Wallace Grêmio
Futebol

Como Wallace chegou do CRB e se firmou tão rápido no Grêmio?

Quando o Grêmio anunciou Wallace, em 26 de junho, a contratação tinha cara de aposta. Aos 21 anos, o zagueiro vinha do CRB, onde estava em alta, e também havia despertado o interesse de Cruzeiro e Red Bull Bragantino. O Tricolor pagou R$ 3 milhões por 50% dos direitos econômicos, com o clube alagoano mantendo a outra metade, e assinou contrato por cinco temporadas.

Pouco mais de dois meses depois, Wallace já deixou de ser apenas um investimento para o futuro.

Desde que ganhou a primeira oportunidade como titular, contra o Mirassol, no dia 2 de agosto, pela ida das oitavas de final da Copa do Brasil, o zagueiro não saiu mais da equipe. Já são seis partidas entre os titulares, formando dupla com Gustavo Martins, Wagner Leonardo e Kannemann.

A rapidez com que conquistou espaço chama atenção, principalmente pelo salto de nível. Wallace saiu da Série B diretamente para um dos grandes clubes do país e, em poucas semanas, passou a disputar jogos decisivos sem demonstrar grandes dificuldades de adaptação.

Um zagueiro que não se esconde

A principal característica de Wallace talvez não esteja em uma qualidade técnica específica, mas na maneira como ele encara o jogo.

O defensor é agressivo nos duelos, gosta do contato físico e não costuma recuar diante do confronto. Em um time que tem jogadores experientes na defesa, já demonstra personalidade para participar da comunicação e assumir responsabilidades dentro de campo.

Isso apareceu, inclusive, no Gre-Nal 453. Wallace participou de uma partida bastante física e terminou entre os jogadores que mais contribuíram para o Grêmio proteger a área. Em um clássico de poucas chances, esse tipo de atuação ganha ainda mais importância.

O estilo também ajuda na identificação com o torcedor. Wallace tem uma postura bastante tradicional, quase à moda antiga. É firme, competitivo e joga com a camisa para dentro do calção, uma imagem que combina com o tipo de zagueiro que historicamente encontra espaço no imaginário gremista.

Mas seria simplificar demais dizer que ele ganhou a posição apenas por isso.

Mais do que força física

Wallace também oferece recursos quando o Grêmio tem a bola. O zagueiro demonstra confiança para participar da saída, recebe de frente e procura passes verticais e lançamentos. Quando encontra espaço, conduz a bola e tenta fazer o time avançar. Não é um defensor que se limita a esperar a bola chegar para depois afastá-la.

Essa característica se encaixa no modelo de Luís Castro, que cobra participação dos defensores na construção das jogadas.

Para Wallace, isso também representa uma vantagem. Sua capacidade de atuar em diferentes situações faz com que ele possa contribuir tanto quando o Grêmio precisa defender mais baixo quanto quando precisa iniciar a construção desde trás.

A experiência em outras posições durante a passagem pelo CRB ajuda a entender parte dessa desenvoltura. Antes de se consolidar como zagueiro, Wallace também atuou como volante e lateral-direito.

O jogo aéreo é outra arma importante. Logo em seu terceiro jogo como titular, na estreia pelo Campeonato Brasileiro, marcou na vitória por 2 a 1 sobre o São Paulo, na Arena do Grêmio.

Não é pouca coisa para um jogador que, naquele momento, ainda estava começando a conhecer o tamanho da camisa que vestia.

A adaptação veio antes da cobrança

Existe também um componente mental nessa história. Wallace não teve um período longo de adaptação antes de começar a ser cobrado como titular. A oportunidade apareceu em um mata-mata de Copa do Brasil e ele respondeu bem. Depois, manteve o nível e ganhou sequência.

O mais interessante é que a mudança de parceiro não parece ter afetado seu rendimento. Gustavo Martins, Wagner Leonardo e Kannemann já atuaram ao seu lado, e Wallace continuou ocupando seu espaço.

Isso é relevante para um zagueiro jovem. A defesa é um setor em que entrosamento costuma pesar, principalmente na comunicação, na cobertura e na tomada de decisão. Wallace conseguiu construir rapidamente uma relação funcional com diferentes companheiros.

Também não parece jogar com a preocupação de demonstrar que está à altura do Grêmio. Ele simplesmente joga. Essa confiança pode ser um dos fatores que mais ajudam a explicar a ascensão tão rápida.

O encaixe com o Grêmio

A chegada de Wallace aconteceu em um momento em que o Grêmio precisava encontrar soluções para sua defesa. E o jogador ofereceu justamente um perfil que combina com o clube.

Há o lado competitivo, importante para um time que precisa vencer duelos. Há a força física e o jogo aéreo. E existe a capacidade de sair jogando, algo cada vez mais necessário no futebol atual.

Luís Castro encontrou um defensor jovem que consegue participar das duas fases do jogo sem transformar nenhuma delas em uma limitação evidente.

Para a torcida, a identificação foi ainda mais rápida porque Wallace apresenta características facilmente reconhecíveis. Ele disputa, reclama, orienta, antecipa e não foge do jogo físico.

Em um elenco com nomes experientes, não demorou para deixar de parecer apenas o garoto que veio da Série B.

Ainda é cedo para saber até onde ele pode chegar

É preciso, naturalmente, colocar a ascensão em perspectiva. Seis jogos como titular ainda representam uma amostra pequena. Wallace vai enfrentar adversários que conhecerão melhor suas características, terá partidas em que cometerá erros e precisará mostrar que consegue manter o nível quando a pressão aumentar.

Nada disso diminui o início que teve.

O Grêmio investiu R$ 3 milhões por metade dos direitos econômicos de um zagueiro de 21 anos que vinha da Série B. Dois meses depois, ele já é uma das primeiras opções da defesa.

Talvez o maior mérito de Wallace até aqui seja justamente não ter tentado fazer mais do que precisava. Ele chegou, ganhou a oportunidade e jogou com as características que já tinha.

Ainda é cedo para dizer que o Grêmio encontrou um grande zagueiro para muitos anos. Mas já dá para entender por que Wallace se firmou tão rápido: seu estilo competitivo, sua segurança nos duelos e sua disposição para jogar com a bola combinaram quase imediatamente com o que o time precisava e com o que a torcida gosta de ver.

FOTO: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA/DIVULGAÇÃO