Vinícius com a camisa da Seleção, ela praticamente desapareceu nesta Copa.
O atacante chegou ao torneio extremamente motivado. Inclusive, antecipou sua apresentação ao Brasil antes mesmo do encerramento da temporada pelo Real Madrid para participar de toda a preparação comandada por Carlo Ancelotti.
O resultado apareceu rapidamente.
Ainda nos amistosos preparatórios, marcou um gol e deu uma assistência diante do Panamá. Depois, manteve o ritmo durante toda a Copa.
Na estreia, marcou o único gol brasileiro contra Marrocos. Na vitória por 3 a 0 sobre o Haiti, participou diretamente de dois gols, balançando as redes uma vez e distribuindo uma assistência. Contra a Escócia, brilhou novamente ao marcar dois gols.
Ao chegar às oitavas de final, Vinícius somava cinco gols, apenas um a menos que Haaland na disputa pela artilharia do torneio.
Mesmo assim, não foi suficiente para manter o Brasil vivo. E talvez esse seja justamente o ponto mais preocupante.
Nem uma versão extremamente inspirada de Vinícius conseguiu esconder as limitações coletivas da equipe.
Haaland mostra que um craque precisa de ajuda
Se Vinícius parecia carregar um piano nas costas, Haaland viveu um cenário completamente diferente. Durante boa parte da partida, o atacante norueguês praticamente não apareceu. Mas bastou o jogo oferecer duas oportunidades para que ele decidisse tudo.
Com dois gols, garantiu a classificação inédita da Noruega para as quartas de final e chegou aos sete gols na Copa do Mundo, igualando Lionel Messi e Kylian Mbappé na disputa pela Chuteira de Ouro. A diferença, porém, vai muito além dos números.
A Noruega sabe exatamente como explorar as características do seu principal jogador. Todo o sistema ofensivo trabalha para criar espaços, acelerar as transições e colocar Haaland nas melhores condições possíveis para finalizar.
É um projeto coletivo construído em torno do seu maior talento. O Brasil, por outro lado, ainda parece buscar uma identidade.
O problema da Seleção vai muito além de Vinícius
É tentador colocar a culpa apenas em Carlo Ancelotti, em Casemiro ou até mesmo em alguns jogadores que tiveram desempenho abaixo do esperado.
Mas a eliminação revela problemas muito mais profundos.
Os laterais pouco produziram durante toda a competição. O meio-campo sofreu para proteger a defesa e também encontrou enormes dificuldades na construção das jogadas. Já o ataque, apesar do enorme talento disponível, viveu uma sequência de atuações inconsistentes.
Nesse contexto, Vinícius acabou novamente sendo obrigado a fazer muito mais do que deveria.
Nenhum jogador do mundo consegue vencer uma Copa sozinho.
Nem Lionel Messi fez isso em 2022. Nem Cristiano Ronaldo conseguiu durante sua carreira. E nem Haaland pisaria nas quartas de final se a Noruega não tivesse construído uma equipe sólida ao seu redor.
O Brasil corre o risco de repetir a história de Neymar
A eliminação de 2026 deixa um alerta importante para o futebol brasileiro.
A Seleção possui um dos melhores jogadores do planeta em seu elenco, mas continua sem oferecer uma estrutura capaz de transformar talento individual em títulos.
O roteiro lembra bastante o que aconteceu com Neymar durante boa parte de sua trajetória vestindo a amarelinha.
Por anos, o camisa 10 foi cobrado como se tivesse obrigação de resolver sozinho problemas estruturais da equipe. Agora, Vinícius Júnior parece caminhar pelo mesmo caminho.
Ainda há tempo para corrigir a rota antes da Copa de 2030. O Brasil continua formando jogadores talentosos, especialmente no setor ofensivo. Porém, se não encontrar equilíbrio coletivo, fortalecer o meio-campo e definir uma identidade de jogo, corre o risco de olhar para trás daqui a alguns anos e perceber que desperdiçou mais uma geração brilhante.
E, dessa vez, nem o melhor Vinícius Júnior foi suficiente para evitar que essa sensação começasse a tomar forma.

