O Tottenham inicia a temporada 2026/27 com a expectativa de finalmente apresentar uma versão mais próxima do time idealizado por Roberto De Zerbi. Depois de assumir o comando durante a última campanha e conseguir evitar um cenário ainda mais complicado, o treinador italiano agora terá, pela primeira vez, uma pré-temporada completa para implementar sua filosofia e trabalhar o elenco de acordo com suas ideias.
A chegada de De Zerbi já provocou mudanças na identidade do clube, mas o trabalho ainda está longe de atingir seu estágio máximo. A intensidade do treinador à beira do campo e sua comunicação com os jogadores rapidamente chamaram atenção, enquanto a famosa “De Zerbi Ball” começa a ganhar espaço em Londres. Para acelerar esse processo, porém, o Tottenham decidiu investir em jogadores que conhecem ou possuem características compatíveis com o modelo do italiano.
É nesse contexto que Jan Paul van Hecke aparece como uma contratação estratégica. O zagueiro holandês foi adquirido junto ao Brighton por 52 milhões de libras e chega não apenas para fortalecer a defesa, mas também para assumir uma função importante na construção das jogadas. Aos 26 anos, ele conhece os métodos de De Zerbi e pode ajudar o Tottenham a assimilar mais rapidamente os princípios que sustentam o futebol do treinador.
Por que o estilo de De Zerbi exige tanta adaptação?
O futebol de Roberto De Zerbi costuma ser associado à posse de bola, à construção desde a defesa e à busca constante por superioridade numérica. Entretanto, executar esse modelo está longe de ser simples. Cada jogador precisa compreender quando ocupar determinado espaço, qual adversário atrair e qual movimento realizar para que o companheiro encontre uma linha de passe.
Foi justamente essa complexidade que ficou evidente durante a passagem de De Zerbi pelo Brighton. Lewis Dunk, um dos líderes da equipe, já relatou as dificuldades encontradas para assimilar os conceitos do treinador nas primeiras semanas de trabalho. A metodologia também exigiu mudanças importantes de outros jogadores que trabalharam com o italiano ao longo da carreira.
Anatoliy Trubin, que foi comandado por De Zerbi no Shakhtar Donetsk, passou por processo semelhante. O goleiro explicou que os atletas precisaram abandonar alguns conceitos aos quais estavam acostumados para compreender a nova maneira de jogar. James Milner, por sua vez, também destacou o impacto da metodologia após trabalhar com diversos treinadores importantes do futebol inglês e europeu.
Esses relatos ajudam a entender por que a implementação do modelo de De Zerbi normalmente demanda tempo. O técnico não quer apenas jogadores obedecendo a movimentos previamente determinados. A intenção é fazer com que eles compreendam a razão de cada decisão e consigam interpretar o jogo de acordo com os princípios estabelecidos pela comissão técnica.
Van Hecke pode ser uma peça-chave para o Tottenham
É justamente por já conhecer esse funcionamento que Van Hecke ganha importância no Tottenham. O defensor trabalhou com De Zerbi no Brighton e teve contato direto com os mecanismos que o treinador utiliza para construir as jogadas desde a defesa. Essa experiência pode fazer dele uma espécie de referência para os companheiros durante o processo de adaptação.
Jogadores que já conhecem uma determinada metodologia podem exercer um papel importante dentro de um novo elenco. Além de executar aquilo que o treinador pede, eles conseguem reconhecer determinadas situações durante os jogos e auxiliar os companheiros a entender como devem se posicionar ou reagir.
Van Hecke também chega ao Tottenham com uma experiência considerável na Premier League. O holandês já ultrapassou a marca de 100 partidas na competição e combina essa rodagem com características técnicas especialmente valorizadas por De Zerbi.
A questão, portanto, vai muito além da experiência defensiva. O grande diferencial está na maneira como Van Hecke participa do jogo quando o Tottenham tem a posse de bola.
Zagueiro que participa ativamente do ataque
Na última temporada, Van Hecke esteve entre os jogadores que mais realizaram passes durante ações com a bola em movimento na Premier League. O defensor também se destacou nas inversões de jogo, recurso importante para mudar rapidamente o ponto de ataque e explorar os espaços deixados pela marcação adversária.
Esse comportamento combina diretamente com aquilo que De Zerbi costuma exigir de seus zagueiros. Em vez de simplesmente procurar o passe mais seguro, os defensores precisam identificar oportunidades para quebrar linhas e fazer a equipe avançar pelo campo.
Existe, naturalmente, um risco envolvido nesse tipo de abordagem. Uma perda de bola próxima à própria área pode criar uma oportunidade perigosa para o adversário. Por isso, a qualidade técnica e a capacidade de tomar decisões rapidamente são fundamentais para que o sistema funcione.
Van Hecke demonstrou estar confortável nesse cenário. O holandês tem capacidade para encontrar passes verticais, conduzir a bola e explorar espaços que surgem à frente da primeira linha de pressão. No Tottenham, essas características podem se tornar ainda mais importantes diante da proposta de De Zerbi.
Números de Van Hecke chamam atenção
Um dos dados mais impressionantes sobre o novo reforço do Tottenham está relacionado às suas conduções em direção ao campo ofensivo. Na última temporada, Van Hecke registrou 597 ações desse tipo na Premier League, aparecendo próximo de nomes como Declan Rice, Bernardo Silva e Jeremy Doku.
A comparação mostra o quanto seu comportamento foge do estereótipo de um zagueiro tradicional. Rice participa constantemente da construção como meio-campista, Bernardo Silva é conhecido pela capacidade de controlar e criar jogadas, enquanto Doku é um atacante acostumado a avançar com a bola. Van Hecke, porém, alcançou números semelhantes atuando na última linha.
O cenário fica ainda mais interessante quando são consideradas as conduções sob pressão. O defensor registrou 315 ações desse tipo, um número que o colocou à frente dos demais zagueiros da competição com uma margem significativa.
Ao longo da temporada, Van Hecke também percorreu mais de 10 quilômetros conduzindo a bola. Os números ajudam a explicar por que seu perfil é tão adequado ao projeto que De Zerbi começa a construir no Tottenham.
Em vez de esperar que o meio-campo resolva todos os problemas da equipe, o holandês pode avançar com a bola, atrair adversários e criar espaços para que outros jogadores recebam em melhores condições. Essa dinâmica é uma das bases do futebol proposto pelo treinador italiano.
Tottenham muda o perfil de sua defesa
A contratação de Van Hecke, somada à chegada de Marcos Senesi, indica uma mudança significativa no perfil de zagueiro procurado pelo Tottenham. O clube passa a apostar em defensores que possam contribuir não apenas quando a equipe está sem a bola, mas também durante os períodos de domínio territorial.
Essa mudança é importante porque a saída de bola foi um dos aspectos que limitaram o desempenho do time em diferentes momentos. Para implementar sua filosofia, De Zerbi precisa de jogadores capazes de iniciar as jogadas com qualidade e suportar a pressão dos adversários sem abandonar os princípios estabelecidos.
No novo modelo, os zagueiros assumem uma responsabilidade maior. Eles precisam reconhecer quando acelerar, quando conduzir, quando atrair a pressão e quando encontrar um passe capaz de eliminar jogadores adversários. A defesa passa, portanto, a ser também um ponto de criação.
Para o Tottenham, essa transformação pode representar uma mudança importante na forma de controlar as partidas. A posse deixa de ser apenas uma maneira de manter a bola e passa a funcionar como instrumento para manipular o posicionamento do adversário.
Verdadeira “De Zerbi Ball” começa agora
A temporada anterior não ofereceu a De Zerbi o cenário ideal para implementar todas essas ideias. O treinador chegou no meio da campanha e precisou priorizar resultados imediatos em uma situação na qual o principal objetivo era afastar o risco de um desastre esportivo.
Agora, a realidade é diferente. O técnico participou da preparação do elenco, comandou a pré-temporada e teve tempo para trabalhar seus conceitos desde os primeiros treinamentos. O Tottenham também realizou movimentos no mercado pensando em jogadores que possam se encaixar nessa proposta.
Van Hecke simboliza essa mudança de maneira particular. Sua contratação não representa apenas a chegada de um zagueiro com experiência na Premier League, mas também a escolha de um jogador que já conhece a metodologia de De Zerbi e possui características técnicas compatíveis com ela.
Se o projeto funcionar, o Tottenham poderá apresentar uma equipe muito diferente daquela vista durante a última temporada. E, no futebol de Roberto De Zerbi, essa transformação começa justamente pelos jogadores responsáveis por iniciar as jogadas.
Van Hecke pode ser uma das peças que farão essa nova identidade sair do papel.
Foto: Getty Images Sport



