A efetivação de Marcão como técnico do Fluminense representa mais do que a recompensa por uma sequência positiva. Depois de assumir a equipe em meio à crise deixada pela passagem de Luis Zubeldía, o treinador conseguiu recuperar resultados e, principalmente, reconstruir a conexão entre o elenco e a comissão técnica.
Invicto nos três primeiros jogos, com vitórias sobre Palmeiras e Remo e a classificação para as quartas de final da Libertadores diante do Independiente Rivadavia, Marcão ganhou a confiança da diretoria e foi efetivado no cargo.
Mas qual é o maior trunfo para sustentar esse trabalho?
A resposta passa por uma combinação difícil de encontrar: conhecimento profundo do clube, boa relação com os jogadores e capacidade de recuperar peças que estavam em baixa.
Marcão conhece o Fluminense como poucos
Existe um fator que diferencia Marcão de um treinador que chegasse de fora: ele conhece o Fluminense por dentro. O treinador faz parte da comissão técnica do clube desde 2013 e já teve outras oportunidades de comandar a equipe, somando agora 11 passagens como interino. Essa vivência significa conhecer não apenas o elenco, mas também a rotina de Laranjeiras, Xerém, os funcionários, a torcida e a própria cultura do clube.
Isso se torna especialmente importante em momentos de crise. Marcão não precisou de um longo período de adaptação para entender o ambiente ou descobrir como determinadas peças funcionam. Ele já conhecia boa parte dos jogadores e sabe o que existe por trás de cada atleta. É um conhecimento que também ajuda na gestão do grupo.
A relação com os jogadores pesa
Essa proximidade aparece especialmente na relação com Thiago Silva. O zagueiro e ídolo tricolor não está apenas exercendo a função de capitão. Marcão deu liberdade para que ele participe da leitura das partidas e ajude nas decisões durante os jogos.
Contra o Independiente Rivadavia, na Libertadores, Thiago Silva sugeriu uma mudança no posicionamento de Serna e Soteldo quando o Fluminense estava com um jogador a menos. A alteração foi colocada em prática e Serna acabou marcando o gol que abriu o placar.
A situação resume a relação entre os dois. Marcão não enxerga a liderança de Thiago Silva como uma ameaça à sua autoridade, mas como uma ferramenta para fortalecer a equipe. Na prática, o ídolo funciona como uma espécie de extensão do treinador dentro de campo, transmitindo informações e orientando os companheiros. Para um técnico que assumiu um elenco pressionado, ter a confiança de uma das principais lideranças do vestiário é um diferencial enorme.
Marcão está recuperando jogadores
A boa relação com o grupo também aparece na quantidade de jogadores que voltaram a entregar depois da mudança no comando. Serna é o maior exemplo. O colombiano marcou três gols nos últimos três jogos, sempre entrando como reserva: contra Palmeiras, Independiente Rivadavia e Remo.
Marcão encontrou uma utilização que potencializa suas características. Serna entra quando os adversários estão mais desgastados, usa sua velocidade para atacar espaços e ainda mostrou capacidade de aparecer pelo alto.
Ganso é outro caso emblemático. Depois de viver um momento de incerteza durante a passagem de Zubeldía, próximo até mesmo de sair pela ‘porta dos fundos’, o meia voltou a ser titular e recuperou o protagonismo. Contra o Remo, teve participação importante na construção desde trás, recuando em vários momentos para participar da saída entre os dois zagueiros e o lateral que baixava, enquanto os volantes avançavam.
No segundo tempo, passou a aparecer mais à frente. A função aproveita aquilo que Ganso tem de melhor: tranquilidade, leitura e qualidade no passe.
Hulk também mudou sua participação. Mesmo convivendo com críticas recentes, o atacante tem se doado ao coletivo, recuando para ajudar na criação e abrindo espaço para a chegada de pontas e volantes. Mas sem perder o instinto de finalização: contra o Remo, marcou de cabeça.
Soteldo, por sua vez, ganhou sobrevida como titular pela esquerda. Marcão voltou a procurá-lo em situações de um contra um, colocando o venezuelano em um cenário no qual suas características individuais podem aparecer. Contra o Remo, deu a assistência para Hulk e voltou a participar diretamente de um gol.
A base também ganhou espaço
O trabalho não está restrito aos jogadores experientes e Riquelme é um exemplo perfeito. Pouco utilizado anteriormente, entrou contra o Remo e precisou de apenas alguns segundos para participar do gol da virada. Em seu primeiro toque na bola, cruzou para Serna marcar.
Júlio Fidelis também aproveitou a oportunidade na lateral direita, após a suspensão de Guga e a lesão de Samuel Xavier, e deixou boa impressão.
São situações que aumentam o leque de opções do treinador. E o conhecimento de Marcão sobre o clube também ajuda nesse processo, já que ele conhece de perto a estrutura e o trabalho desenvolvido em Xerém.
O maior trunfo está na soma
É difícil apontar apenas uma característica para explicar a força de Marcão neste momento. Ele conhece o clube, entende o ambiente e possui relações construídas ao longo dos anos. Tem a confiança de jogadores importantes, como Thiago Silva, e encontrou maneiras de recuperar atletas que estavam questionados. Ao mesmo tempo, ampliou o espaço para jovens e aumentou suas possibilidades dentro do elenco.
Serna virou uma arma decisiva. Ganso recuperou o papel de maestro. Hulk voltou a contribuir mais para o jogo coletivo sem perder o poder de decisão. Soteldo ganhou confiança e voltou a produzir. Riquelme e Júlio Fidelis mostraram que podem ser alternativas.
Agora, o desafio é transformar essa resposta inicial em consistência. A boa largada não garante que Marcão terá sucesso, mas mostra que ele possui uma vantagem importante: conhece o clube, conhece os jogadores e sabe como trabalhar em um ambiente que já faz parte de sua história.
Se conseguir transformar essas recuperações individuais em um time cada vez mais consistente, terá mais do que uma sequência positiva para defender seu trabalho. Terá mostrado que seu maior trunfo talvez seja justamente aquilo que nenhum treinador recém-chegado consegue construir rapidamente: conhecimento de casa, confiança do grupo e capacidade de fazer o próprio elenco voltar a acreditar em si.
FOTO: MARCELO GONÇALVES / FLUMINENSE F.C./DIVULGAÇÃO



