O que parecia ser apenas uma solução emergencial pode ter se transformado em uma possibilidade real para o Fluminense. Em apenas uma semana no comando da equipe, Marcão conseguiu mudar o ambiente nas Laranjeiras, recuperar a confiança do elenco e, principalmente, entregar dois resultados de enorme peso. A sequência curta já foi suficiente para fazer a diretoria olhar para o treinador de outra maneira.
Marcão assumiu o Fluminense em um cenário complicado. A saída de Luis Zubeldía aconteceu depois de uma sequência de oito partidas sem vitória, período no qual o Tricolor acumulou resultados ruins e perdeu parte da conexão com a torcida. O time precisava de uma resposta imediata, e a alternativa encontrada internamente foi apostar novamente em um profissional que conhece profundamente o clube.
A resposta veio rapidamente.
Marcão muda o ambiente e entrega resultados
Na estreia, o Fluminense encarou o Palmeiras, então líder do Campeonato Brasileiro, no Maracanã. O Tricolor conseguiu uma virada por 3 a 2, com reação nos minutos finais, e encerrou uma sequência que já incomodava internamente.
Poucos dias depois, veio o desafio ainda maior. Precisando decidir a classificação para as quartas de final da Libertadores fora de casa, o Fluminense enfrentou o Independiente Rivadavia, em Mendoza, depois do empate sem gols no Maracanã.
A partida teve todos os ingredientes para aumentar a pressão. Canobbio foi expulso no começo do segundo tempo, o Fluminense sofreu o empate depois de sair na frente e a classificação precisou ser decidida nos pênaltis.
Foi aí que apareceu outro fator importante dessa nova passagem de Marcão: a capacidade de fazer o grupo competir até o limite. O Tricolor venceu nos pênaltis por 5 a 4, com Fábio defendendo duas cobranças, e garantiu vaga nas quartas de final da Libertadores.
Em apenas dois jogos, Marcão saiu de uma solução provisória para alguém que passou a ser discutido como uma possibilidade.
Diretoria ganha tempo para decidir
A situação mudou também para a direção do Fluminense. Antes, a prioridade parecia ser encontrar rapidamente um treinador capaz de assumir o time depois da saída de Zubeldía. Agora, com Marcão conseguindo resultados imediatamente, o clube ganhou algo precioso: tempo.
A diretoria pode observar o mercado com mais calma e, ao mesmo tempo, acompanhar o trabalho do interino antes de tomar uma decisão definitiva. E esse talvez seja o principal motivo para a efetivação ter começado a entrar no debate.
Marcão não precisa convencer apenas a torcida. Ele precisa convencer quem está dentro do clube de que consegue sustentar o trabalho por mais tempo. E, neste primeiro teste, a resposta foi positiva.
O treinador também conta com uma vantagem que nenhum nome contratado no mercado teria: conhece o elenco, conhece a estrutura e tem relação construída com jogadores e funcionários. Isso ficou evidente na postura dos atletas durante os dois primeiros jogos.
Mais do que mudar uma ou outra peça, Marcão conseguiu recuperar uma característica que parecia perdida durante a reta final do trabalho de Zubeldía: competitividade. O Fluminense voltou a jogar como uma equipe disposta a sofrer pelo resultado.
O problema é transformar impacto em continuidade
Apesar do início extremamente positivo, existe uma diferença enorme entre convencer em uma semana e provar que está preparado para comandar o Fluminense até o fim da temporada.
O Fluminense não está em uma situação comum. O clube segue vivo na Libertadores, chegou às quartas de final e também disputa o Campeonato Brasileiro. Portanto, o próximo treinador terá uma responsabilidade enorme.
A diretoria precisa saber se o efeito Marcão é apenas o necessário para apagar um incêndio ou se existe, de fato, um trabalho capaz de sustentar uma temporada. Essa é a grande dúvida.
Historicamente, Marcão possui uma vantagem importante quando assume o Fluminense em momentos de crise: sua identificação com o clube. Ele entende o ambiente, conhece as cobranças e consegue rapidamente estabelecer uma conexão com o elenco.
Mas uma coisa é assumir um time pressionado e reorganizá-lo. Outra é comandar uma equipe por meses, enfrentar oscilações, administrar um elenco recheado de jogadores importantes e suportar a pressão de Libertadores e Brasileirão.
É justamente essa segunda etapa que a direção precisará avaliar.
A classificação pode mudar o planejamento
A vitória sobre o Palmeiras foi importante. A classificação na Argentina, porém, pode ter peso ainda maior. Eliminar o Independiente Rivadavia fora de casa, depois de jogar boa parte da partida com um jogador a menos, coloca Marcão em uma posição muito diferente daquela que ocupava quando foi anunciado como interino.
Agora existe um argumento concreto para sua permanência: ele pegou um time que estava em crise, conseguiu duas respostas competitivas e colocou o Fluminense entre os oito melhores da Libertadores.
Além disso, o treinador não precisou de uma grande reformulação para isso acontecer. Esse cenário cria um dilema para a diretoria. Contratar um treinador de mercado significa apostar que um novo comandante conseguirá fazer mais do que Marcão está fazendo agora. Manter o interino, por outro lado, significa apostar na continuidade de um trabalho que começou de maneira muito positiva.
E existe um detalhe importante: o Fluminense não precisa mais contratar um técnico desesperadamente. A pressão diminuiu. Marcão deu resultado.
Agora, se a direção entender que existe um treinador capaz de entregar um salto de qualidade, a busca pode continuar. Mas, se os próximos jogos confirmarem essa evolução, a permanência que parecia improvável há uma semana pode deixar de ser uma alternativa de emergência e virar uma escolha consciente.
Por enquanto, Marcão ainda é interino. Mas já não é apenas o interino que recebeu a missão de apagar o incêndio.
Em somente uma semana, ele conseguiu algo muito mais difícil: fazer a direção pensar se vale mesmo a pena procurar alguém para ocupar o lugar que ele está começando a preencher.
Foto: Lucas Merçon/Fluminense/Divulgação



