Durante anos, Vinícius Júnior ouviu a mesma crítica. Enquanto encantava o mundo com a camisa do Real Madrid, suas atuações pela Seleção Brasileira pareciam ficar sempre abaixo da expectativa. Para muitos torcedores, faltava ao camisa 7 repetir com o Brasil o protagonismo que demonstrava semanalmente na Espanha.
A Copa do Mundo de 2026, porém, está mudando completamente essa narrativa.
Depois de conviver com cobranças pesadas, comparações com Neymar e questionamentos sobre sua capacidade de decidir em grandes jogos pela Seleção, Vinícius finalmente encontrou sua melhor versão vestindo a amarelinha. Com quatro gols e uma assistência nas quatro primeiras partidas do Mundial, o atacante não apenas assumiu o protagonismo da equipe de Carlo Ancelotti, como também entrou definitivamente na disputa pela Chuteira de Ouro da competição.
Mais do que os números, o que chama atenção é a naturalidade com que Vinícius passou a decidir partidas. Aquela pressão que parecia acompanhá-lo em torneios anteriores simplesmente desapareceu.
Da joia do Flamengo ao estrelato mundial
A trajetória de Vinícius Júnior até o topo do futebol sempre foi cercada por grandes expectativas.
Revelado pelo Flamengo, o atacante chamou atenção ainda muito jovem por sua velocidade, capacidade no drible e personalidade. Não demorou para que os gigantes europeus iniciassem uma verdadeira corrida por sua contratação.
Quem venceu essa disputa foi o Real Madrid.
Em 2017, quando tinha apenas 16 anos, Vinícius foi negociado por cerca de 38 milhões de libras, tornando-se, na época, a segunda maior venda da história do futebol brasileiro, atrás apenas de Neymar.
O investimento parecia enorme para um adolescente.
Hoje, parece até barato.
Desde sua chegada ao Santiago Bernabéu, Vinícius construiu uma carreira digna de um dos maiores jogadores de sua geração. São 77 gols e 41 assistências em 242 partidas de La Liga, além de uma coleção de títulos que inclui três Campeonatos Espanhóis, duas Copas do Rei e duas Ligas dos Campeões.
Nas duas finais europeias que disputou, contra Liverpool e Borussia Dortmund, marcou gols decisivos e confirmou sua fama de jogador que aparece quando o palco é grande.
Faltava apenas transportar esse desempenho para a Seleção Brasileira.
A cobrança sempre foi muito maior com a camisa do Brasil
Se no Real Madrid Vinícius rapidamente conquistou o carinho da torcida, pela Seleção o caminho foi bem diferente.
O atacante frequentemente era apontado como um jogador incapaz de reproduzir seu melhor futebol vestindo a camisa verde e amarela. A expectativa também era enorme.
Com Neymar sofrendo constantemente com lesões e já entrando na reta final da carreira, muitos acreditavam que Vinícius naturalmente assumiria o posto de principal referência técnica da Seleção.
Isso, porém, demorou para acontecer.
O jornalista Marcus Alves, especialista em futebol brasileiro, resumiu bem esse sentimento ao afirmar que a expectativa era ver Vinícius já consolidado como o grande nome da Seleção quatro anos após a eliminação para a Croácia na Copa de 2022.
As dúvidas, entretanto, permaneceram.
Os números justificavam parte das críticas
As cobranças não surgiram por acaso.
Antes da atual Copa do Mundo, Vinícius havia participado de três grandes competições pela Seleção — Copa América de 2021, Copa do Mundo de 2022 e Copa América de 2024.
Nesse período, somou apenas três gols e duas assistências em 617 minutos disputados.
Seu primeiro gol pelo Brasil, inclusive, demorou bastante para acontecer.
O atacante só conseguiu balançar as redes pela primeira vez em sua 19ª partida com a camisa da Seleção, durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, diante do Chile.
Mesmo considerando todos os jogos disputados antes do Mundial de 2026, seu desempenho ainda era visto como discreto.
Em 49 partidas pela Seleção, Vinícius participava, em média, de um gol a cada dois jogos, um índice considerado abaixo do esperado para um jogador frequentemente apontado entre os melhores do planeta.
As críticas aumentavam justamente porque a diferença em relação ao desempenho no Real Madrid era muito evidente.
A Copa de 2026 mudou completamente esse cenário
Se havia alguma dúvida sobre Vinícius na Seleção, ela começa a desaparecer nesta Copa do Mundo.
O atacante simplesmente assumiu a responsabilidade de liderar o Brasil ofensivamente.
Em apenas quatro partidas, já soma quatro gols e uma assistência, desempenho que o coloca entre os principais artilheiros da competição.
Até o momento, apenas Kylian Mbappé (6), Lionel Messi (6), Erling Haaland (5) e Harry Kane (5) marcaram mais gols no torneio.
Mais impressionante do que os gols são os indicadores de desempenho.
Vinícius lidera toda a Copa em gols esperados (xG), com 3,87, mostrando que constantemente consegue aparecer nas melhores posições para finalizar.
Também é o segundo jogador com mais finalizações certas no Mundial, tendo acertado o alvo dez vezes.
Na prática, isso significa que seu protagonismo não depende apenas da eficiência nas conclusões. Ele está criando oportunidades o tempo inteiro.
A principal arma continua sendo o drible
Quem acompanha Vinícius desde o início da carreira sabe que sua maior característica nunca foi apenas a velocidade.
O diferencial sempre esteve na forma como conduz a bola.
Poucos jogadores conseguem atacar espaços em alta velocidade mantendo tanto controle sobre a posse quanto o brasileiro.
Os números ajudam a explicar isso.
Desde sua estreia pelo Real Madrid, apenas Kylian Mbappé participou de mais finalizações após conduções de bola entre todos os jogadores das cinco principais ligas europeias.
Vinícius soma impressionantes 441 participações em finalizações originadas após arrancadas com a bola dominada.
Na Liga dos Campeões, ele lidera esse fundamento com ampla vantagem. Na atual Copa do Mundo, essa característica voltou a aparecer.
Ao lado de Lamine Yamal, é o jogador com mais conduções que terminaram em finalização, acumulando nove ações desse tipo.
Duas delas terminaram em gol.
Além disso, ninguém entrou mais vezes conduzindo a bola para dentro da área adversária do que Vinícius, que já soma 18 infiltrações desse tipo durante o torneio.
Esses números mostram que o brasileiro não depende apenas da inspiração em um lance específico. Ele consegue repetir esse tipo de jogada durante praticamente todos os jogos.
Ancelotti encontrou a melhor versão de Vinícius
Existe outro fator importante nessa evolução.
A chegada de Carlo Ancelotti à Seleção Brasileira parece ter criado o ambiente ideal para que Vinícius jogue exatamente da forma que mais gosta.
O treinador italiano conhece o atacante melhor do que praticamente qualquer outro técnico no futebol mundial.
Foi sob seu comando no Real Madrid que Vinícius deu o salto definitivo para a elite do futebol internacional.
Agora, Ancelotti parece reproduzir esse cenário também na Seleção.
Em vez de sobrecarregar o camisa 7 com a responsabilidade de resolver todas as partidas sozinho, o treinador criou um sistema que potencializa sua principal qualidade: atacar espaços, receber em velocidade e partir para cima dos marcadores.
O resultado aparece dentro de campo. Vinícius parece muito mais leve, confiante e confortável para decidir.
O Brasil sonha alto e Vinícius virou o símbolo dessa campanha
O próximo desafio da Seleção será diante da Noruega, pelas oitavas de final da Copa do Mundo.
As projeções da Opta apontam o Brasil como favorito para avançar, enquanto as simulações ainda colocam a equipe com cerca de 9% de chances de conquistar o hexacampeonato.
Pode parecer um percentual modesto, mas ele aumenta consideravelmente se Vinícius mantiver o nível de atuação apresentado até aqui.
A verdade é que o atacante chega ao mata-mata vivendo exatamente o momento que torcedores brasileiros esperaram durante anos. Aquele jogador brilhante do Real Madrid finalmente apareceu também com a camisa da Seleção.
Se conseguir manter esse protagonismo até o fim do torneio, Vinícius Júnior não apenas poderá conduzir o Brasil rumo ao tão sonhado sexto título mundial, como também encerrará de vez um debate que o acompanhou por tempo demais: o de que brilhava apenas por clubes.
Hoje, essa discussão parece cada vez mais distante. Afinal, o camisa 7 finalmente mostrou que também sabe decidir quando carrega o peso da amarelinha.

